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Força competitiva

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Fonte: Lauro Veiga Filho | Para o Valor, de São Paulo

Depois de dar um salto de quase 60% em apenas três safras, elevando a produção de etanol de menos de 17 bilhões para 27 bilhões de litros no ciclo 2008/2009, a indústria do setor passou a enfrentar virtual estagnação desde lá. "A produção não cresce de fato há três safras", reforça o analista da COMPANHIA NACIONAL DE ABASTECIMENTO (CONAB), Ângelo Bressan Filho.

O grande desafio, daqui para frente, resumem os presidentes da União da Indústria de Cana de Açúcar (Unica), Marcos Sawaya Jank, e da ETH Bioenergia, José Carlos Grubisich, será desenvolver mecanismos adequados para restabelecer a competitividade do setor e recuperar a capacidade de crescimento, sabendo que haverá demanda firme pela frente.

No curto prazo, os esforços têm sido direcionados, em conversas frequentes com o governo federal, para planejar o abastecimento ao longo da safra já em curso de forma a reduzir a volatilidade dos preços, especialmente no caso do anidro, utilizado na mistura com a gasolina, aponta Jank.

A combinação de uma entressafra mais longa do que o habitual, com forte expansão do consumo e menor oferta de sacarose, depois de dois anos complicados para os canaviais, castigados ora pelo excesso de umidade, ora pela forte estiagem, analisa Guilherme Nastari, da Datagro, lançaram os preços do etanol numa espiral de alta, seguida de uma forte queda.

Pela primeira vez em oito anos, lembra Jank, os preços do etanol atingiram uma posição de desvantagem em relação à gasolina, que não sofre correções desde 2005. "Numa primeira frente de discussões, estamos trabalhando para ampliar a segurança no abastecimento, principalmente no caso do álcool anidro", reforça o presidente da Unica.

Isso certamente deverá se traduzir em políticas para reforçar a capacidade de estocagem das usinas e, ainda, no estabelecimento de novas formas de contratação da produção envolvendo indústrias e distribuidoras. "Se conseguirmos fazer um planejamento bem feito, poderemos atravessar a próxima entressafra com menos solavancos", acredita Marcos Jank. Os desafios para o longo prazo e estarão no centro do debate da terceira edição do Ethanol Summit, realizado pela Unica, em São Paulo.

Em resumo, trata-se de definir "como retomar o processo de expansão da capacidade instalada para que o etanol ocupe o lugar devido na matriz de combustíveis do país", afirma Grubisich. O executivo lembra que, na safra passada, o desencontro entre a produção efetiva e a demanda potencial, que cresceu acima da capacidade de ampliação da oferta, levou o setor a deixar de vender entre 6 bilhões a 8 bilhões de litros.

A competitividade da indústria brasileira de etanol esbarra num obstáculo conhecido, mas politicamente espinhoso. Os preços do etanol na bomba tornam-se vantajosos até o limite de 70% do valor do litro de gasolina, virtualmente congelado há seis anos. Mexer nos preços do combustível fóssil não é visto como uma opção tanto pela indústria, quanto pelo governo, que buscam outros caminhos para recuperar a capacidade de investimento de um setor que chegou a injetar mais de US$ 20 bilhões entre 2006 e 2009 na instalação de 120 novas destilarias, acumulando capacidade para processar perto de 630 milhões de toneladas de cana apenas na região Centro-Sul do país.

"Hoje, não há um projeto novo no pipeline do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e nas demais instituições financeiras que operam com o setor", descreve Jank.

Ao analisar os fundamentos da crise recente no setor sucroalcooleiro, o especialista Ângelo Bressan Filho, da CONAB, identificou uma queda importante na rentabilidade da indústria precisamente a partir da safra 2007/2008. Naquele ciclo, o setor negociou pouco mais de 21,5 bilhões de litros, alcançando uma receita líquida total de apenas R$ 238,45 milhões, o que correspondeu a uma taxa de retorno sobre o capital investido de apenas 0,6%.

Essa margem havia atingido um pico de 14,4% na safra anterior, realimentando o vigoroso processo de investimento que o setor experimentava até então. No ciclo 2008/2009, a receita líquida cresceu para R$ 1,184 bilhão, mas a taxa de retorno manteve-se limitada a 2,6%.

Sobre a mesa de negociações, governo e indústria discutem novas políticas para o setor e conversam sobre a possibilidade, entre outras, de fixar um tratamento tributário diferenciado, que reconheça as "externalidades positivas do etanol e da bioenergia na competição com combustíveis de origem fóssil e não renovável", nas palavras de Jank. A ideia é caminhar para a criação de um "imposto verde", mais baixo para veículos com taxas reduzidas de emissão de gases do efeito estufa e menos poluidores.

Jank e Grubisich acreditam que há tempo para recuperar o terreno perdido para a gasolina, a partir das políticas públicas que começam a ser desenhadas. A nova regulação proposta para o mercado de etanol, agora sob o comando da Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), segundo Grubisich, representa o reconhecimento da importância do etanol para a matriz energética brasileira.