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Frio beneficia trigo gaúcho e prejudica safra no Paraná

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Paranaenses estimam que 52% das lavouras foram afetadas pelas baixas temperaturas, que auxiliaram no combate a pragas no Estado

Nestor Tipa Júnior

MARCO QUINTANA/ARQUIVO/JC

Dulphe Pinheiro Machado Neto é gerente técnico da Emater-RS

Dulphe Pinheiro Machado Neto é gerente técnico da Emater-RS

Os dois principais estados produtores de trigo no Brasil vivem situações distintas em relação à cultura. Enquanto no Rio Grande do Sul o frio da última semana foi benéfico, ajudando a controlar pragas, no Paraná as geadas prejudicaram a qualidade do cereal e 52% das lavouras foram afetadas. Isso se deve à diferença do período na fase de implantação do trigo. Os paranaenses, que começaram o plantio mais cedo que os gaúchos, estão com as plantas em fase de floração. Há registros que a geada negra, que dizimou lavouras de café no estado nos anos 1970, atingiu parte da região produtora paranaense, principalmente no Norte.

Além do trigo, as culturas do café e do milho foram afetadas pelo intenso frio da semana passada no Paraná. No milho, que está na segunda safra no estado, a estimativa é de que 25% das lavouras foram afetadas. “Tivemos incidência nessas três culturas que sofrerão algum tipo de impacto. As pastagens das regiões e as hortaliças também tiveram perdas”, informa o economista e técnico do Departamento de Economia Rural (Deral) da Secretaria da Agricultura do Paraná Marcelo Garrido.

No Rio Grande do Sul, de acordo com o gerente técnico da Emater-RS, Dulphe Pinheiro Machado Neto, afirma que as lavouras que estavam com problema de pulgão, praga que ataca a plantação de trigo, foram beneficiadas pelo frio que dizimou a infestação do inseto. “Para o trigo e demais culturas de inverno, como cevada e canola, está tudo normal, já que estão ainda em fase de desenvolvimento vegetativo”, reforça.

O dirigente da Emater-RS salienta também que para a maçã e a uva o frio foi positivo, já que as culturas necessitam de horas de frio nesta fase de dormência. A preocupação maior no Rio Grande do Sul é com a citricultura, que está na fase de colheita, especialmente na variedade da bergamota montenegrina. “Teremos que avaliar, e só em uma semana saberemos quantificar se teremos danos ou não na citricultura”, afirma Machado Neto. Segundo a chefe da divisão de pesquisa da Fepagro e responsável pelo Conselho Permanente de Agrometeorologia Aplicada do Estado (Coopaergs), Bernadete Radin, a previsão é de que setembro, mês mais crítico para a cultura do trigo, seja de normalidade nas temperaturas. “Hoje, apenas 1% da cultura está em floração. Em setembro, a expectativa é de que a temperatura se mantenha na média e até um pouco acima em regiões mais ao Norte”, explica.

Mercado não deve sentir efeitos de possível quebra na produção do cereal

Apesar das perdas que devem ser registradas na safra de trigo do Paraná, que se refletem no mercado brasileiro do cereal, os analistas de mercado não acreditam que os problemas enfrentados no atual ano comercial sejam verificados novamente. Conforme o analista de Safras & Mercado Élcio Bento, mesmo com uma previsão de quebra na safra paranaense, o próximo ano deve ser de um volume maior do cereal no mercado devido à recuperação na Argentina, com previsão de colheita de 13 milhões de toneladas para o próximo período, além de uma safra gaúcha alta, maior do que a do ano passado, que enfrentou problemas climáticos. A última previsão da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), antes dos eventos climáticos no Paraná, é de uma colheita de 5,6 milhões de toneladas ante as 4,3 milhões colhidas na safra anterior.  “As lavouras plantadas mais cedo no Paraná já haviam enfrentado um excesso de chuva, e o frio só confirmou o problema. Mas, apesar do alongamento da entressafra, esperamos um número maior do que o do ano passado”, analisa Bento.

Para a analista do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) Renata Maggian Moda, os preços devem se manter firmes no mercado. “Antes da geada, a gente tinha a expectativa de um recuo do preço do trigo nesta safra, mas como aconteceu a geada, acredito que o preço continue firme, não vai recuar como todo mundo esperava devido à redução de oferta”, avalia. O plantio da safra 2013 foi concluído durante a semana passada, sendo que as condições meteorológicas, com poucas chuvas e temperaturas baixas, contribuíram para que o processo fosse finalizado de forma satisfatória. No ano passado, no mesmo período, o plantio da cultura havia chegado a 96%. O número ainda é acima da média histórica de 98%.

A boa umidade verificada no solo também tem propiciado boas condições de germinação para as sementes recém-lançadas, bem como para o desenvolvimento inicial da cultura. Cerca de 97% das lavouras estão em germinação e desenvolvimento vegetativo. No geral, as condições das lavouras são consideradas boas, com poucas e pontuais ocorrências de doenças fúngicas ou ataques de pragas. Nas Missões e Noroeste Colonial, as áreas plantadas em maio começam a entrar em fase de floração com mais intensidade. Nas demais áreas, prosseguem os trabalhos de adubação em cobertura e controle de inços. Durante a semana, o preço referência para a saca de 60 quilos paga ao produtor teve novo aumento, ficando o preço médio estadual em R$ 32,46.

Fonte: Jornal do Comércio |