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Fim do IOF deve beneficiar investidor de curto prazo

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Fonte: Valor | Por Daniele Camba, Angelo Pavini e Silvia Rosa | De São Paulo

O fim do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) de 2% para as aplicações de investidores estrangeiros em ações foi bem recebido pelo mercado. No entanto, está longe de ser o que a Bovespa precisava para os estrangeiros voltarem com muita sede ao pote do mercado brasileiro.

Isso porque o pano de fundo dessas medidas é uma crise internacional muito proeminente e a desaceleração econômica local, dizem analistas. "Por meio de derivativos, os estrangeiros já conseguiam entrar no país pagando muito menos que esses 2%", diz o chefe da área de renda variável do banco Morgan Stanley, Márcio Rochwerger. "Portanto, ele [o estrangeiro] só não está entrando mais porque o cenário externo ainda é bastante complicado e isso o fim do IOF não muda", afirma ele.

Adicionalmente, uma economia de 2% não é algo que faz muita diferença nas contas do estrangeiro na hora de decidir se vale ou não a pena comprar ações em outros países. "O aplicador de longo prazo não considera possibilidades de ganho abaixo de dois dígitos, portanto, essa tributação fica pequena", afirma Rochwerger.

O lado positivo da decisão do governo é que o mercado obviamente fica mais eficiente sem um tributo, o que sempre contribui para o aumento das operações de arbitragem entre os ativos no Brasil e no exterior. Os ganhos dessas operações costumam ser apertados, portanto, qualquer economia é importante, mais ainda quando é de dois pontos percentuais.

Com relação à possibilidade do estrangeiro se sentir inseguro com essa estratégia do governo de pôr e tirar regras, Rochwerger não vê motivo para isso. "É perfeitamente compreensível criar uma regra num determinado cenário e tirar algum tempo depois, quando o cenário já é outro", diz ele. "O que investidor nenhum entende é mudança regulatória do dia para noite, o que não é o caso", completa.

A medida é boa, mas não deve trazer muito dinheiro para a bolsa brasileira no curto prazo, afirma Frederico Sampaio, gestor de renda variável da Franklin Templeton. "Neste contexto global de muitas incertezas e volatilidade, o sobe e desce do mercado acaba atraindo mais o investidor de curto prazo", diz. E era esse investidor que o IOF de 2% afugentava, observa. "Quem aplicava com visão de longo prazo, otimista com o Brasil, não deixava de comprar por causa desses 2%".

Com a volta do investidor mais tático, quem se beneficiará é a BM&FBovespa, tanto que sua ação subiu 6,68% ontem, afirma Sampaio. "A medida aumenta o giro e o volume de bolsa", afirma. Para ele, quanto menos "penduricalhos" fiscais ou regulatórios houver, melhor para o Brasil, que terá de disputar recursos com outros países. "Mas, para entrar mais dinheiro, ainda é pouco", alerta o gestor.

A volatilidade elevada afugenta o investidor, que não fica seguro em aplicar volumes grandes, afirma. E lembra que o mercado brasileiro está em um processo de revisão do crescimento econômico de 2012 para baixo. "É preciso ver essas expectativas para a economia melhorando para termos fluxo para o Brasil."

Menor crescimento significa lucro menor para as empresas também. No início do ano, segundo Sampaio, as projeções de crescimento dos lucros das empresas brasileiras estava em torno de 18% e agora está 11%. "Mas o ano que vem pode melhorar, pois a bolsa já está ficando barata e estamos no limite dessa redução de projeção de crescimento", afirma. "Óbvio que se tiver desastre lá fora o mercado cairá mais, mas, se não tiver, deve melhorar junto com a economia."

Para o diretor para a América Latina do BNY Mellon Depositary Receipts, Nuno da Silva, a medida é positiva para estimular a empresas a captarem recursos de investidores estrangeiros, seja no mercado local ou por meio de programas de emissão de recibos de ações negociados no mercado americano (American Depositary Receipts, ADRs).

O executivo lembra, no entanto, que a incidência da alíquota de 1,5% sobre a emissão de ADRs, instituída em 2009, encarece o custo de capital para as empresas. Com a incidência do imposto sobre a emissão de ADRs, afirma Silva, esses recibos passaram a ser negociados com prêmio, em média, de 1,42% sobre as ações brasileiras, de acordo com um estudo realizado pelo BNY Mellon, o que acaba desestimulando as operações de arbitragens, e consequentemente, o cancelamento dos recibos.

Os ADRs brasileiros respondem por 23% do total de transações com ADRs na Bolsa de Nova York (Nyse) neste ano.