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Investigações sugerem que partidos políticos foram beneficiados

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Avener Prado / Folhapress

Um telefonema entre o diretor de operações da BRF no Centro-Oeste, André Luis Baldissera, e Roney Nogueira dos Santos, gerente de relações institucionais da empresa, sugere que houve corrupção para beneficiar partidos políticos no Ministério da Agricultura no apagar das luzes do governo de Dilma Rousseff, no ano passado. Essa é uma das linhas de investigação da Polícia Federal na Operação Carne Fraca.

A conversa foi interceptada pela PF em 2 de maio de 2016, dez dias antes do afastamento da presidente. Nela, Roney dá a entender que Dinis Lourenço da Silva, fiscal-chefe do Ministério da Agricultura em Goiás, seria promovido a um cargo na cota do PTB. A ministra na ocasião era Katia Abreu, atualmente senadora pelo PMDB de Tocantins.

Segundo despacho do juiz federal de Curitiba, Marcos Josegrei, que autorizou medidas de prisão, condução coercitiva e buscas, Dinis Lourenço da Silva "viabilizou a manutenção em funcionamento de unidade da BRF de Mineiros (GO) cuja indicação era de suspensão das atividades". De acordo com a PF, havia no local problemas causados por contaminação por salmonela.

O suposto esquema de propina também abastecia PMDB e PP, conforme a PF. "Dentro da investigação ficava claro que uma parte do dinheiro da propina era revertido para partido político. Caracteristicamente, já foi falado ao longo da investigação, o PP e o PMDB", afirmou o delegado Maurício Grillo.

Em outra escuta da PF, o deputado federal e atual ministro da Justiça Osmar Serraglio (PMDB-PR) informa Daniel Gonçalves Filho, fiscal agropecuário e ex-superintendente regional do Ministério da Agricultura no Paraná – de 2007 a 2014 e de 2015 a abril de 2016, quando ele foi exonerado – sobre problemas que o frigorífico Larissa, pertencente ao empresário Paulo Sposito, em Iporã (PR), teria com a fiscalização. Serraglio telefonou para o fiscal, a quem se refere como "grande chefe".

"Grande chefe, tudo bom?", diz Serraglio, que então pergunta ao fiscal. "O cara lá que… o cara que tá fiscalizando lá… apavorou o Paulo lá, disse que hoje vai fechar aquele frigorífico… botô a boca… deixou o Paulo apavorado! Mas pra fechar tem rito, não tem? Sei lá. Como que funciona um negócio desse?".

O fiscal promete "ver o que está acontecendo" para informar Serraglio. Gonçalves Filho então telefona para Maria do Rocio, contando a ela que o fiscal de Iporã quer fechar o frigorífico Larissa daquela localidade. Ele pede a ela que averigue o que está acontecendo e o informe a respeito. Segundo a PF, Maria diz ao fiscal que não há nada de errado no frigorífico, "informação esta depois repassada a Osmar Serraglio", afirma o despacho judicial da Operação Carne Fraca.

"Sentimos que não havia crime por parte do ministro", disse o delegado Grillo, que informou, ainda, que o conteúdo das gravações será encaminhado à Procuradoria-Geral da República (PGR).

A aliados, o presidente Michel Temer, já garantiu que não há qualquer chance de o ministro Serraglio deixar o cargo, uma vez que ele foi apenas citado nas investigações. Assessores palacianos lembraram que a regra para afastamento de ministro estabelecida por Temer para a Operação Lava-Jato se estende para esse caso.

Em nota, Serraglio realçou que a conclusão tanto pelo Ministério Público Federal quanto pela Justiça Federal é que não há qualquer indício de ilegalidade na conversa gravada no âmbito da Carne Fraca. Segundo prestação de contas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o ministro recebeu R$ 200 mil à sua campanha à Câmara dos Deputados em 2014 da JBS, uma das empresas investigadas na operação. O valor foi doado ao diretório nacional do PMDB, que o repassou à campanha do Serraglio.

O PP e o PMDB, partidos apontados como beneficiários do esquema, divulgaram notas afirmando desconhecer o teor das denúncias. (Colaboraram Bruno Peres, Raphael Di Cunto e Fabio Murakawa, de Brasília)

 

Por André Guilherme Vieira e Marcelo Ribeiro | De São Paulo e Brasília

Fonte : Valor