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Iberdrola diz que fica no Brasil

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Aline Massuca/Valor / Aline Massuca/Valor
Ignacio Galán, principal executivo da companhia espanhola: "Queremos continuar com nossos sócios a linha de sucesso que tivemos nos últimos anos"

Após um ano e meio de tentativas de assumir o controle da Neoenergia para consolidar o ativo brasileiro no seu balanço global, a Iberdrola optou por buscar um novo caminho para a questão contábil sem mexer na estrutura societária da empresa, na qual detém 39% de participação. A Previ tem 49% e o Banco do Brasil, 12%.

A mudança de planos da companhia espanhola ocorreu durante rápida visita de Ignacio Galán, presidente do conselho e principal executivo da Iberdrola, ao Brasil, na semana passada. Da agenda do executivo constaram encontros com o ministro das Minas e Energia, Edison Lobão, em Brasília, e com Dan Conrado, novo presidente da Previ, no Rio.

Em reunião com Conrado, na sexta-feira, Galán acertou com os sócios brasileiros uma retomada destas negociações, paralisadas desde o fim de 2011. A alternativa agora é definir um arranjo que viabilize a contabilização das receitas e despesas da Neoenergia no balanço global da Iberdrola, conforme exigências das novas normas contábeis do IFRS. As novas medidas vão vigorar na Europa a partir de janeiro de 2013. As novas tratativas certamente vão agradar ao Planalto, pois o primeiro round foi suspenso porque a presidente Dilma não gostou da ideia de ter um controlador estrangeiro na Neoenergia.

"Para a consolidação não precisamos dos 51% [na Neoenergia], precisamos de termos legais que nos garantam não ser preciso mudar a estrutura societária. Por isso, nesse momento, estamos nas mãos dos sócios e dos auditores", disse Galán ao Valor, em sua primeira entrevista a um jornal brasileiro.

A alternativa poderá vir através de mudanças no acordo de acionistas entre as partes, como sinalizou Galán. "Nós temos um acordo de acionistas. E teremos que ver quais pontos [deste acordo] podem ser melhorados, modificados ou transformados. O acordo de acionistas tem 50 folhas."

A posição de Galán foi apoiada pela Previ. Marco Geovanne, diretor de Participações do fundo de pensão do Banco do Brasil, que participou do encontro na sede da fundação, no Rio, disse que o caminho agora é estudar o assunto junto aos auditores. "Estamos abertos à negociação. E também achamos que é possível buscar uma nova solução para esta questão burocrática do IFRS sem mudar a estrutura societária da Neoenergia", disse.

Para Geovanne, é possível que os auditores encontrem alguma forma de fazer um aditivo ao acordo de acionistas garantindo que, mesmo sem a maioria das ações, a Iberdrola mantenha preponderância nos rumos dos negócios da companhia como operadora.

Tanto a Previ, quanto a Iberdrola não descartam abrir o capital da Neoenergia após estes acertos contábeis. "O IPO está dentro do acordo de acionistas. Quando nossos parceiros decidirem que querem ir para a bolsa estaremos motivados em acompanhá-los", declarou Galán.

Outro objetivo que trouxe o executivo ao Brasil foi acabar com o mal estar provocado pelos rumores de que a companhia espanhola estaria vendendo sua fatia na Neoenergia para a chinesa State Grid, que tem investido no setor de transmissão de energia no Brasil. A notícia da venda aos chineses tomou de surpresa os parceiros da espanhola na Neoenergia e gerou incômodo no governo Dilma.

O executivo confirmou que abriu um data room da Neoenergia para empresas interessadas no negócio, seguindo sugestão de bancos de investimento preocupados com a paralisação das conversas com os parceiros brasileiros sobre a consolidação. E relatou que chegou a consultar a Previ e o BB sobre o data room.

"Para alguns interessados em comprar, nós [Iberdrola] falamos não. Os chineses fizeram muitas propostas informais. Mas nós não fechamos nenhuma proposta formal com eles", explicou Galán.

A Iberdrola prevê investir no Brasil este ano US$ 1,5 bilhão, e até 2020 cerca de US$ 10 bilhões

A Previ avaliou a atitude da Iberdrola de vender as ações da Neoenergia como "precipitação", no sentido de que "se não consigo comprar [os papéis dos sócios], vou querer vender". Geovanne disse que foi surpreendido com a notícia. "Ficamos surpresos porque nossa conversa sempre foi cordial."

A vinda de Galán ao Brasil foi entendida pelo fundo de pensão como um início de um processo de reaproximação entre os sócios. "Ele veio, na realidade, para reforçar o interesse da Iberdrola de continuar nossa parceria que existe há 15 anos de criar valor para a Neoenergia."

O executivo global confirmou a leitura da Previ. " Não queremos vender [a participação]. Nós queremos estar no Brasil. Queremos continuar com nossos sócios a linha de sucesso que tivemos nos últimos anos, controlando juntos e investindo ainda mais aqui na Neoenergia. O fundamental é que a empresa siga bem", defendeu Galán.

A Iberdrola prevê investir no Brasil em 2012 uma soma de US$ 1,5 bilhão, em 2013 a mesma quantia e até 2020 cerca de US$ 10 bilhões. Os recursos serão aplicados em geração, distribuição e eólicas. Além dos ativos da Neoenergia, a Iberdrola é dona da distribuidora paulista Elektro e detém 1.607 megawatts (MW) em usinas em operação.

Os planos da Iberdrola para a Neoenergia passa pelo crescimento orgânico das três distibuidoras – Coelba, Cosern e Celpe – e o aumento da capacidade de geração de energia. Entre os principais investimentos em geração estão as usinas hidrelétricas de Belo Monte (10%) e Teles Pires (51%). Na área de eólica programa fazer mais 290 MW.

O Brasil responde por cerca de 20% do Ebitda total da Iberdrola, que somou € 7,65 bilhões. O país ocupa o segundo lugar de investimentos da multinacional, atrás apenas do Reino Unido. Quarta-feira, a Iberdrola divulga o balanço do 2º trimestre. Apesar da crise do euro, Galán disse que este cenário desfavorável não afeta tanto o resultado global do grupo, porque a Europa responde apenas por 15% a 20% do total do resultado da multinacional.

"Somos uma das poucas companhias de ‘utilities’ do mundo que está passando pela crise e os seus resultados e dividendos não estão sendo afetados", destacou Galán. Desde 2008, o lucro líquido da Iberdrola está mantido na ordem de € 2,2 bilhões anualmente. A relação dívida líquida sobre Ebitda é inferior a 4. O faturamento da gigante basca é de € 31,6 bilhoes.

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Fonte: Valor | Por Vera Saavedra Durão e Rodrigo Polito | Do Rio