.........

Foco na exportação de frutas para Alemanha

.........

Leo Caldas/Valor

Manga no Vale do São Francisco: a fruta chegou a representar 11% das vendas do setor à Alemanha, mas perdeu espaço

O Brasil está renovando esforços para ampliar sua participação no mercado de frutas da Alemanha, país considerado estratégico para as exportações do país pela Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex). Ó órgão elaborou um estudo para mapear os caminhos a seguir e decidiu centrar foco em frutas que já têm presença relevante naquele mercado, como manga e mamão.

"Esse é um processo de melhoria continua, já que temos áreas que facilitam o trabalho de mapear regulações e barreiras de outros países e melhorar a imagem dos produtos brasileiros", diz Igor Celeste, coordenador de Inteligência de Mercado da Apex-Brasil. Segundo ele, a agência tem identificado "janelas" sazonais na oferta de países que atualmente lideram as exportações de frutas para a Alemanha, casos de Espanha, Itália e Colômbia, para ampliar as vendas brasileiras.

Um dos mercados mais exigentes do mundo, com consumo anual de 4,5 milhões de toneladas de frutas, a Alemanha é o destino de menos de 4% das exportações brasileiras do segmento – os embarques ao país renderam US$ 25,5 milhões no ano passado, em um total que superou US$ 700 milhões, referentes a embarques que somaram quase 800 mil toneladas (ver infográfico). Desse volume, a União Europeia respondeu por 76,5%, e quase metade das vendas do Brasil ao bloco entraram pelos portos holandeses.

"Temos espaço para crescer. Estamos falando de um mercado de, no mínimo US$ 1 bilhão, por ano", afirma Celeste.

O Brasil, contudo, continuará a esbarrar nos mesmos obstáculos de sempre: o elevado nível de regulação do mercado alemão e a dificuldade técnica de enviar, com qualidade, as principais frutas demandadas pelo país, cujas importações de banana representam quase 15% do volume total adquirido no exterior. "Há iniciativas no Brasil para desenvolver a oferta exportável de banana, mas as características de cultivo e armazenagem dificultam as vendas ao mercado alemão".

Segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex/Mdic), as exportações brasileiras de banana para a Alemanha caíram de quase 20 mil toneladas, em 2010, para apenas 1,5 mil em 2016, sendo que em 2015 não houve vendas. No norte de Minas Gerais, região que reúne mais de 2 mil bananicultores, as tentativas de exportar se arrastam desde 2000. Segundo Ivonete Pereira dos Santos, gerente geral da Abanorte, que representa fruticultores da região, diversas pesquisas para desacelerar o amadurecimento e aumentar o tempo de conservação dos frutos foram desenvolvidas pela entidade, mas em 2014 esses trabalhos foram paralisados devido ao elevado custo.

Com recursos do Banco Internacional para o Desenvolvimento (BID), a associação chegou a investiu cerca de R$ 400 mil no desenvolvimento de pesquisas com o uso de permanganato de potássio e de câmaras frias com atmosfera controlada e enviaram uma carga teste de banana para Portugal, mas ainda com custos desanimadores. "A proposta é de retomar os estudos entre o fim deste ano e o início do próximo, com a ajuda de um profissional dos EUA", diz Ivonete.

Igor Celeste, da Apex, reconhece as dificuldades de atender à demanda alemã por bananas, apesar da grande produção no Brasil. E reitera que existem outras frutas que já têm participação no exigente mercado alemão e potencial para avançar ainda mais e abrir portas em outros países – é o caso da manga, que já chegou a representar 11% das exportações brasileiras de frutas para aquele mercado em 2014.

Para Paulo Dantas, grande produtor do Vale do São Francisco e responsável por cerca de 20% das exportações brasileiras de manga, é grande o desafio para responder ao crescimento 10% a 15% anual do consumo europeu. "O gargalo hoje é aumentar a produção apta para a exportação com financiamento adequado para dobrar o volume colhido a cada três ou cinco anos", calcula o produtor, que já se planeja para exportar nas janelas de oferta de outros países. Atualmente, o Brasil exporta 12% de sua produção total de manga, que chega a cerca de 1 milhão de toneladas por temporada.

 

Por Cleyton Vilarino | De São Paulo

Fonte : Valor