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Freio chinês deve poupar demanda por comida

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Trabalhadores carregam soja importada no porto de Nantong, na província chinesa de Jiangsu; demanda perde ritmo
Enquanto o mercado financeiro sente arrepios a cada indicador que confirma o fim do "milagre chinês", colocando uma pá de cal no superciclo das commodities, o agronegócio ruma por uma trilha menos conturbada. Por mais que a China não volte aos níveis de crescimento da última década, a troca do investimento pelo consumo como motor da economia chinesa promete garantir uma demanda por alimentos mais sustentada que a de produtos industriais.

A avaliação é compartilhada por economistas que acompanham a evolução da China. Um deles é Michael Pettis, professor da Universidade de Pequim. Em entrevista ao Valor por e-mail, o economista observa que o avanço vertiginoso da economia do país levou a fortes desequilíbrios, mas diz que a renda das famílias deve segurar a demanda.

"Se Pequim controlar a dívida e garantir um reequilíbrio que não prejudique a economia, o crescimento do PIB vai cair abaixo de 3%, mas o da renda e do consumo familiar pode ficar em 4% a 5% ou mais", projeta Pettis, acrescentando que essa demanda deve manter os preços de alimentos, especialmente de carnes, relativamente altos. Contudo, se o endividamento não for contido e houver colapso no crescimento, "os preços dos alimentos também cairão".

As cotações agrícolas, porém, já estão em níveis historicamente baixos depois que países com forte produção rural, como o Brasil, investiram em produtividade e expandiram suas fronteiras agrícolas para atender ao apetite chinês, gerando ofertas recorde.

Os principais fornecedores de bens agropecuários à China – Estados Unidos e Brasil – vêm sentindo essa pressão. Se em 2010 as receitas das exportações americanas de bens agrícolas ao gigante asiático cresciam 18%, a partir de 2013 elas começaram a recuar. No caso do Brasil, o faturamento das exportações agrícolas à China também subiu até 2013, mas nos dois anos seguintes recuaram cerca de 3%.

Esses números, no entanto, não indicam que a demanda chinesa por alimentos crescerá menos, avalia Roberto Dumas, especialista em economia chinesa do Insper. Para ele, o fim da política do filho único e o incentivo à urbanização compõem a diretriz que prioriza a demanda. "Se aumentarem a renda das famílias, o consumo de proteína animal e de grãos vai só aumentar daqui para frente", diz.

Mas Lief Chian, analista de grãos do Rabobank, em Xangai, observa, que o consumo de alimentos não significa automaticamente igual avanço de importações. "Isso depende da diferença de preços e das políticas do governo", explica. Uma das barreiras são as cotas para importação de grãos, embora os volumes comprados costumem ficar abaixo dos limites.

O milho é um caso exemplar. A cota para esta safra 2015/16 é de 7,2 milhões de toneladas. Porém, como as reservas chegaram a patamares recorde após anos de agressivas importações e incentivo à produção local, estima-se que Pequim pode cortar pela metade o montante adquirido do exterior.

A última estimativa do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) é de que a China importará 5,5 milhões de toneladas de milho nesta safra. Além disso, 90% do milho importado sai da Ucrânia por conta de um acordo bilateral, o que limita o espaço para outros fornecedores, diz Chian.

A situação do trigo na China guarda especificidades mais alentadoras. O país tem uma produção que supera o consumo em 100%. "Porém, falta trigo de alta qualidade para pães e bolos. Se quisermos desenvolver essa indústria, há uma demanda que estimulará mais importações", sinaliza.

O centro de pesquisa do governo da China sobre economia rural prevê que o país chegará em 2023 com 5,7 milhões de toneladas de trigo importadas ao ano, ante as atuais 2 milhões de toneladas. Ainda assim, o volume é menor que a cota desta safra (9,7 milhões de toneladas anuais).

A soja é um caso diferente. Ainda que seja cultivada na China, tem uma importância econômica menor que o milho. Tanto que se colhe cerca de 12 milhões de toneladas há três safras. Mas espera-se um ritmo menor de aumento das importações no futuro.

"A China aumenta a demanda agora de 3 milhões a 5 milhões de toneladas por ano, não 10 milhões a 15 milhões de toneladas, como antes", observa Pedro Dejneka, sócio-diretor da consultoria AGR Brasil. Na safra atual, o USDA estima que as importações crescerão 2 milhões de toneladas. Duas safras atrás, o volume que se somou a suas importações chegou a 10 milhões de toneladas.

Hamish Smith, pesquisador da consultoria Capital Economics, em Londres, vê um limite para esse avanço. "A demanda da China por soja foi ditada pela indústria de carnes. Conforme a indústria amadurece no longo prazo em termos de números de animais, é provável uma estabilização da demanda".

Em 15 anos, a produção de aves e suínos subiu em linha com o consumo doméstico, em torno de 40% cada, guardando pouca diferença com o volume que chega ao prato dos chineses, conforme levantamento feito por Cesar de Castro Alves, da consultoria MB Agro.

O país abandonou a meta de autossuficiência em carnes, mas continua a estimular o consumo doméstico. "O crescimento da demanda [por carnes] será maior que o da produção local", diz Alves. Dessa forma, a expectativa é que as importações de carnes da China cresçam mais que as de grãos para rações, acrescenta.

O governo chinês tem se antecipado a esse cenário e derrubado barreiras para importar carnes. Na semana passada, o país habilitou 17 frigoríficos brasileiros para exportação, o que deve elevar as receitas de embarques do setor em US$ 340 milhões, nos cálculos do Ministério de Agricultura.

Mas há produtos agrícolas que fogem à regra, como o leite. Depois de importar volumes elevados até 2014, quando adquiriu 923,7 mil toneladas de leite em pó em meio a altos preços, a China importou 547,3 mil toneladas ano passado, mesmo em um contexto de cotações baixas.

valor.com.br

Ver mais informações sobre a economia da China em www.valor.com.br/u/4433960

Por Camila Souza Ramos | De São Paulo

Fonte : Valor