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JBS põe mais ativos à venda e atrai grupo chinês

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Anunciado na manhã de ontem, o novo plano de desinvestimentos da JBS tem na irlandesa Moy Park, segunda maior empresa de carne de frango do Reino Unido, seu principal ativo. Do total de R$ 6 bilhões que a JBS informou que pretende arrecadar com o plano, mais da metade poderá vir da venda da subsidiária europeia. O "pacote" também inclui uma participação de 19,2% na empresa de lácteos Vigor – controlada pela J&F Investimentos, holding da família Batista -, a Five Rivers, que é dona de confinamentos de gado nos Estados Unidos, e fazendas.

Quando comprou a Moy Park da concorrente brasileira Marfrig, em 2015, a JBS pagou US$ 1,5 bilhão, incluindo a assunção de US$ 293 milhões em dívidas. Dada a situação da JBS, a expectativa é que os interessados barganhem mas, segundo apurou o Valor, a companhia irlandesa deve se confirmar uma boa fonte de recursos. Segundo uma fonte próxima à JBS, a Moy Park já desperta o interesse de concorrentes e tem até um candidato natural: o grupo chinês WH, que controla a americana Smithfield Foods, maior empresa produtora de carne suína do mundo.

Em uma rara entrevista, o diretor de Relações com Investidores do grupo chinês, Luis Chein, disse recentemente à agência Reuters que os alvos da expansão do grupo são Europa e EUA, e que a intenção é avançar nos mercados de carne bovina e de frango. A JBS não informou se já há negociações em curso envolvendo os ativos que fazem parte do plano de desinvestimentos. Mas observadores lembraram que o empresário Joesley Batista, que saiu do país e foi afastado da presidência do conselho de administração da JBS depois da delação premiada na qual fez graves acusações ao presidente Michel Temer e a tantos outros políticos, estava na China antes de voltar ao Brasil, no dia 11 de junho.

Fontes do segmento dizem que outros grupos estrangeiros, como a americana Tyson Foods, têm interesse na Moy Park, e que a empresa também seria estratégica para a brasileira BRF, se esta estiver disposta a se alavancar mesmo em meio a seu processo de reestruturação da gestão. A companhia irlandesa é encarada, afinal, como uma base importante para uma plataforma de produção na União Europeia. Tanto é assim que sua venda não fazia parte dos planos da JBS antes da delação. Pelo contrário: a companhia pretendia crescer na Europa, com carnes de frango e suína, a partir da Moy Park. Em entrevista ao Valor em 2015, Wesley Batista, CEO da JBS, disse que via oportunidades de aquisições na França, na Espanha e na Itália.

Do restante do novo "pacote" colocado à venda – a JBS já havia anunciado a venda, por US$ 300 milhões, de nove frigoríficos em Argentina, Paraguai e Uruguai para a também brasileira Minerva -, aparentemente o ativo que tem maior liquidez é a Five Rivers. No mercado, a avaliação é que o negócio pode atrair fundos estrangeiros que desejam investir em uma operação de renda fixa. Com capacidade estática para abrigar mais de 1 milhão de cabeças de gado – informações disponível no site da subsidiária da JBS -, a companhia controlada pela JBS USA é vista como ume negócio de pouco risco para os compradores: o boi engordado na Five Rivers tem como destino natural os próprios frigoríficos da JBS nos Estados Unidos.

Já a participação de 19,2% da JBS na Vigor pode ser um negócio mais difícil, até porque a fatia restante pertence à J&F. A holding tenta vender a empresa de lácteos desde o ano passado – muito antes, portanto, da delação. A reportagem apurou que na fase inicial de prospecção, a Vigor foi oferecida à Cutrale, que preferiu continuar focada em suco de laranja, banana e soja, seus principais negócios. Posteriormente, a americana PepsiCo chegou a oferecer R$ 6 bilhões, como o Valor informou.

Se a J&F conseguisse hoje obter o pela Vigor o mesmo valor oferecido no início do ano pela PepsiCo – o que muitos no mercado duvidam, por conta da exposição negativa da companhia e do maior poder de barganha que os interessados passaram a ter -, a JBS conseguiria, por sua fatia, quase R$ 1,2 bilhão. Além da PepsiCo, a J&F tem mantido conversas para uma eventual venda da Vigor com as francesas Lactalis e Danone, com a mexicana Lala e também com a Coca-Cola, segundo fontes do mercado. PepsiCo e Danone não responderam a pedidos de entrevista. A Coca-Cola informou que não há negociação em curso, e a Lactalis afirmou que são "especulações de mercado e não pode comentar".

Em comunicado, a JBS informou que a venda dos ativos está sujeita à aprovação prévia do conselho de administração e à prévia anuência da BNDESPar (ver "Ipsis Litteris"). (Colaboraram Alda do Amaral Rocha, Cibelle Bouças e Fernando Lopes)

Por Luiz Henrique Mendes e Fernanda Pressinott | De São Paulo

Fonte : Valor