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IFC torna-se mais rigoroso com o campo brasileiro

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Claudio Belli/Valor / Claudio Belli/Valor
Luiz Daniel de Campos, diretor de investimentos agrícolas do IFC: celeuma criada com empréstimo ao Bertin, em 2007, ajudou a moldar novo posicionamento

O International Finance Corporation (IFC), braço do Banco Mundial para financiamentos ao setor privado, mudou seu foco de atuação no Brasil. Em uma decisão inédita, interrompeu as operações em regiões consideradas "sensíveis" no país – sobretudo na Amazônia – e voltou-se para o segmento de alimentos processados e bebidas, deixando um pouco de lado a agricultura e seu risco socioambiental.

O reposicionamento foi a reação a uma das piores manchas do currículo do banco, e ajuda a explicar dois anos fiscais (2010 e 2011) sem contratos assinados no país. "Não posso negar. Foi também ‘efeito Bertin’", disse ao Valor Luiz Daniel de Campos, diretor de investimentos agrícolas do IFC, referindo-se ao rompimento de contrato o frigorífico posteriormente adquirido pela JBS.

O empréstimo de US$ 90 milhões aprovado em 2007 pelo banco para um projeto de pecuária sustentável no Pará previa dobrar a capacidade de abates do Bertin em Marabá, mas foi desde cedo alvo de ambientalistas preocupados com uma região da Amazônia já afetada pelo desmatamento. Uma denúncia do Ministério Público e do Greenpeace, dois anos depois, jogou a pá de cal que faltava no acordo.

"Foi traumático para os dois lados. Fechamos [o empréstimo] em 2007 e desengajamos em 2008. Isso acabou gerando uma aversão a riscos socioambientais nas nossas operações", afirmou Campos. Coincidentemente, o IFC também era questionado pelo empréstimo a uma indústria de óleo de palma acusada de desmatamento na Ásia.

Às voltas com essas denúncias e o impacto à sua imagem, o braço do Banco Mundial iniciou um processo de reestruturação global de critérios de análise a empréstimos. "Estamos fazendo o trabalho de recuperação reputacional mesmo".

O "processo de cura", diz Campos, resultou em mais rigor com o segmento agropecuário. No Brasil, a Amazônia foi descartada. Em seu lugar, o IFC preferiu envolver-se em regiões onde as lavouras estão consolidadas – sobretudo no Sul e Sudeste.

O tempo de avaliação estendeu-se para até um ano e meio. O número de reuniões aumentou e elas passaram a envolver diretores de diferentes área do banco com a empresa tomadora de empréstimo. "Não estamos abandonando o setor primário, mas buscamos regiões menos controversas. Fora isso, há mais dificuldades para aprovação interna. Isso explica porque não fechamos nenhum contrato em 2010 e 2011".

Nesse acerto de rumos, o IFC passou a exigir obrigações que vão além da lei nacional – ainda que "cada caso seja um caso", diz Campos. Um exemplo é a possibilidade de o banco determinar a compensação integral de uma área nativa que precise ser desmatada, dentro dos limites legais, para extensão da lavoura. "Isso inviabiliza de cara a soja porque eu imponho restrições que limitarão o crescimento desse produtor", afirma, "porque a soja está crescendo nas áreas nativas do Cerrado".

O foco da agricultura também foi desviado para o de alimentos processados e bebidas, e pelo mesmo motivo – riscos socioambientais menores. A Bauducco já assinou dois empréstimos com o banco, totalizando US$ 65 milhões. Segundo Campos, o hiato de contratos em 2010 e 2011 também se explica pelo fato de muitas empresas desistirem de tomar empréstimo na instituição devido à imposição de regras para as quais não têm interesse em cumprir.

Apesar de tudo, o banco está otimista com o Brasil. "Ainda emprestamos pouco para o potencial da agricultura brasileira", afirma Hector Gomez, diretor para regiões fronteiriças do IFC no país. Para ele, um aspecto positivo em investir em empresas de alimentos processados é forçar mudanças na cadeia produtiva – que, em geral, envolve agricultores de pequeno porte.

No ano fiscal de 2012, encerrado em 30 de junho, o IFC fechou dois contratos no Rio Grande do Sul, longe da realidade conflituosa do Norte – um com o Bansicredi, de US$ 60 milhões, e outro com a Vonpar Bebidas, distribuidora da Coca Cola, de US$ 50 milhões. Para o exercício 2013, que acaba de começar, o IFC prevê uma retomada com o segmento canavieiro, com possíveis cinco contratos, e com uma trading. No total, essas operações devem alcançar US$ 235 milhões.

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Fonte: Valor | Por Bettina Barros | De São Paulo