.........

IPO fica mais distante, e ação da JBS desaba

.........

Apesar de ainda nutrir esperança de abrir o capital da subsidiária JBS Foods International no segundo semestre, o empresário Wesley Batista sinalizou ontem que a oferta inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) pode não ocorrer em 2017.

Em teleconferência com analistas ontem, o presidente global da JBS indicou que as investigações que envolvem a companhia – a Carne Fraca e mais recentemente a Operação Bullish – atrapalham a percepção dos investidores, afetando assim a avaliação ("valuation") da subsidiária. "Vamos aguardar o momento correto de fazer o IPO", afirmou.

De acordo com o empresário, se o tema de discussão entre os investidores não for apenas os resultados da companhia, a abertura de capital pode não valer a pena. "Se as pessoas estiverem discutindo coisas que não sejam a companhia e a perspectiva de resultados, a gente acha que não vale a pena fazer o movimento. Porque provavelmente será prejudicial", disse.

Indagado por analistas, Wesley Batista inicialmente deu a entender que o IPO aconteceria no segundo semestre. Segundo ele, esse seria um prazo "realista", tendo em vista que a repercussão da Carne Fraca já havia atrasado o cronograma inicial da companhia, que pretendia abrir o capital da JBS Foods International neste primeiro semestre. "Acreditamos que no segundo semestre é o momento mais próximo", disse, ressaltando que a empresa só deveria "ir ao mercado" após resolver questões pendentes referentes à Operação Carne Fraca.

Não contentes com as respostas, os analistas voltaram à carga. Quase ao fim da teleconferência, Batista completou seu raciocínio. Ele afirmou que, "quando fala em segundo semestre", é preciso ponderar que, independentemente da Operação Carne Fraca ou de outro evento, o IPO só deve ser feito caso gere valor aos acionistas.

Para os investidores, o fato é que a abertura de capital, que era bem vista pelo potencial de "destravar" valor, está cada vez mais distante. Tanto é assim que o Itaú BBA rebaixou a recomendação para as ações da JBS, de ‘outperform’ para ‘market perform’.

Nesse cenário, as ações da JBS registraram ontem a maior queda entre os papéis que compõem Ibovespa na B3. Os papéis caíram 8,62%, para R$ 9,86. Com isso, a companhia perdeu R$ R$ 2,538 bilhões do valor de mercado, encerrando o pregão avaliada em R$ R$ 26,905 bilhões.

Do ponto de vista jurídico, no entanto, Batista afirmou acreditar que não existam obstáculos para o prosseguimento do IPO da subsidiária, a despeito das dúvidas suscitadas pelo despacho que autorizou, sexta-feira, a Operação Bullish. A investigação apura supostas fraudes nos investimentos feitos pela BNDESPar, braço de participações do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) na JBS. O banco, que atualmente tem 21,3% do capital da companhia, comprou participações na JBS entre 2007 e 2011, pagando de R$ 7,04 a R$ 9,99 por ação.

Na decisão que autorizou a Bullish, o juiz Ricardo Soares Leite, da 10ª Vara Federal Criminal de Brasília, determinou que os controladores da JBS "não promovam qualquer mudança estrutural nas empresas existentes, nem a inclusão ou exclusão de sócios pelo menos até o relatório conclusivo da Polícia Federal".

No entendimento dos advogados da JBS, o IPO pode ser feito. "Nosso jurídico não vê que isso nos impeça [de fazer o IPO]", disse o presidente global. Segundo ele, o entendimento da área jurídica da JBS é d eque a companhia pode até fazer aquisições. O que estaria vetado é uma "reestruturação substancial, que mexa na estrutura da companhia, na sua composição de controle acionário ou coisa que o valha", acrescentou.

Diante das questões dos analistas, o empresário ressaltou que o objetivo do IPO da JBS Foods International não é angariar recursos para reduzir o endividamento da companhia – o índice de alavancagem (relação entre dívida líquida e Ebitda em doze meses) subiu de 4,16 vezes no fim de 2016 para 4,2 vezes em 31 de março.

Batista disse que, embora a abertura de capital ajude a desalavancar a companhia, a intenção do IPO é fazer com que a JBS seja melhor avaliada pelo investidor. A avaliação corrente é que, listada na bolsa de Nova York (Nyse), a empresa será melhor compreendida pelos investidores estrangeiros. Com ações listadas apenas no Brasil, a empresa é vista como um frigorífico brasileiro, e não como uma empresa global de proteínas com operações em diversas partes do mundo, e sobretudo nos EUA.

Por Luiz Henrique Mendes | De São Paulo

Fonte : Valor