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‘Grão do século XXI’, soja triunfa nos campos

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Anna Carolina Negri/Valor

Lavoura de soja em Rondônia: Depois de se espalhar pelo Meio-Oeste americano, pelo Cerrado brasileiro e pelos Pampas argentinos, o grão continua atraindo produtores

Os campos na periferia de Mohall, no Estado americano de Dakota do Norte, formavam até recentemente uma justaposição de plantações azuladas da erva rami, amarelas de girassol e âmbar de trigo. Mas hoje muitas são áreas uniformemente verdes no pico da safra de verão (atual estação no Hemisfério Norte).

Essa nova paisagem se deve a produtores rurais como Eric Moberg, cuja semeadeira de 72 fileiras plantou milhares de hectares com soja neste verão. "Não cultivávamos nenhuma espécie de grão quatro anos atrás. Agora [a soja] ocupa quase um terço da nossa área plantada", diz ele.

Seu condado batido pelo vento, na fronteira com o Canadá, está na linha de frente de uma guinada do abastecimento mundial de alimentos. Na medida em que a Ásia emergente aumenta seu consumo de carne de frango e de porco, a soja que desenvolve aves e suínos se disseminou pelas fazendas do mundo a um ritmo mais acelerado do que o de qualquer outro produto agrícola de larga escala, passando a cobrir uma extensão 28% maior que a de dez anos atrás.

Este ano poderá se constituir num ponto de inflexão. Com o plantio quase concluído, a soja provavelmente destronou o milho como o produto agrícola mais amplamente semeado nos EUA, acreditam analistas.

A soja penetrou profundamente no Cerrado brasileiro, nos Pampas argentinos e no centro rural americano. As safras foram suficientemente grandes para dar impulsos significativos nas economias do Brasil e dos Estados Unidos nos últimos doze meses. Nos próximos dez anos, a oleaginosa cor de marfim vai aumentar a área cultivada total mundial para mais de 1 bilhão de hectares, em uma expansão maior que a da cevada, do milho, do algodão, do arroz, do sorgo ou do trigo, de acordo com previsões do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA).

O triunfo da soja depende das rendas embolsadas na China. As importações do país triplicaram nos últimos dez anos, para um volume estimado em 93 milhões de toneladas nos próximos doze meses, o equivalente a 66 kg por pessoa anuais – ou o volume transportado por cinco navios de carga por dia. Representantes do Ministério do Comércio da China estarão no mês que vem no Estado americano de Iowa, rico em soja, para assinar um acordo que poderá incluir uma aquisição recorde, afirma o Conselho de Exportação de Soja dos EUA.

As remessas se fortaleceram no momento em que a demanda chinesa por commodities industriais, como minério de ferro e cobre, vacilava. "É um ritmo persistente, fenomenal, de crescimento", diz Gert-Jan van den Akker, diretor de cadeia de suprimentos agrícolas da Cargill.

A demanda mundial por produtos básicos, como o trigo, tem aumentado em consonância com o crescimento da população, em cerca de 1% ao ano. O consumo de soja tem se acelerado a 5% ao ano – ainda mais que o de milho, o principal beneficiário do agressivo programa americano de biocombustíveis.

Qualquer pessoa que faz compras em supermercado sabe que a soja é um alimento versátil, a origem do tofu e do óleo de cozinha. O agronegócio, além disso, metamorfoseou totalmente o grão em produtos como tinta, tapetes e biodiesel. Mas o sucesso desenfreado da planta se baseia em seu teor proteico sem precedentes. Após esmagados, quase 80% se tornam farelo de soja. Os frangos, porcos e peixes que o consomem engordam depressa.

"É a única proteína verdadeira que possui todos os aminoácidos essenciais que constituem a ração completa. Essa é a mágica da soja", diz Soren Schroder, diretor-executivo da Bunge, a maior processadora mundial de oleaginosas.

O farelo de soja sustenta indústrias de carne nos EUA, Brasil, Europa e outras regiões. Os mercados emergentes do Sudeste Asiático e Oriente Médio deverão consumir ainda mais, dizem executivos. Mas a transição de dieta na China foi o principal fator impulsionador do crescimento. O USDA projeta que o país importará 121 milhões de toneladas de soja dentro de dez anos, volume mais de 30% maior que o atual.

