Fundos reduzem aportes globais em startups agrícolas

Os investimentos globais de fundos de venture capital em startups agrícolas e de alimentação registraram queda de 30% em 2016, para US$ 3,2 bilhões, segundo relatório da americana AgFunder, plataforma online de investimentos no segmento. O recuo nas chamadas "agtechs" superou a queda nos investimentos gerais desses fundos em 2016, que foi de 10%.

De acordo com a AgFunder, os aportes menores em agtechs ocorreram na esteira da desaceleração global desse tipo de investimento. Apesar disso, os montantes ainda superam os de 2014.

E, apesar da queda em dólar, o número de negócios cresceu. "O ano de 2016 foi cheio de contrastes. Curiosamente, os negócios globais em venture capital recuaram 24% no ano passado, mas para o setor agrícola foi um ano cheio de ‘deals’ [negócios, no jargão tech], com alta de 10% em relação a 2015", afirma a AgFunder. Segundo a plataforma, a entrada de mais aceleradoras e outras fontes de apoio inicial às agtechs foi determinante para essa guinada.

"O que se viu em 2016 foi uma entrada de mais casas [de venture capital] em deals mas com um tíquete menor", diz Thiago Lobão, da gestora paulista SP Ventures.

Ao contrário dos anos anteriores, as startups americanas perderam espaço na captação de recursos – embora continuem na liderança. O levantamento aponta que 48% do fluxo de dinheiro no ano passado foi canalizado para agtechs dos EUA, contra 58% em 2015 e 90% em 2014. A maior parte desse dinheiro migrou para empreendimentos na Ásia, sobretudo China e Índia. As agtechs chinesas fecharam dez "deals", captando US$ 427 milhões; as indianas fecharam 53 negócios, totalizando US$ 323 milhões. O Japão levantou outros US$ 8,9 milhões, em quatro "deals".

O Brasil não registrou volume suficiente de negócios ou aportes para entrar no ranking de 2016. O resultado, no entanto, leva em consideração os investimentos realizados tanto em agtechs quanto em e-commerce de alimentos (fortes na Ásia), o que pode distorcer os dados finais, ressalta Lobão.

A queda em dólar se deveu, em parte, à base maior de negócios no com drones em 2015, quando financiamentos vultosos foram firmados. O resultado foi também puxado para baixo pelo apetite menor em 2016 pelos setores de entrega de alimentos e bioenergia.

Apesar disso, alguns modelos de investimento para startups tiveram alta, entre eles o capital "semente" – destinado a tirar do papel ideias de negócios desenvolvidas por startups em seu estágio inicial ou que ainda não saíram do zero – e os investimentos da chamada "Série B", que envolvem volumes maiores para fases avançadas do negócio, o que mostra que as apostas têm ocorrido em diferentes fases das empresas.

O capital "semente" representou 57% do total, com alta de 16% sobre 2015, atraindo US$ 230 milhões. Já os investimentos Série B resultaram em 55 negócios, com alta de 14% sobre 2015, totalizando US$ 791 milhões investidos.

Por Bettina Barros | De São Paulo

Fonte : Valor