Guardar a safra em casa melhora a rentabilidade

 

Produtores formam condomínio no Paraná para estocar grãos e negociam no ritmo do mercado

armazenagem-estoque-grao-palotina-condominio-agro5mil-parana (Foto: Fabio Conterno)

Adyr Dazzi (à frente), presidente, e alguns dos sócios do Condomínio Agro5Mil, em Palotina (PR) (Foto: Fabio Conterno)

A sugestão do gerente de uma agência bancária mudou a vida de um grupo de agricultores de Palotina, no oeste paranaense. Eles foram ao banco em busca de informações sobre as linhas de crédito para construir seus próprios armazéns e o gerente sugeriu que convidassem outrosprodutores rurais para investir juntos em um só empreendimento.

O agricultor Adyr Dazzi, um dos que estavam no banco, não recorda se havia quatro ou cinco pessoas ouvindo a sugestão. O fato, diz ele, é que “aí começaram as conversas” para “amadurecer” a ideia, que resultou na criação do Condomínio Agro5Mil, presidido por ele e formado por 14 pequenos e médios agricultores. “A falta de informações foi nossa maior dificuldade”, conta Dazzi, ao lembrar das batalhas para conseguir a documentação necessária para viabilizar o empreendimento, ainda em 2004.

Os produtores iniciaram as obras em 2005 e começaram a guardar os grãos em 2006. Passados dez anos, o condomínio dispõe de quatro moegas, seis silos com capacidade para 270 mil sacas, além de estrutura para limpeza, secagem e beneficiamento dos grãos e área administrativa. Dazzi calcula que dá para armazenar uma safra e meia de soja, além de toda a safrinha de milho dos associados, que juntos cultivam 3.600 hectares. Ele conta que para alguns agricultores foi uma oportunidade única de ter algo que não seria possível sozinho. “Tem gente com área pequena, e ficaria inviável. No condomínio, ele consegue.”

dicas-condominio-estoque-armazenagem-graos (Foto: Filipe Borin)

O Agro5Mil já está na segunda fase de ampliação. Até a colheita da safrinha de milho deste ano, a expectativa é ter mais três silos em operação, o que ampliará a capacidade para 430 mil sacas, além de um secador novo e mais um silo só para a separação das impurezas, que passará a ser toda automatizada. O empreendimento emprega cinco funcionários fixos, além de seis a oito trabalhadores temporários contratados no período da safra.

A experiência serviu de exemplo para iniciativas semelhantes na região. Uma delas é o Condomínio AgroPalotina, cujas obras devem estar prontas para receber o milho safrinha a ser colhido pelos seus 13 associados. “A ideia foi discutida durante mais ou menos um ano. Resolvemos montar o condomínio para melhorar a logística da produção”, conta o presidente, Darci Curioletti. O projeto prevê sete silos para 360 mil sacas, quatro moegas, um secador, balanças e tombadores que admitem caminhões de até nove eixos, além dos escritórios.

Nesse tipo de associação, cada integrante tem sua cota. A participação leva em conta a área individual de plantio dos condôminos. No Agro5Mil, a menor cota corresponde a 2,11% e a maior a 15,81%. No AgroPalotina, o maior cotista tem 11% e o menor 1%. Os direitos e deveres são os mesmos, mas cumpridos de modo proporcional à cota. Se alguém se retira do condomínio, primeiro a cota é oferecida aos demais associados. Se não houver interesse, é considerada a admissão de um novo integrante. Sobras podem ser distribuídas ou compor um fundo de caixa. Todo o regulamento deve constar em um estatuto registrado em cartório e aplicado em comum acordo.

Regras específicas de registro, comercialização e distribuição de receita podem ser diferentes em cada condomínio. O que há em comum é o objetivo: agregar valor à produção e ter mais eficiência na gestão do negócio. “Além de valorizar o produto, melhorou a margem na compra dos insumos, que a gente faz em conjunto”, conta Adyr Dazzi. Curioletti, do AgroPalotina, lembra também que, escalonando as vendas, o produtor economiza em frete. E, com maior controle sobre a produção, melhora seu poder de negociação. “Tem época em que vai ter spread menor, mas quando armazena, espera a demanda e a melhor época, tem diferença. Administrando, eu consigo rentabilidade maior. Se entrego de cara, perco a barganha.”

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Darci Curioletti e Leosmar Spécia, nas obras do condomínio AgroPalotina (Foto: Fabio Conterno)

Ainda é pouco

No entanto, sozinhos ou em conjunto, agricultores que têm estruturas próprias de armazenagem ainda fazem parte de um grupo relativamente pequeno no Brasil. Dados da Carlos Cogo Consultoria Agroeconômica apontam que apenas 16% do volume produzido é estocado nas propriedades (veja gráfico à pag. 31). “É o único grande produtor mundial de grãos com baixa capacidade nasfazendas”, afirma o levantamento. Para o diretor da Consultoria Macrologística, Renato Pavan, o ideal seria as fazendas terem espaço para mais de 60% da safra. “A armazenagem na propriedade é o ponto inicial do sistema logístico e onde há mais desequilíbrio.”

Pavan calcula que, ao depositar a safra em armazéns de terceiros, os agricultores deixam de faturar pelo menos 15% do valor da produção. A conta começa na colheita, nem sempre feita com a umidade no ponto ideal. Além disso, o produtor paga frete e despesas cobradas pelos armazenadores para limpar, secar e guardar o grão. Com armazenagem própria, ele reduz riscos na colheita e pode controlar a gestão do produto, vendendo no melhor momento.

“É vantagem armazenar na fazenda. Por isso estou sempre investindo”, afirma Adelmo Zuanazi, produtor rural em Sinop (MT), que há muito tempo colhe os benefícios de guardar consigo a produção. Ele começou a investir na armazenagem em 1994, quando decidiu criar suínos e precisava de um local para armazenar o milho usado na ração. Seu primeiro silo era para 10 mil sacas (600 toneladas).

Zuanazi desistiu da suinocultura, mas continuou produzindo grãos. Ele cultiva 2.200 hectares comsoja no verão. Dependendo das condições de mercado e clima, reutiliza de 60% a 90% da área para cultivo do milho safrinha. Sua capacidade de estocagem atual é de 16.000 toneladas, além da estrutura de limpeza e secagem. “Isso traz uma economia, especialmente de transporte”, diz Zuanazi, que antes negociava a estocagem a um custo entre 4% e 5% do valor do grão. Segundo o agricultor, a economia com a estrutura própria praticamente paga a parte operacional e o ganho na comercialização cobre os investimentos.

O deficit de armazenagem na fazenda não significa apenas um desequilíbrio no sistema logístico brasileiro, mas também a menor competitividade em relação aos concorrentes internacionais. O levantamento da Carlos Cogo Consultoria Agroeconômica evidencia o atraso do Brasil. Nos Estados Unidos, existe capacidade para 65% da safra; na Argentina, 40%; na União Europeia, 50%; e no Canadá, 80%. “A baixa capacidade nas propriedades rurais é uma situação desfavorável do Brasil, pois sobrecarrega o transporte e a armazenagem intermediária em épocas de colheita, além de elevar a demanda por estocagem nos terminais portuários”, avalia a empresa.

POR RAPHAEL SALOMÃO

Fonte : Globo Rural