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JBS deflagra nova fase de expansão nos EUA

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Divulgação

Sede da JBS nos EUA, em Greeley, no Estado do Colorado; empresa quer ter plataforma semelhante à Seara no país

O insaciável interesse da JBS por aquisições, que parecia adormecido e relegado a um segundo plano neste ano, voltou à tona. Quase uma década após aportar nos EUA com a compra da centenária Swift Company, disparando um intenso movimento que a fez faturar mais de R$ 80 bilhões ao ano em território americano, a empresa deflagrou na última segunda-feira a mais nova etapa de sua expansão naquele país.

Embora menos ambicioso que o intenso movimento da década passada, que alçou a JBS à liderança na produção mundial de carnes, desta vez o objetivo é criar uma plataforma de produtos de marca similar à Seara na maior economia do globo. Há alguns anos, os Estados Unidos são o principal mercado da empresa brasileira – aproximadamente 50% das vendas ocorrem lá -, mas os produtos in natura, muitas vezes sem marca, são os mais relevantes.

"Construir uma plataforma como a Seara no mercado americano é uma das grandes oportunidades que a companhia tem hoje", disse o CEO global da JBS, Wesley Batista, em teleconferência com analistas ontem. A declaração do empresário, que em outubro passado chegou a dizer que vislumbraria novas oportunidades somente em 2018, acontece no dia seguinte ao anúncio da compra da americana Plumrose, por US$ 230 milhões.

Com cinco unidades de produtos industrializados à base de carne suína – distribuídas pelos Estados americanos de Indiana, Iowa, Mississipi e Vermont -, a Plumrose fatura anualmente US$ 500 milhões. Para Batista, trata-se de um negócio de "médio porte". Como ele, há outros nos EUA que também podem ser alvos da brasileira. "Não tem nada grande no radar. Mas coisas do tipo da Plumrose. Acreditamos que existem várias ou algumas oportunidades", disse Batista, sem citar os alvos.

Quando o assunto é JBS nos EUA, não é mera retórica dizer que a Plumrose não foi uma grande transação, ainda que tenha custado quase R$ 730 milhões. Desde maio de 2007, quando comprou a Swift, a empresa investiu US$ 3,8 bilhões em aquisições nos EUA, sem considerar as dívidas assumidas nas compras.

A partir da sede da Swift em Greeley, no Estado americano do Colorado, a JBS montou sua base nos EUA. Apoiada pela BNDESPar, braço de participações do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) que tem 21,3% do capital da JBS, a companhia comandada pela família Batista ampliou as apostas no mercado americano em 2008, com a aquisição do negócio de carne bovina da americana Smithfield.

Para avançar no território americano, a JBS se aproveitou das turbulências provocadas pela quebra do banco Lehman Brothers. A crise financeira global, que teve nos EUA seu epicentro, sacudiu as indústrias de carnes daquele país, derrubando a demanda e evidenciando problemas de gestão. Nesse processo, gigantes como a Pilgrim’s Pride, de carne de frango, foram à bancarrota.

Do outro lado, a desvalorização do dólar e a apreciação do real tornaram as grupos americanos mais baratos para investidores brasileiros. Não à toa, nesse período a JBS e concorrentes como a Marfrig fizeram compras nos Estados Unidos.

Em 2009, a JBS começou a diversificar sua produção, assumindo o controle da Pilgrim’s, então em recuperação judicial. Àquela altura, tratava-se do primeiro negócio de carne de frango sob o comando da JBS. No Brasil, a empresa só daria os primeiros passos na área de carne de frango em 2012. Já a Seara, hoje o símbolo do que Batista quer fazer nos Estados Unidos, só seria incorporada à companhia em 2013.

De certa maneira, o renovado interesse da JBS na aquisição marcas e produtos de maior valor agregado nos EUA é reflexo de uma das maiores derrotas da família Batista. Há três anos, a Pilgrim’s Pride perdeu a renhida disputa pela aquisição da americana Hillshire Brands para a rival Tyson Foods, que atualmente é a maior empresa de carne dos EUA. Incluindo a assunção de dívidas, a aquisição saiu por US$ 8,5 bilhões.

Dona de marcas famosas no mercado americano, como as linguiças Jimmy Dean e a salsichas Ball Park, a Hillshire era a grande oportunidade para crescer em alimentos processados nos EUA. No mercado, comentava-se que não havia ativos semelhantes no país, especialmente em tamanho. "Temos muitas outras coisas para fazer que não dar um passo desse tamanho [comprar a Hillshire]. Há muitas outras oportunidades e, sinceramente, esse é o meu foco", admitiu o CEO da JBS USA, André Nogueira, ao Valor , meses após perder a disputa para a Tyson Foods.

De lá para cá, a JBS assumiu as operações de carne suína da Cargill nos EUA, por US$ 1,45 bilhão, e em janeiro, a Pilgrim’s concluiu a compra da GNP, especializada em frangos orgânico e livres de antibióticos.

Em paralelo, a empresa também está trabalhando no plano de reorganização na qual os Estados Unidos terão papel fundamental, fazendo jus ao que o país hoje representa para a JBS. Neste momento, a companhia está em processo para listar a subsidiária JBS Foods Internacional, na bolsa de Nova York. A subsidiária reúne ativos responsáveis por mais de 80% das vendas da JBS. Tamanha é a importância dos EUA que John Boehner, ex-presidente da Câmara dos Representantes, foi indicado membro do conselho de administração da JBS Foods International.

Por Luiz Henrique Mendes | De São Paulo

Fonte : Valor