.........

Investimento na recuperação de área nativa garante insumos

.........

Além de cortar emissões de carbono e melhorar a eficiência no uso da água, com redução de custos, mais uma tarefa recai sobre as empresas para assegurar a sobrevivência do negócio: recuperar a vegetação nativa, responsável pela conservação dos mananciais e pelo equilíbrio climático regional.

Em alguns casos, o investimento é a garantia de obter insumos básicos – experiência vivenciada hoje pela Coca-Cola, no Norte do Espírito Santo. Ali, o estresse hídrico por causa da mudança no regime de chuvas praticamente erradicou os cultivos de maracujá que abasteciam a fábrica de sucos da companhia, que precisou ir até a Bahia para buscar a fruta.

A solução para a retomada do polo capixaba de fruticultura está sendo promover restauração florestal na região da Barra Seca e na foz do rio Doce, trabalho desenvolvido em parceria com a The Nature Conservancy (TNC). "Queremos revitalizar os plantios de goiaba, que dependem de irrigação e precisam de tecnologias de maior eficiência hídrica no campo", informa o diretor de valor compartilhado da companhia, Pedro Massa.

A solução desenvolvida pela Agrosmart, startup integrante do programa de inovação aberta da Coca-Cola, está sendo aplicada em 60 hectares na região de São Roque Canaã (ES). O objetivo é elevar em 30% a eficiência da irrigação, com menor consumo de água e crescimento de 70% na produtividade.

"O plano é replicar a experiência na cadeia de fornecedores em áreas de importância econômica para o Estado", revela o executivo, lembrando que a empresa está inaugurando uma nova plataforma de água que expandirá os ganhos já obtidos nos últimos 15 anos com a redução de 28% do consumo hídrico para produzir um litro de bebida.

Para aumentar a oferta de água, o plano é retornar às bacias hidrográficas o dobro do volume de água captada para a produção, o que exigirá a conservação de mais de 100 mil hectares de floresta.

Em Itu (SP), a Brasil Kirin apostou na proteção de seus mananciais para evitar conflitos e enfrentar futuras crises hídricas, como a de 2014, pela qual passou ilesa. A estratégia foi reflorestar mais de 300 hectares com mudas de quase cem espécies nativas, produzidas no viveiro mantido na área pela Fundação SOS Mata Atlântica. Como resultado, foram recuperadas 19 nascentes, aumentando em 5% a oferta de água superficial e em 20% a subterrânea.

A iniciativa inspirou projetos educacionais nas comunidades locais voltados ao uso da água e consumo consciente. "Trabalhamos como se estivéssemos em permanente cenário de escassez", diz Juliana Nunes, vice-presidente de assuntos corporativos. Além de recuperar os danos de antigos desmatamentos ao redor dos cursos de água, que poderiam encarecer em cerca de cem vezes o tratamento necessário para torná-la potável, a empresa reduziu em 18% o consumo hídrico relativo, em sete anos. Na unidade de Campos do Jordão (SP), a diminuição foi de 42%.

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) prevê que a demanda hídrica global aumentará 55% até 2050 devido ao crescente consumo do setor industrial, dos sistemas de energia termelétrica e do uso doméstico – atividades influenciadas pelo crescimento da população, políticas de segurança alimentar e energética e mudanças no padrão de consumo. Para o setor elétrico, o aumento do consumo de água foi estimado em 140% no mesmo período.

O desafio é maior para países em desenvolvimento, como o Brasil, cuja matriz energética é principalmente marcada pela geração hidrelétrica. "Reconhecer os riscos é o primeiro passo, apesar de ainda haver muitas incertezas", afirma Natalia Lutti, gestora de projeto da iniciativa Tendências em Serviços Ecossistêmicos (TeSE), da Fundação Getulio Vargas, que auxilia empresas a adotar ferramentas para o cálculo do custo financeiro de seus impactos ambientais e dos riscos associados à dependência de recursos naturais, como a água.

Entre os participantes, a Companhia Paranaense de Energia (Copel) quantificou como a mata da beira de seus reservatórios poderia impedir a erosão e mediu custos. Desta forma, a usina hidrelétrica Governador Bento Munhoz da Rocha Neto, com geração de 1.676 MW, no rio Iguaçu, foi palco de um projeto de restauração florestal de mil hectares, com captura de carbono no valor de R$ 9 milhões, em dez anos. A iniciativa evitou um custo de R$ 50 milhões com serviços de dragagem.

Por De São Paulo

Fonte : Valor