Em 1989, quando a primeira loja da cadeia de restaurantes Kentucky Fried Chicken (KFC) abriu em Xangai, em um antigo clube da elite masculina britânica à beira do rio Bund, o chinês médio ingeria cerca de 20 quilos de carne ao ano. Após quase 30 anos de aumentos de renda, o consumo anual per capita de carne ultrapassou os 50 quilos.

A KFC opera atualmente 5 mil lojas na China e abrirá centenas de outras neste ano. O restaurante da beira do rio Bund mudou para um lugar menos glamuroso, mas não havia uma única cadeira vazia no recente fim de tarde em que as pessoas jantavam animadamente hambúrgueres, "wraps" e asas de frango. "Tudo vende bem aqui", diz o garçom de camisa listrada Wang Shuai.

O que impulsiona essa tendência é uma população urbana que aumenta em 20 milhões de pessoas ao ano, mais aceleradamente que o crescimento total da China, já que os moradores das cidades tendem a comer mais carne.

"Comemos carne todo dia. Ficou quase demais", diz o motorista de táxi Ahmat Barat, de 41 anos, em Urumqi, a capital da região de Xinjiang, no noroeste da China. "Quando eu era jovem, não tínhamos uma geladeira em casa, e só comíamos carne uma ou duas vezes por semana".

Para satisfazer esse apetite, a criação animal chinesa despontou a partir de pequenas operações "de quintal" que alimentavam porcos com restos de comida, para empresas industriais. Dados do Ministério da Agricultura citados por diplomatas americanos mostram que as granjas de aves de grande escala cresceram de 66% para mais de 90% do total do país e que as fazendas de criação de suínos passaram de 16% para estimados 50% entre 2005 e 2015. A Cargill, por exemplo, construiu uma granja de aves de US$ 360 milhões na província de Anhui, com capacidade para processar 65 milhões de frangos ao ano.

As empresas que brotaram para alimentar os animais de criação geraram fortunas para os magnatas locais: Bao Hongxing, executivo-chefe da maior produtora de ração para suínos Twins Group, tem patrimônio estimado em US$ 1,8 bilhão. Refletindo a escalada das vendas, o farelo de soja da Bolsa de Commodities de Dalian é atualmente o contrato futuro agrícola mais negociado.

Apesar de a China ser o lugar de origem da soja, as safras do país raramente alcançam mais de 15 milhões de toneladas. Produzir soja internamente custa mais do que importar, portanto a demanda é sustentada sobretudo pela proibição ao uso da planta geneticamente modificada nos alimentos de consumo diário.

Essa restrição não abrange a soja usada em ração animal e no óleo de cozinha, portanto a oleaginosa provém hoje de plantações estrangeiras, com características da bioengenharia, como resistência a pesticidas. Os dirigentes chineses abriram caminho para as importações de soja no momento em que adotaram uma política de autossuficiência em grãos alimentícios básicos.

Em resposta a isso, as empresas estão instalando uma linha de montagem internacional de soja cada vez mais sofisticada. A Cargill, juntamente com o chinês New Hope Group e outra parceira local, abriu em abril uma unidade de esmagamento de soja de US$ 100 milhões numa cidade portuária próxima a Pequim. Do outro lado do Pacífico, a United Grain gastou US$ 80 milhões para transportar mais soja e milho por meio de seu terminal de exportação de trigo do rio Colúmbia, no Estado de Washington.

"Despachamos cinco navios por mês só de soja", que "normalmente vão para a China", diz Brentt Roberts, da United Grain, uma divisão da Mitsui do Japão.

A 1.600 km a leste dali, em Lansford, Dakota do Norte, a cooperativa de grãos CHS SunPrairie, presidida por Eric Moberg, está construindo um circuito de retorno ferroviário que permitirá que os trens sejam carregados com a safra local sem parar e voltem imediatamente à costa do Pacífico. "Só sei que muitos são embarcados e vão para a China", diz Moberg, com sua calça jeans enlameada da lida no campo.

Os produtores rurais americanos estão bem cientes da importância do comércio com a China. Após Donald Trump ter sido eleito presidente, com base em uma plataforma de políticas protecionistas, a estatal Global Times, de Pequim, advertiu que "as importações de soja e milho americanos seriam suspensas" se seu governo cumprisse as ameaças de adotar tarifas punitivas.

