Intempéries no RS prejudicam safra de pêssego

Uma sucessão de condições climáticas desfavoráveis para a produção de pêssego no Sul do Brasil nos últimos meses tem prejudicado a oferta nacional, mas a fraqueza do mercado interno deve manter até mais baixos os preços de uma das frutas preferidas nas ceias de Natal e Ano Novo.

Responsável por mais da metade do pêssego comercializado no entreposto da Ceagesp na capital paulista e por quase 60% da produção nacional, o Rio Grande do Sul passou por um período mais quente que a média entre julho e agosto e registrou geadas em setembro. Para piorar, o El Niño ganhou força nos últimos meses e aprontou poucas e boas com o clima da região, provocando chuvas bem acima da média.

"Como o pêssego é uma espécie de clima seco, a umidade excessiva vai afetar o resultado da produção", diz Antonio Conte, técnico de fruticultura da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater) do Rio Grande do Sul.

O técnico evita traçar uma estimativa para o volume da fruta que deve ser colhido nesta temporada no Estado, mas relata que alguns produtores começaram a colheita projetando uma quebra de 30% na safra e chegaram a prever uma redução de 50% na produção de variedades precoces como a chimarrita, após as geadas de setembro.

Não há um levantamento sobre o total colhido na última safra, mas sabe-se que a produção colhida entre 2013 e 2014 ficou próxima de 125 mil toneladas.

De acordo com Conte, o resultado da safra atual ainda dependerá dos próximos passos da colheita. "Se o tempo ficar bom, talvez a queda fique em 30%", sinalizou. Porém, as chuvas previstas para os próximos dias podem provocar mais perdas nos pomares. Até o último dia 10, os produtores já haviam colhido cerca de 40% da safra, e a expectativa é que os trabalhos se encerrem em meados de janeiro – mais cedo que o normal, no início de fevereiro.

A redução da oferta, entretanto, não é crítica. Uma grande rede varejista que preferiu não se identificar informa que não tem enfrentado dificuldades para encontrar pêssego no atacado. "A redução da oferta não foi tão acentuada e a qualidade foi preservada", acrescenta Flavio Godas, economista da Ceagesp.

Além disso, com uma demanda interna enfraquecida, os preços têm oscilado abaixo dos patamares do ano passado. O pêssego dourado, de polpa e cascas amarelas, foi negociado por R$ 2,50 em média na Ceagesp nos 15 primeiros dias de dezembro, 62% mais barato que no mesmo período do ano anterior. A variedade chimarrita, com casca vermelha e polpa branca, ficou em média por R$ 3,54 no mesmo período, 7% menos que no mesmo período de 2014.

As importações também têm assegurado um nível confortável de oferta de pêssego no mercado doméstico. Entre os meses de janeiro e novembro, o Brasil importou 13% mais pêssego que no mesmo período do ano passado. Foram 11 mil toneladas, a um preço médio 9% mais baixo.

Como resultado, os pêssegos importados foram negociados de janeiro a novembro a valores 18% mais baixos do que em 2014, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Frutas (Ibraf).

No mercado, a expectativa é que a procura pela fruta aumente conforme se aproximam as festas de fim de ano, o que pode sustentar os preços nos próximos dias. "Sempre há um aumento na segunda quinzena", afirma Godas.

Por Camila Souza Ramos | De São Paulo
Fonte : Valor