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Irã amplia compra de trigo e se prepara para o pior

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O Irã está ampliando as importações de trigo, inclusive com algumas raras compras dos Estados Unidos, num sinal de que Teerã está criando um estoque estratégico em preparação para sanções internacionais ainda piores ou até um conflito militar.

O país tem comprado trigo dos EUA, da Austrália, do Brasil e do Cazaquistão nos últimos meses e está negociando o que pode ser uma remessa importante de trigo da Índia, segundo pessoas a par do mercado e dados oficiais.

Uma manobra como essa pode fortalecer o regime islâmico do país, num momento em que os países ocidentais estão pressionando cada vez mais o Irã por causa de seu polêmico programa nuclear, inclusive cortando as compras de petróleo iraniano e barrando seus bancos das redes internacionais. As sanções americanas atuais contra o Irã permitem a venda de alimentos ao país.

Acesso ao trigo é crucial para que o país possa evitar altas súbitas no preço do pão, gênero de primeira necessidade para seus 78 milhões de cidadãos. Altas como essas já causaram turbulência social no Irã e em outros países do Oriente Médio.

  

O Irã provavelmente está se antecipando ao fortalecimento das sanções, bem como à desvalorização de sua moeda, disse Paul Sullivan, especialista em Oriente Médio e professor adjunto da Universidade Georgetown. O rial, a moeda local, já caiu 30% em relação ao dólar nos últimos meses, o que torna as compras em dólar mais caras para o país. "É evidente que eles estão preocupados com a desvalorização da moeda e com a possibilidade de uma guerra", disse Sullivan. "O país realmente está sendo espremido".

A seca recente na região pode ter aumentado a urgência das compras iranianas, disse ele. O Irã deve começar a colheita da nova safra do trigo em maio, e pode estar temendo uma safra menor, disse Chris Gadd, analista agrícola da Macquarie, num e-mail.

Os operadores estão de olho nas compras do Irã, que costuma importar relativamente pouco trigo. Mas a oferta da commodity está farta no momento, e as compras não impulsionaram a cotação.

O preço futuro do trigo subiu apenas 1,1% este ano, para US$ 6,595 o bushel (25,4 quilos), bem menos que o auge atingido no ano passado, de quase US$ 9.

É normal que países em conflito continuem tendo relações comerciais. Mas as compras iranianas representam um forte contraste para as tentativas dos países ricos de aumentar a pressão sobre Teerã.

O Departamento de Agricultura dos EUA calcula que o Irã vai importa 2 milhões de toneladas de trigo até junho. É dez vezes mais que a estimativa de fevereiro, e suficiente para cobrir 13% do consumo anual iraniano, segundo dados do USDA, como o departamento é conhecido. Executivos do setor dizem que o Irã está se preparando para comprar até 3 milhões de toneladas de trigo da Índia, mas não está claro se o acordo realmente foi fechado.

Os EUA venderam para o Irã 180 mil toneladas de trigo vermelho de inverno, normalmente usado na panificação. Antes de 2008, quando o Irã comprou trigo americano depois que sua safra foi destruída por uma seca, o país não comprava trigo dos EUA havia quase três décadas.

Desta vez, a safra iraniana está relativamente abundante, dizem observadores.

Não está claro quais empresas estão vendendo trigo para o Irã, mas firmas importantes de commodities, como a Bunge e a Cargill, ambas americanas, afirmam que vendem produtos agrícolas para o Irã de acordo com as cláusulas das sanções que permitem exportar alimentos.

"Tomamos muito cuidado para garantir que essas vendas respeitem tanto o espírito quanto a determinação da lei enquanto garantam que pessoas comuns não sejam privadas de alimentos básicos", afirmou a Cargill num comunicado.

A Bunge disse também que suas exportações ao Irã "estão de acordo com todas as leis de sanções econômicas aplicáveis".

Conforme crescem as sanções contra o Irã, tem ficado cada vez mais difícil para o país fechar os negócios e pagar por essas compras, dizem empresários e banqueiros do Oriente Médio.

Os bancos iranianos geralmente enviam pagamentos aos EUA via um banco europeu ou do Oriente Médio. Mas alguns bancos pararam de fazer negócio com o Irã por medo de retaliação dos EUA, dizem essas pessoas.

A associação europeia de liquidação de pagamentos, conhecida como Swift, baniu este mês 20 instituições financeiras iranianas de seu sistema de transferências interbancárias. O Congresso americano está debatendo novas sanções contra as poucas firmas financeiras iranianas que ainda estão envolvidas nessas operações, o que pode estrangular ainda mais conexões, dizem empresários e autoridades regionais.

O presidente americano, Barack Obama, afirmou este mês que "não descarta nenhuma opção" para impedir que o Irã consiga uma arma nuclear. As autoridades iranianas dizem que o programa nuclear do país não é voltado ao desenvolvimento de bombas atômicas, mas sim à produção de energia.

As autoridades iranianas ainda não comentaram publicamente as compras recentes de trigo. As autoridades em Teerã não retornaram pedidos por escrito para que comentassem. O porta-voz da delegação iraniana na ONU não retornou telefonemas.

(Colaboraram Neena Rai, Matt Moffett e Biman Mukhereji)

Fonte:  Valor | Por Liam Pleven, Margaret Coker e Benoît Faucon | The Wall Street Journal, de Nova York, Abu Dhabi e Londres