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Greening ameaça polo de tangerina poncã em Minas

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Fundecitrus/Divulgação

Fruta afetada pelo greening; região de Belo Vale teve foco da doença em 2016

Velho conhecido dos produtores de laranja, o greening, doença bacteriana que provoca a queda prematura de frutos cítricos, ameaça a produção de tangerina poncã de Belo Vale, maior polo produtor da fruta em Minas Gerais.

Com uma safra estimada pela Secretaria de Agricultura mineira em 45 mil toneladas em 2016 (21,3% da colheita total do Estado, que é avaliada em quase R$ 200 milhões), a região tem motivos de sobra para se assustar com o primeiro episódio da doença, registrado no ano passado.

"A gente fica assustado porque não esperava por isso. A gente ouvia falar da doença em São Paulo e, quando aconteceu aqui, muito produtor foi inspecionar o próprio pomar e percebeu que convivia com o greening e não sabia", afirma Lucas Samuel Cordeiro, que cultiva 2 mil pés da fruta na região.

Os produtores de Belo Vale ampliaram a aposta na produção de poncã no início da década de 1990, motivados por um mercado consumidor de 2 milhões de habitantes em Belo Horizonte e pela proximidade da principal central de abastecimento do Estado, a CeasaMinas. Desde então, a área destinada à fruta passou de apenas 2 hectares para cerca de 1,5 mil hectares em 2016.

"É preciso ter muito cuidado com o greening porque ele pode causar um prejuízo social, já que é uma doença de controle muito difícil para o pequeno produtor", diz Renato Beozzo Bassanezi, pesquisador da Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus), com sede em Araraquara (SP), e mantido por citricultores e indústrias de suco de laranja.

Segundo a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais (Emater-MG), a região de Belo Vale reúne hoje 420 produtores de poncã, 400 de pequeno porte. "Esses produtores vão ter que atuar juntos contra o greening, como se fossem uma grande propriedade", diz Bassanezi. "Não adianta um produtor controlar e outro manter o foco da doença".

Segundo o gerente de defesa vegetal do Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA), Nataniel Diniz Nogueira, há em Minas Gerais hoje 33 focos de greening, sendo o registrado em Belo Vale em 2016 o mais recente. "Tem sido feito um trabalho para diminuir as ocorrências a partir do programa mineiro de contenção do greening, que prevê a disseminação de armadilhas para conter o mosquito vetor da doença, inspeção de pomares e divulgação nas comunidades produtoras sobre os cuidados a serem tomados".

Conforme pesquisa do IMA com 139 produtores da região central de Minas, onde se localiza Belo Vale, 83% dos agricultores afirmam conhecer o greening, mas um terço deles não sabe como ocorre a contaminação. "Os produtores estão sob ameaça e têm conhecimento disso, tanto que estamos fazendo ações de conscientização", diz Nogueira.

Entre a imensa maioria de pequenos produtores, há ainda uma forte preocupação com os custos para prevenir a doença. Com cerca de 3 mil pés de tangerina, Valdemiro Fernandes da Mata estima um custo de R$ 2 mil por dia para pulverizar seu pomar no período de floração, para tentar conter a disseminação do inseto vetor da doença. "O cara, quando é pobre, não pode ficar usando veneno indiscriminadamente porque senão não paga a boia", afirma.

Com apenas três anos no setor e ainda nas primeiras safras (uma árvore de tangerina demora três anos para começar a dar frutos), Da Mata diz que a sua produção não tem sintomas de greening, mas reconhece os riscos que assumiu. "Pode ocorrer [uma contaminação], mas enquanto não acontece a gente vai tocando o barco. Se precisar desmanchar o pomar, a gente passa a máquina e planta feijão e milho", conforma-se.

Mas a postura de Da Mata é criticada por agrônomos e citricultores, porque o controle da doença exige um esforço conjunto. "Se eu estou combatendo a doença e meu vizinho não está, não vai adiantar nada a minha pulverização", lembra o citricultor Lucas Samuel Cordeiro.

Segundo o IMA, uma vez que a região foi classificada sob ameaça da doença, os produtores são obrigados a elaborar um relatório semestral sobre o controle da praga. No entanto, o IMA diz que Belo Vale tem apenas um profissional para realizar esses levantamentos, que são de responsabilidade de cada produtor, o que atrasa a elaboração de estimativas mais precisas sobre a dimensão atual do problema.

Uma das vítimas da doença, o produtor Rafael dos Santos descobriu por conta própria que seu pomar estava contaminado, após fazer duas análises por amostragem quando soube do caso na região. Outros cinco produtores próximos a ele passaram pela mesma situação, que em São Paulo levou à erradicação em massa de pés para que a doença fosse contida. "Todo mundo ainda está tentando entender essa doença e cada dia que passa é mais um descobre um foco", afirma o produtor, que chegou a sacrificar 50 pés de um pomar de 5 mil árvores.

De acordo com Santos, o maior problema da região é justamente o elevado número de pequenas propriedades, o que dificulta o controle coordenado da doença. "Boa parte ainda não sabe o que está acontecendo e o produtor mais antigo é muito cismado. Quando você fala que é uma doença grave, muita gente prefere esconder o problema a fazer uma análise séria", reclama.

Dado o difícil controle, o produtor já pensa, inclusive, em abandonar a cultura. "Eu já estou, aos poucos, pensando em outras coisas e há produtor fazendo o mesmo porque, quando você pesquisa a fundo o que é essa doença, dá medo. Principalmente porque o controle dela aqui, conhecendo a região, é muito difícil", revela.

(Cleyton Vilarino | De São Paulo)

Por Cleyton Vilarino | De São Paulo

Fonte : Valor