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Governo americano derruba estimativas para oferta de grãos

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Daniel Acker/Bloomberg / Daniel Acker/Bloomberg
Produção de milho em Iowa, EUA: calor e seca prejudicaram oferta no país

O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) surpreendeu ontem até o mais pessimista dos agentes do mercado e derrubou suas projeções para a produção de milho e soja da safra 2012/13, reforçando a tendência de estoques apertados e preços altos para a nova temporada.

Em seu relatório mensal de oferta de demanda, o governo americano cortou sua previsão para a colheita doméstica de milho em 14% – impressionantes 46,23 milhões de toneladas – para 329,45 milhões. Trata-se de um dos maiores ajustes já feitos pelo USDA em toda a sua história. É como se, em um único mês, o governo retirasse do seu balanço duas safras da Argentina, o segundo maior exportador do grão. Apesar disso, a colheita esperada ainda é maior do que a de 316,2 milhões de toneladas da safra passada.

Os ajustes refletem a preocupação com o clima inclemente no Meio-Oeste americano. O USDA reduziu em 12% sua estimativa para a produtividade média das lavouras, que não deve passar de 9,27 toneladas por hectare. Embora já aguardassem uma queda, os agentes do mercado esperavam um rendimento de 9,77 toneladas, na média. Com a frustração nos Estados Unidos, o USDA derrubou também sua previsão para a produção mundial do grão, de 949,93 milhões para 905,23 milhões de toneladas. Contudo, trata-se de uma projeção rudimentar, já que a América do Sul sequer começou a plantar a sua safra de 2012/13.

O corte na produção mundial de soja foi mais modesto, embora também tenha surpreendido. A nova previsão é de que os produtores dos Estados Unidos colham 83 milhões de toneladas da oleaginosa, 4,2 milhões a menos do que o esperado em junho. O USDA reduziu em 7,7% a produtividade esperada para a nova safra. O mercado esperava um corte de 3,6%. Com isso, os estoques americanos de soja devem cair para o menor nível em quase 10 anos ao fim da safra 2012/13, para 3,54 milhões de toneladas. A relação entre estoque e consumo deve ficar perto de 4%, nível considerado crítico pelos analistas.

No plano global, a produção foi ajustada também em 4 milhões de toneladas, para 267 milhões. O órgão manteve sua previsão para produção de Brasil e Argentina em 78 milhões e 55 milhões de toneladas, respectivamente.

Apesar das previsões consideradas altistas, os preços dos grãos fecharam a quarta-feira em queda no mercado futuro de Chicago. Os contratos de soja de segunda posição (normalmente os que apresentam a maior liquidez) caíram 1,2% e os de milho, 2,05%. Nos últimos 30 dias, contudo, os preços da soja já subiram 12,33% e os do milho, 30,25%, impulsionados justamente por uma perspectiva de queda na safra americana.

Na opinião de Daniel D’Avila, analista da Newedge, as perdas que o USDA traduziu em dados oficiais já vinham sendo precificadas. "O mercado trabalhou em cima dos números do USDA não mais de uma hora, depois já era noticia velha", avaliou.

Segundo o analista de commodities da Jefferies Bache, em Nova York, Vinícius Ito, fundos liquidaram cerca de 9 mil contratos de soja e quase 20 mil contratos de milho. "Embora o USDA tenha sido muito mais agressivo do que se esperava, os investidores optaram por realizar o lucro. Historicamente, os preços tendem a ceder entre julho e agosto, e os especuladores estavam muito comprados. O risco é grande", explica. Ito afirma, porém, que o clima nos Estados Unidos deve continuar a ditar o comportamento dos preços nas próximas semanas. "Se as condições continuarem a piorar, os preços terão de subir para racionar a demanda", afirma Ito.

Por ora, as previsões trazem um refresco. Novos mapas indicam possibilidades de chuvas para os próximos dias no Meio-Oeste americano, ainda que esparsas e em volumes insuficientes para aplacar o estresse das lavouras.

Diferente da soja e do milho, o trigo fechou em ligeira alta de 0,6% ontem em Chicago, sustentado pela perspectiva de oferta apertada. O USDA revisou para baixo a colheita 2012/13 do cereal, de 672,1 milhões para 665,3 milhões de toneladas, graças ao tempo seco na região do Mar Negro e da China. Os estoques mundiais devem ficar em 182,4 milhões de toneladas, queda de 3,3 milhões de toneladas em relação à estimativa do mês anterior e de 7% sobre o ciclo passado.

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Fonte: Valor | Por Gerson Freitas Jr. e Mariana Caetano | De São Paulo