As relações entre Washington e Pequim têm sido, pelo menos até o momento, mais amigáveis do que o previsto inicialmente. Independentemente disso, os executivos do setor dos dois lados do Pacífico não parecem preocupados. De fato, o embaixador de Donald Trump na China é Terry Branstad, ex-governador de Iowa.

"Não vejo como eles poderiam deixar de comprar de nós algum dia", afirma Dusty Lodoen, agricultor de Westhope, no Estado de Dakota do Norte, que passou uma temporada na China como integrante de uma delegação americana do segmento.

Os produtores americanos, no entanto, perderam participação de mercado em favor da América do Sul. No ano passado o Brasil forneceu mais de 50% da soja importada pela China, os EUA, 35% e a Argentina 10%, de acordo com o adido agrícola da embaixada americana em Pequim. A Conab, agência de estatística agrícola brasileira, diz que a safra deste ano do país foi de arrasadores 114 milhões de toneladas.

A soja transformou o Cerrado do entorno da cidade de Sorriso, no Estado do Mato Grosso, onde a população disparou de 17 mil para 83 mil habitantes em 25 anos. "A soja é o carro-chefe, o motor de Sorriso. Nossos produtores são verdadeiros heróis nacionais", diz o prefeito, Ari Lafin.

Sorriso só se consolidou como cidade em 1986, aproximadamente uma década após "colonizadores", principalmente de ascendência italiana, transformaram o Cerrado em fazendas como parte do programa de colonização da Amazônia. "Não havia asfalto, telefone, energia elétrica", recorda Rodrigo Pozzobon, o representante local da cooperativa rural de sojicultura Aprosoja.

Atualmente, os fazendeiros se exercitam no parque sob um sol abrasador, trocam mensagens via WhatsApp com o ministro da Agricultura brasileiro, Blairo Maggi – ele próprio um bilionário da soja -, dirigem Land Rovers, usam relógios de marca e desafiam a pior recessão já registrada pelo país. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a renda per capita de Sorriso dobrou dos R$ 27.569 contabilizados em 2010 para os R$ 57.087 do ano passado, uma das maiores do país.

Na colheita de 2017, os 2,23 milhões de toneladas obtidos em Sorriso transformaram a cidade no maior distrito produtor do Brasil. "Nosso principal mercado é a China", afirma Pozzobon.

Pedro Dejneka, da consultoria MD Commodities, diz que Sorriso e a vizinha Sinop constituíam o arco norte da sojicultura. Agora são "a fronteira sul", diz ele. E, apesar da super oferta de grãos mundial, a área de soja deverá se expandir drasticamente no Brasil e na Argentina nos próximos dez anos, inclusive sobre "área não cultivada", prevê o USDA.

Isso está causando alarme com o futuro do ecossistema Cerrado, que abriga boa parte do novo plantio da oleaginosa. Embora a Amazônia tenha sido poupada de mais desmate por uma "moratória da soja" pactuada em 2006 entre governo e empresários do setor, o acordo não abrange o Cerrado. Ambientalistas têm pressionado o Brasil a ampliar a moratória para o Cerrado e instado tradings globais como a Bunge e a Cargill a assumir o compromisso de não comprar soja de fazendas instaladas em terras recentemente desmatadas.

Glenn Hurowitz, do grupo Ambiental Mighty, diz que, embora as culturas do gado, da celulose e do azeite de dendê constituam forças do desflorestamento, "vemos uma oportunidade imediata de reduzir drasticamente o desmatamento no caso da soja, devido ao caráter internacional do mercado de soja".

A Bunge e a Cargill apoiaram a moratória e prometeram eliminar o desmatamento de suas cadeias de suprimentos. Mas dizem que o ecossistema do Cerrado é diferente do da Amazônia. As empresas, produtores rurais e ONGs estão discutindo onde a soja deveria ou não ser vetada. "A definição do que é permitido e do que não é, como você pode imaginar, exigirá uma longa discussão", diz Schroder, da Bunge.

Ultimamente, os preços da soja estão bem abaixo das altas recordes de alguns anos atrás, devido à sucessão de boas safras nas Américas do Norte e do Sul. Mas isso não desestimulou novos plantios. "Por anos e anos, houve uma demanda simplesmente incrível", diz o fazendeiro Guy Solemsaas, durante visita a uma movimentada distribuidora de sementes de Mohall. (Tradução de Rachel Warszawski)

Por Gregory Meyer, Andres Schipani e Tom Hancock | Financial Times

Fonte :Valor