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Freio à vista para a retomada das máquinas

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A despeito do otimismo que domina as grandes fabricantes de máquinas, concessionárias de marcas líderes e pequenas indústrias começam a se preocupar com a continuidade do ritmo de recuperação das vendas domésticas de tratores e colheitadeiras, que é forte desde o início do segundo semestre do ano passado.

O temor deriva da tendência de queda das margens dos produtores de soja e milho, os principais grãos cultivados no Brasil, cujos preços registraram quedas expressivas nos últimos meses. De olho nessa tendência, muitos agricultores estão "segurando" as vendas à espera de um cenário mais positivo para os negócios, mas os sinais de melhora são tímidos, tendo em vista a ampla oferta global das duas commodities.

Segundo gerentes da área comercial de empresas do segmento ouvidos pela reportagem em Ribeirão Preto (SP) durante a Agrishow, maior feira de agronegócios do país, essas perspectivas mais negativas começam a contribuir para uma ligeira queda nas consultas e intenções de compra por parte de produtores nas concessionárias.

"Nos últimos 30 dias, percebemos uma queda de 30% na procura por tratores, já que o produtor vem travando as vendas", afirmou Luciano Scalia, gerente da Tracan, concessionária da Case, marca da multinacional CNH Industrial que é uma das mais vendidas no país, localizada em de Uberlândia, em Minas Gerais.

A esperança de Scalia, que é a mesma de muitos agricultores brasileiros neste momento, é que o próximo relatório do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), a ser divulgado em meados deste mês, traga estimativas de uma safra americana menos robusta neste ciclo 2017/18, de modo que as cotações de milho e soja na bolsa de Chicago ganhem mais suporte.

Para José Sidney, gerente geral de vendas da Equagril, concessionária da New Holland (outra marca da CNH Industrial) que atua no interior de São Paulo, ainda não está claro se o mercado de máquinas agrícolas de fato continuará aquecido no Brasil ao longo de todo este ano. "O que as indústrias faturaram no primeiro trimestre deste ano foi muito por conta das sobras de 2016 e da demanda reprimida dos últimos anos, que foram muito ruins para o nosso segmento".

Nelson Watanabe, gerente de vendas da Yanmar Agritech, fabricante de tratores de baixa potência que atua na região de Ribeirão Preto, afirmou que a empresa já teve um ganho de receita da ordem de 32% no primeiro trimestre frente ao mesmo período do ano passado. Mas reconheceu que em março o "ânimo" do produtor diminuiu em comparação com março de 2016. "A renda do agricultor vem crescendo nesta safra, mas com os preços dos grãos caindo isso acaba afetando as margens", disse ele.

Se de fato as perspectivas mais negativas se confirmarem, é provável que os bons resultados do primeiro trimestre sejam incapazes de devolver as vendas em todo o ano de 2017 ao patamar de 2014.

Ana Helena Correa de Andrade, vice-presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), lembrou que as vendas de 9.752 mil máquinas agrícolas e rodoviárias (tratores e colheitadeiras) de janeiro a março, ainda que tenham representado aumento de 41,1% em relação ao mesmo período de 2016, ficaram mesmo abaixo da média histórica para o trimestre, que gira em torno de 12 mil unidades.

Mas ela disse que a entidade continua projetando crescimento de 13% nas vendas neste ano, considera que o pior já passou e não há motivos para pensar em um cenário de "céu cinzento" novamente. "Não temos nenhum sinal de que as vendas vão ser afetadas e já pudemos ver melhora na procura e nos negócios fechados nos dois primeiros dias de Agrishow". A John Deere também fez uma projeção ontem que apontou que ainda há espaço para crescimento.

(Cristiano Zaia | De Ribeirão Preto (SP))

Por Cristiano Zaia | De Ribeirão Preto (SP)

Fonte : Valor