IoT avança no campo

A tecnologia está ajudando a reduzir os custos e aumentar a produtividade no campo. O agronegócio brasileiro já é um dos setores mais avançados no uso de sistemas de internet das coisas (IoT), baseados em sensores para captação remota de dados de equipamentos, ambiente ou animais, e foi selecionado como um dos segmentos prioritários para sustentar a Política Nacional de IoT, voltada a ações de incentivo ao desenvolvimento tecnológico do país.

Estudo realizado para o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicação (MCTIC) embasar o plano mostrou que o emprego de IoT no campo está crescendo rapidamente. A estimativa é que até 2025 o impacto do uso das soluções nesta área alcance entre US$ 5 bilhões e US$ 21 bilhões, apoiando queda de até 20% no uso de insumos agrícolas e alta de até 25% na produção das fazendas, destaca o secretário de políticas de informática do MCTIC, Maximilano Martinhão.

Startups fornecedoras de sistemas para o agronegócio, como Agrosmart e Strider, são exemplos da vitalidade do setor. A Agrosmart, especializada em IoT e inteligência de negócios, foi fundada em 2014 por Mariana Vasconcelos, filha e irmã de agricultores. Selecionada no programa Startup Brasil, foi acelerada pela Baita. Nos Estados Unidos, participou de programa de transferência de tecnologia com a Nasa em clima e de aceleração no Google e na Thriove, especializada nas agrotechs, startups especializadas em agronegócios.

No ano passado, a Agrosmart recebeu aporte da SP Ventures e este ano deve faturar R$ 10 milhões. Seu sistema de monitoria oferece informações baseadas na coleta remota de dados colhidos por sensores instalados em cada talhão da propriedade do produtor para monitorar ambiente, solo e clima e apoiar recomendações em relação a irrigação, doenças e pragas.

A falta de conectividade no campo foi contornada com sistema de radiofrequência que permite a comunicação de um sensor com outro a distâncias de até 15 km. Ao chegar na sede da propriedade os dados são transmitidos por internet ou celular para o aplicativo instalado em computador, tablet ou smartphone. Os serviços resultam em melhorias como aumento de até 20% na produção e redução de 60% no consumo de água e 40% do gasto de energia, diz Mariana.

A Agrosmart cobre 80 mil hectares e exporta para América Latina, Israel e Estados Unidos, onde abriu uma subsidiária para atender setores de alimentos, bebidas e agroquímicos. A possibilidade do país ocupar a vice-liderança mundial na exportação de tecnologias de IoT para o agronegócio, particularmente relacionadas à agropecuária tropical, é outra conclusão do estudo realizado pelo MCTIC.

Hoje a startup trabalha com inteligência de dados para apoiar cadeias produtivas desde o desenvolvimento da semente até a indústria alimentícia. “Este ano vamos lançar medição de salinidade do solo, para melhorar a aplicação de fertilizantes e, em 2018, modelos de previsão de pragas e doenças”, diz a CEO Mariana.

A tecnologia no campo vai além da IoT. A Strider surgiu em 2013 com o software de monitoramento e controle de pragas Protector, que usa georreferenciamento para definir campos, rotas e pontos de medição para monitoria de cada safra e. Os dados são inseridos em tablet e as informações são transmitidas ao final do dia por internet, criando uma linha do tempo de cada talhão. Os dados podem ser acessados por aplicativo para controlar processos como prescrições para pulverização e estoques.

Outro produto, o Tracker, monitora frotas de tratores e implementos com apoio de sensores e da rede de rádio de baixa frequência Horizon, da própria Strider, que também permite conectar estações climáticas, armadilhas digitais e outros sensores distribuídos no campo. A empresa oferece ainda o sistema de gestão Base e o Space, capaz de identificar áreas com problemas na safra com base em imagens de satélite ou drones, descreve o diretor Henrique Prado.

Hoje a Strider monitora cerca de 2 milhões de hectares no Brasil, mais de 600 propriedades rurais e fazendas na Austrália, Estados Unidos, Bolívia e México. A empresa recebeu investimentos em torno de R$ 10 milhões dos fundos Barn, Monashees e Qualcomm e este ano deve faturar R$ 15 milhões, 5% com clientes estrangeiros. As grandes empresas de tecnologia também estão de olho no setor. A Qualcomm fez parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) para desenvolver sistema para monitorar dados como detecção de focos de pragas, déficit de nutrientes e danos ambientais, com base em drones.

  • Por Martha Funke | Para o Valor, de São Paulo
  • Fonte : Valor