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FIESP APRESENTA – Revolução no financiamento agrícola

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Maílson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda, destacou a importância crescente do mercado de capitais no crédito para o setor, em reunião da Cosag

Crédito: ThinkStock (Foto: Reprodução)

Imagem ilustratitva. ThinkStock (Foto: Reprodução)

“Estamos no limiar de uma revolução no financiamento agrícola, que nem todos perceberam”, disse o ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega. Ele participou da reunião do Conselho Superior do Agronegócio da Fiesp (Cosag), realizada no dia 6 de março, ao falar sobre o tema “Financiamento da Agricultura Brasileira”.

Nóbrega explicou a nova tendência para as fontes de recursos do crédito rural. De acordo com ele, a letra de crédito do agronegócio tende a se tornar a principal fonte de financiamento do setor. Esse título já responde por 12% e experimenta crescimento. O mercado de capitais será o grande financiador, por meio de equity e de debt. Nos EUA, ele representa mais de 80% do crédito. A securitização, segundo o ministro, também ganhará participação.
Na opinião do ex-ministro, o Banco do Brasil continuará como líder, por conta da tradição, experiência, capilaridade e capacidade de captação de recursos.

Ele também apresentou ideias para um novo sistema de financiamento rural. Uma delas é o Estado atuar nas falhas de mercado. Subsídios ao crédito rural deveriam existir em casos específicos, com valores inscritos no Orçamento da União e avaliação permanente. A fonte básica deve ser o mercado de capitais, sem direcionamento oficial.

Nóbrega defendeu ainda o fim do crédito obrigatório, em contexto de redução substancial do direcionamento de depósitos compulsórios dos bancos e de busca de nível civilizado para a taxa Selic. Já o Plano de Safra deveria se transformar em conjunto de políticas para incentivar as atividades rurais, em vez de ser voltado ao crédito.

Jacyr Costa Filho, presidente do Cosag, ressaltou a importância do tema discutido na reunião, e que teve a participação de outros especialistas em crédito rural como debatedores.

Tarcisio Hübner, vice-presidente de Agronegócios e Micro e Pequenas Empresas do Banco do Brasil, disse que o crédito subsidiado caminha para o fim, mas isso pode demorar alguns anos. Além disso, explicou que o banco busca novas opções, como a letra de crédito do agronegócio, que já representa carteira de R$ 130 bilhões no BB. Ele lembrou que os bancos são capazes de suprir apenas uma pequena parte do que o agronegócio precisa para se financiar. “É um desafio para os bancos acompanhar esse aumento de produtividade”, disse.

Fabiana Alves, diretora executiva do Rabobank Internacional Brasil S/A – Área Rural, explicou que o banco, com origem em cooperativas na Holanda, opera há mais de 100 anos. No Brasil, está no agronegócio há 10 anos, com R$ 3 bilhões para 1.200 agricultores dentro da porteira e R$ 5 bilhões fora da porteira. O segundo capítulo da história do agronegócio, disse, será a absorção da tecnologia de gestão, disse Alves, com a adoção de controles e governança.
Alexandre Figliolino, diretor da MBAgro – MB Associados, considera que ainda falta uma rede de proteção para a agricultura, o que permitirá tornar o crédito rural mais próximo do normal. Ele destacou a necessidade de um banco de dados, para conhecer as condições financeiras dos produtores, e a adoção de planos plurianuais de safra. Para aumentar a oferta de seguro, defende a criação de um fundo de catástrofes, para haver interesse das seguradoras. Essa rede de proteção, disse Maílson da Nóbrega, é fundamental para a transição de sistemas de financiamento. É preciso estabilizar a renda do agricultor e reduzir seus riscos.

Ivan Wedekin, da Wedekin Consultores, lembrou que o crédito rural sempre foi tratado como prioridade pelos diferentes governos, mesmo nas crises. Os títulos do agronegócio, com destaque para o certificado de recebíveis do agronegócio, já não são novidade. Wedekin projeta crescimento de 1 milhão de hectares por ano na área plantada.

Também participante da reunião, como debatedor, Marco Aurélio Borges de Almada Abreu, diretor-presidente do Bancoob, destacou o sistema de crédito cooperativo. Há 20 anos os bancos cooperativos crescem. Em 1995 eles tinham 0,35% do mercado, e agora acumulam 5% (10% no financiamento à agricultura). Nóbrega acredita que em algum momento vai haver um banco cooperativo de crédito no Brasil com características similares aos do Japão, França e Holanda, com a fusão das instituições atuais.

História do crédito rural
O ex-ministro lembrou que sua carreira é ligada ao crédito rural. Explicou a evolução dessa operação, a partir da década de 1930, com o penhor rural da safra pendente, de 1936. Em 1938 surgiu a Carteira de Crédito Rural e Industrial do Banco do Brasil. Sem ter as mesmas condições, houve a tentativa de imitar o Farm Credit System dos EUA.

De 1945 a 1964 o BB se tornou o centro do sistema, com empréstimos rurais descontados na Carteira de Redescontos. Com o surgimento do Banco Central, implantado em 1965, houve profundas mudanças no setor financeiro.

A lei 4829/65 institucionalizou o crédito rural, com a obrigatoriedade de aplicação de depósitos à vista em financiamento à agricultura. O BC criou a Diretoria de Crédito Rural e Industrial, o que Nóbrega considera uma distorção.

No crédito rural a reforma não aconteceu, por problemas na interpretação da lei. Depois foi institucionalizada a “conta de movimento” do BC no BB, que por mais de 20 anos foi a mais importante fonte de financiamento rural. O BB passou a ter suprimento automático de recursos.
Com a atuação do BB, do BC e de bancos comerciais, a expansão do crédito rural explodiu. Para haver recursos para os bancos oficiais, o crédito passou a alimentar a dívida pública.
O sistema acabou ficando insustentável. O crédito rural tinha o foco total, e outros mecanismos de incentivo à agricultura foram negligenciados. Nos anos 1980, com juros fixos em meio a uma inflação crescente, o volume de subsídios se agigantou. A tentativa de correção não funcionou. Com isso, o governo passou a estudar o crédito rural em outros países, especialmente EUA e França.

Depois da crise da dívida e dos acordos com o FMI, 150 técnicos liderados por Nóbrega sugeriram seis medidas saneadoras, entre elas a autorização para o BB funcionar como um banco normal, podendo captar recursos em caderneta de poupança rural. Foram implantadas em 1986 e 1987. E o BB, disse ele, se tornou uma excelente instituição financeira, competitiva e moderna.

A existência da Embrapa e o sistema Embrater tiveram papel essencial numa revolução no campo, assim como a expansão da infraestrutura no Centro-Oeste.
Falido, o sistema de crédito rural pouco deixou em seu lugar, mas o agronegócio se saiu bem com o pouco que havia no país – e com baixíssima intervenção do Estado. Em 50 anos a área cultivada dobrou, e a produção se multiplicou entre 4 e 5. Com a tecnologia da Embrapa e de outras instituições, com o plantio direto, a agricultura de precisão e liderança do empreendedorismo, o Brasil se tornou potência rural, e o agronegócio se converteu em fonte relevante de crescimento econômico e de geração de superávit na balança comercial.

POR ESTÚDIO GLOBO (PUBLIEDITORIAL)

Fonte : Globo Rural