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Irrigação e solo exigirão US$ 1,1 tri, prevê FAO

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Fonte: Valor | Assis Moreira | De Roma

Cenários: Aportes previstos até 2050 pela agência da ONU refletem demanda por alimentos e mudanças climáticas

A demanda sem precedentes por alimentos e as mudanças climáticas exigirão investimentos de US$ 1,12 trilhão em irrigação agrícola e preservação de solos em países em desenvolvimento até 2050. A projeção faz parte do primeiro relatório da FAO, agência da ONU, sobre a situação de terras e água para alimentação e agricultura no mundo, que será publicado no quarto trimestre.

Para a FAO, em 2050 o aumento da população e da renda vai demandar uma produção alimentar 70% superior a de 2009. Mais de 80% do crescimento da oferta agrícola deverá vir da maior produtividade das terras atualmente exploradas e da intensificação da irrigação. Os investimentos líquidos para desenvolvimento e gestão da irrigação são calculados em US$ 960 bilhões – US$ 24 bilhões por ano, contando a partir de agora. Proteção e administração de terras, conservação de solos e luta contra inundações demandarão US$ 160 bilhões, ou US$ 4 bilhões por ano.

Como novas fontes de financiamento, a FAO sugere que os governos cobrem por serviços ambientais na agricultura e usem o mercado de créditos de carbono. Financiamentos internacionais deverão completar projetos nacionais públicos e privados. A disponibilidade de terras e água para assegurar a produção alimentar e agrícola, quando justamente esses recursos se tornam mais e mais raros, atrai novamente a atenção da comunidade internacional desde a recente alta dos preços dos alimentos, da volatilidade das matérias-primas e da multiplicação de aquisições de vastas áreas agrícolas.

A FAO prevê que a competição por terra e água se tornará mais dura. Tanto no setor agrícola – entre a pecuária, as grandes culturas e os biocombustíveis -, como entre agricultura, de um lado, e de outro indústria e cidades, onde a demanda sobretudo por água crescerá muito mais rapidamente. O levantamento indica que a gestão de terra e água se ajustou rapidamente à demanda por alimentos e fibras. A agricultura mecanizada e intensiva no uso de insumos e irrigação turbinaram a produtividade. A produção agrícola mundial foi multiplicada por entre 2,5 e 3 nos últimos 50 anos, enquanto a área cultivada só cresceu 12%.

Mais de 40% do aumento da produtividade agrícola ocorreu em áreas irrigadas, que dobraram em superfície. No mesmo período, a área total de terra cultivada per capital caiu de 0,44 hectare para menos de 0,25. A agricultura ocupa, hoje, 11% das terras mundiais e utiliza 70% de toda água de aquíferos, rios e lagos para produzir vegetais. Mas os dois recursos são desigualmente repartidos. A superfície cultivada per capita nos países mais pobres é menos de 50% daquela nos países desenvolvidos, e a terra é geralmente menos favorável à agricultura.

Mas é a agricultura não irrigada o sistema de produção mundial predominante, e a variação crescente do clima torna os níveis de produtividade aleatórios. A produtividade atual de sistemas de culturas não irrigadas é apenas metade do seu potencial, e nos países mais pobres é somente 20% do que se poderia obter. Globalmente, a agência da ONU estima que os ganhos de produtividade vieram com má gestão das terras cultivadas e utilização da água.

Para a FAO, a agricultura intensiva de EUA, leste da China, Turquia, Nova Zelândia, regiões da Índia, África austral e Brasil correm risco de poluir solos e aquíferos, empobrecer a diversidade biológica, degradar ecossistemas de água doce e apresentar mais colheitas ruins por causa da agravação da variação climática.

A concentração da agricultura irrigada com forte uso de insumos em terras de boa qualidade permite limitar a expansão de regiões de cultivo. No entanto, esse sistema também funciona abaixo de seu potencial, e a FAO vê margem para melhorar a produtividade da água e da terra. A superfície irrigada aumenta 0,6% ao ano, e 40% do total utiliza águas subterrâneas. Mas a penúria crescente de água vem freando a produção irrigada em vários países.

Uma expansão de terras agrícolas será ainda possível na América Latina e na África Subshariana. Num futuro mais distante, a mudança climática elevará o potencial de expansão em zonas temperadas. Nesse cenário, a FAO constata a aquisição de vastas áreas de terras em ascensão na América Latina, África e Ásia, onde os recursos em terra e água são mais abundantes. Essas compras envolvem uma pequena proporção de terras para agricultura, mas podem dificultar o acesso a recursos naturais por parte de comunidades locais.

Caberá ao brasileiro José Graziano da Silva, diretor geral da FAO a partir de janeiro de 2012, levar adiante a briga por novas fontes de financiamento também para proteger terras e água.