.........

Japão busca ampliar suas exportações de alimentos

.........

Shinzon Abe, primeiro-ministro do Japão: planos de reforma para a agricultura
É um mal-estar nacional: por que o Japão, uma superpotência culinária e campeão inconteste do guia Michelin, é tão fraco na exportação de alimentos? Em 2015, os embarques japoneses somaram cerca de US$ 5,3 bilhões, mais ou menos o que rendem as vendas de queijo Edam da Holanda ao exterior. E isso apesar do peixe cru, do chá verde e da carne de bovinos da raça wagyu, a origem do bife Kobe.

Para o governo do primeiro-ministro Shinzon Abe, essa oportunidade econômica perdida está agora colidindo com o imperativo político de ajudar os agricultores japoneses a sobreviver em tempos de Parceria Transpacífico, que vai reduzir tarifas para produtores supereficientes dos Estados Unidos e da Austrália.

Tóquio quer que as exportações agrícolas anuais do país atinjam US$ 9 bilhões em 2020. Apesar da desaceleração econômica dos mercados emergentes, que está afetando as exportações japonesas como um todo, nesta semana o ministro do Comércio, Nobuteru Ishihara, disse que há a possibilidade de a meta ser alcançada até mais cedo.

Em ienes, as exportações japonesas de alimentos cresceram 24,3% no ano passado, puxadas pela demanda da China, enquanto os embarques como um todo aumentaram desapontadores 3,5%.

Masayoshi Honma, professor de economia agrícola da Universidade de Tóquio, resume a situação de forma simples: "As exportações japonesas de alimentos são pequenas [apesar do incremento de 2015] porque são caras". Segundo ele, "há uma diferença enorme entre os preços japoneses e os preços internacionais".

A obsessão do Japão com a produção de arroz, ligada a uma arraigada preocupação com autossuficiência alimentar, e a baixa produtividade das propriedades rurais do país, que têm pequena escala e são altamente subsidiadas, contribuem para que os preços dos produtos exportáveis sejam altos.

Durante anos, a importância dos votos das áreas rurais para o Partido Liberal Democrático tornou a agricultura "sagrada". Mas, com o envelhecimento dos produtores – a idade média dessa população é hoje de 70 anos -, Abe passou a se mostrar disposto a promover reformas.

Uma das poucas medidas que seu governo espera aprovar antes das eleições para a Câmara Alta do Parlamento, no terceiro trimestre, será permitir que empresas sejam donas de terras cultiváveis. A medida é considerada crucial para ampliar escala e eficiência das fazendas do país.

Mas Honma é cauteloso com a meta de crescimento do governo para as exportações agrícolas e observa que, nos US$ 9 bilhões, também estão incluídos pescados, frutos do mar e alimentos processados. A maior parte das atuais exportações "agrícolas" é formada por frutos do mar capturados pela enorme frota pesqueira japonesa.

Da meta estipulada, os frutos do mar representam 35%. Mas o plano prevê um incremento de quase cinco vezes das exportações de carne bovina, para US$ 220 milhões, um avanço semelhante para o arroz, para US$ 535 milhões, e que os embarques de chá verde tripliquem e alcancem cerca de US$ 130 milhões.

O Ministério da Agricultura do Japão quer desenvolver mercados na Europa e nos EUA. Mas, enquanto não reduzir seus preços, é pouco provável que o Japão saia de seus nichos. "Espero que o arroz japonês possa ser cada vez mais exportado", diz Honma. "Mas precisamos reduzir os custos de produção." (Tradução de Sabino Ahumada)

Por Robin Harding | Financial Times, de Tóquio

Fonte : Valor