Impacto da alta do leite na inflação preocupa governo

Claudio Belli/Valor / Claudio Belli/Valor
Ordenha de leite em fazenda em Goiás: preços ao produtor estão em alta desde outubro e consumidor já sofre os efeitos

O governo prepara mudanças nas regras de importação de leite em pó da Argentina para atacar o mais novo vilão da inflação. Depois do tomate e do feijão, o governo está agora preocupado com o aumento no preço do leite e o impacto sobre os índices de preços.

De acordo com fontes do governo, o objetivo das mudanças é flexibilizar as regras do acordo de restrição voluntária de exportações que os produtores argentinos têm com seus parceiros brasileiros que limita a venda de leite da Argentina a 3,6 mil toneladas de leite em pó a cada mês.

"Em maio, a Argentina exportou apenas 1,4 mil toneladas para o Brasil e não foi por falta de cotas. A política do governo Kirchner é segurar o leite lá para controlar a inflação no país vizinho. Mexer nas cotas pode não resolver", afirma Rodrigo Alvim, presidente da Comissão Nacional da Pecuária Leiteira da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).

A avaliação oficial é que o leite importado precisa chegar rapidamente ao mercado doméstico para viabilizar algum impacto em preços – daí a prioridade de buscar o leite em países próximos em vez de importar de outros mercados mais distantes.

Os dados do IBGE mostram que, de janeiro a maio, os leites e derivados acumulam alta de 8,46% no IPCA, índice usado como referência para as metas de inflação. O índice geral mede inflação acumulada de 2,88% no ano.

O preço do leite em pó subiu no mercado internacional por causa de uma seca na Nova Zelândia, principal exportador mundial. A tonelada subiu de US$ 3.600 em setembro do ano passado para US$ 5.500 no início do ano. Já houve algum recuo, mas os preços continuam distantes do ano passado.

Além do choque de oferta internacional, o Brasil está na entressafra do leite, que vai do fim de abril a setembro, onde há um aumento natural de preços.

Em Minas Gerais, maior bacia leiteira do país, produtores reagiram com críticas à intenção do governo de permitir mais leite importado no mercado. O novo presidente da Itambé, Alexandre Almeida, disse que a medida tende a ter pouco resultado no combate à inflação.

Primeiro porque a Argentina não está conseguindo remeter ao Brasil a cota de 3.600 toneladas de leite em pó por mês. Segundo porque a pressão vem do mercado internacional. "A cotação do leite em pó, que é a referência, está em torno de US$ 5.000 a tonelada, o que ao câmbio atual significa R$ 11,25 o quilo, isso sem contar os custos de transporte. No mercado brasileiro, o leite em pó está R$ 11,50."

Para Almeida, seria mais vantajoso e eficiente no combate à inflação leiteira, o pagamento por parte do governo de créditos de PIS/Cofins devido às empresas.

"Indiretamente, estaremos investindo na produção primária de outros países", queixou-se o diretor-executivo do sindicato dos laticínios do Estado de Minas Gerais, Celso Moreira.

"O setor tem um programa para melhorar a competitividade e aumentar a produção nacional em 70% nos próximos dez anos. Se recuperarmos a autossuficiência, não dependeremos mais de importações", explica Rodrigo Alvim.

O programa idealizado pela CNA prevê treinamento intensivo para os produtores de leite, além de financiamento para aquisição de máquinas e melhoria na alimentação dos animais.

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Fonte: Valor | Por Leandra Peres e Marcos de Moura e Souza | De Brasília e Belo Horizonte