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JBS prevê ciclo positivo nos EUA até 2020

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Nilani Goettems/Valor

André Nogueira, que comanda a JBS USA: após recorde no primeiro semestre, perspectivas para o segundo são ainda melhores

Se enfrenta o período mais crítico de sua história no Brasil, a JBS só tem motivos para comemorar nos EUA. Com dez anos recém-completados em território americano, a companhia nunca ganhou tanto dinheiro no país – e a boa fase está no início.

À frente da JBS USA, divisão que representa 70% das vendas do grupo brasileiro, André Nogueira prevê ventos favoráveis até 2020. Isso porque o crescimento da oferta de boi gordo nos EUA tende a impulsionar a produção de carne bovina da empresa, o que deverá engordar sua geração de caixa e acelerar a redução do endividamento.

No segundo trimestre deste ano, a JBS USA registrou receita líquida de US$ 9,3 bilhões – equivalente a R$ 30,8 bilhões, considerando a cotação do dólar no fim de junho – 8% mais que no mesmo intervalo de 2016 (US$ 8,6 bilhões). No primeiro semestre, o crescimento observado foi de 7%, para US$ 17,6 bilhões.

"Entregamos os melhores seis meses da história com a perspectiva de que o segundo semestre será ainda melhor", disse Nogueira ao Valor. Em teleconferência com analistas ontem sobre os resultados da companhia, o presidente global da JBS, Wesley Batista, disse que a rentabilidade da JBS USA Beef – que também engloba os negócios de bovinos em Canadá e Austrália – neste terceiro trimestre será maior que a do segundo, que já foi recorde.

Sozinho, o negócio de carne bovina comandado por Nogueira normalmente responde por 25% do lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda). Em momento de dificuldade no Brasil como o atual alcança quase 30%.

E é ancorada na boa fase nos EUA que a JBS acredita que pode atingir um índice de alavancagem (relação entre dívida líquida e Ebitda anual) de 3,5 vezes já no fim de 2017. No recente acordo de renegociação de dívida firmado com os bancos no Brasil, a companhia se comprometeu a atingir esse nível no ano que vem.

"Vamos surpreender o mercado com a redução de alavancagem já no terceiro trimestre", afirmou Batista. Para tanto, o empresário aposta suas fichas nos Estados Unidos, além dos R$ 6 bilhões que a JBS pretende obter com a venda de ativos – a irlandesa Moy Park, a americana Five Rivers e a fatia minoritária na Vigor, cuja venda à mexicana Lala já foi anunciada.

Nogueira ressaltou que não é só o negócio de carne bovina que vai bem. Em carne suína, a empresa segue avançando, com crescimento da produção nas linhas de "case ready", produtos vendidos na bandeja nos supermercados. Também em aves – a JBS é dona da Pilgrim’s Pride, que produz carne de frango nos EUA, Porto Rico e México -, as perspectivas são boas, em razão da queda das cotações do milho.

"No último relatório do USDA [Departamento de Agricultura dos EUA] ficou claro que o rendimento do milho está muito acima do que o mercado esperava no país", disse Nogueira. Desde a semana passada, quando o órgão revisou suas estimativas para a safra americana, os preços recuaram quase 2,6%.

Mesmo na Austrália, onde a produção de carne bovina caiu 10% no primeiro semestre, já é possível notar uma recuperação, disse o presidente da JBS USA. Mas o cenário se inverteu e, nas últimas semanas, o nível de produção cresceu na comparação anual. Com isso, a expectativa é que a Austrália, que está entre os maiores exportadores de carne bovina do mundo, atrás de Brasil e EUA, feche o ano com uma produção estável ou em uma ligeira queda de 2%.

A partir do ano que vem, a Austrália contribuirá com os resultados da JBS mais decisivamente. De acordo com o executivo, a rentabilidade do negócio de carne bovina na Austrália é estruturalmente mais alta que nos EUA, o que não está acontecendo agora devido à restrição de gado bovino no país. "Mas ano que vem equipara e em 2019 volta a ficar acima", previu.

Ainda na avaliação do presidente da divisão da JBS, a melhora de oferta de gado na Austrália no médio prazo só tem aspectos positivos. De acordo com ele, o crescimento da demanda na Ásia faz com que a competição entre EUA e Austrália nas exportações seja menor.

De certa forma, argumentou, isso já pode ser visto neste ano. Com a maior oferta de boi, as exportações americanas de carne bovina ao Japão aumentaram 25%, mas os australianos não reduziram as vendas. "Isso é o crescimento da demanda doméstica [do Japão] e reposição da produção", disse, citando a queda da produção do Japão.

Por outro lado, Nogueira reconheceu que a combinação entre a maior oferta nos EUA e a menor na Austrália fez os frigoríficos do país da Oceania reduzirem os embarques aos EUA. Os australianos também perderam espaço na China, mas nesse caso para os brasileiros. De modo geral, porém, há demanda para todo os exportadores, disse.

Por Luiz Henrique Mendes | De São Paulo

Fonte: Valor