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Ferrugem do café devasta plantações na Colômbia

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Alejandra Parra/Bloomberg / Alejandra Parra/Bloomberg
Folha de cafeeiro afetado pela ferrugem em fazenda na província colombiana de Antioquia; doença reduz produção de café e pode elevar preços do produto

Nestas encostas íngremes e verdejantes da Colômbia, um fungo alaranjado está devastando centenas de milhares de hectares de plantações de café. A infestação, e os esforços para erradicá-la, elevam as chances de um aumento nos contratos futuros de café – e no preço do cafezinho – por vários meses.

O fungo na Colômbia é conhecido como "roya", a palavra espanhola para a "ferrugem do café". Ele cresce nas folhas da planta e asfixia os nutrientes que iriam para os grãos. Estimulada por anos de chuvas torrenciais, a ferrugem se espalhou por toda a Colômbia, obrigando os agricultores a arrancar as plantas e substituí-las por mudas resistentes ao fungo.

Juan María Cañar, agricultor de 64 anos da região de Nariño, sudoeste da Colômbia, disse que foi obrigado a replantar boa parte do seu cafezal. Em geral ele produz 1.500 quilos de grãos de café. "Nesta estação vou colher a metade disso", diz ele.

O fungo vem arruinando as colheitas neste ano que deveria ser bom para a Colômbia, o segundo maior produtor mundial de café arábica de alta qualidade. Esses grãos de sabor leve, colhidos à mão, costumam alcançar preços superiores no mercado.

Até 10% da região cafeicultora da Colômbia, ou cerca de 121.000 hectares, foram replantados este ano, no esforço para vencer a praga. As novas plantas em geral demoram até três anos para produzir grãos, o que provavelmente vai restringir a oferta, elevando os preços.

Os investidores têm dado pouca atenção para essa possível crise. Os contratos futuros de café arábica, a variedade mais popular do mundo, vêm caindo, juntamente com outras commodities, em decorrência das notícias negativas que vêm da Europa.

Mas a queda tem sido menor do que a de outras commodities agrícolas de vários países. O preço do café caiu 7,4% este ano na bolsa, enquanto o algodão caiu 40% e o cacau, 28%.

"Não vemos uma venda de grandes volumes a baixo preço, como ocorre com outros produtos", disse Kona Haque, analista de commodities do Macquarie Bank. "O café está mantendo a sua cotação".

Os analistas dizem que os sinais de alerta no mercado de café logo ficarão mais visíveis em meio à incerteza causada pela crise da dívida europeia. "A questão principal está ficando em segundo plano porque todo mundo está preocupado com a Europa", disse Márcio Bernardo, analista da corretora Newedge.

Os problemas na Colômbia ocorrem em um momento em que a oferta global de café já é reduzida. A safra mais recente do Brasil, fornecedor de mais de um terço do café mundial, foi relativamente pequena. Além disso, a América Central foi atingida por fortes chuvas no início da colheita em outubro, o que deve reduzir a produção em El Salvador e Guatemala.

A produção mundial de café arábica vai encolher 4,3% para 79,6 milhões de sacas no atual ano de produção agrícola, iniciado em outubro, segundo a Organização Internacional do Café (OIC), sediada em Londres.

A Federação Nacional de Cafeicultores da Colômbia, ou Fedecafe, não está dando uma previsão firme para a safra do ano que vem, dizendo que é difícil fazer estimativas em vista do grande volume de chuva que caiu este ano.

Durante as últimas três safras, essa organização colombiana semigovernamental fixou metas de produção elevadas, mas não conseguiu atingi-las. O fato de que este ano ela está demorando a fixar metas é revelador, afirma Jack Scoville, corretor da Price Futures Group.

"Eles estão tentando tomar muito cuidado com o que dizem", disse Scoville.

Segundo analistas, no cenário mais favorável à produção colombiana em 2012 poderá ser comparável à deste ano, quando a Fedecafe espera atingir cerca de 8 milhões de sacas de 60 quilos. Em um bom ano a Colômbia produz cerca de 11 milhões de sacas.

Em paralelo, a demanda por café está crescendo. O consumo subiu 2,5% a cada ano, em média, dos últimos dez anos, segundo a OIC, que cita o crescimento de nichos de mercado e novos consumidores em mercados emergentes.

Os problemas da zona do euro podem prejudicar a demanda global, já que a União Europeia tem o maior consumo de café per capita do mundo.

Outro fator que poderia mitigar o problema da produção colombiana é o Brasil, que tem previsão de colher uma grande safra no próximo ano.

Na semana passada, o Conselho Nacional do Café disse que o Brasil produzirá até 52 milhões de sacas, um aumento de 18% ante o ano passado. A previsão do CNC é conservadora, comparada a estimativas privadas que dão números mais próximos a 60 milhões de sacas.

Mas a colheita no Brasil só começa em maio. Até lá, o mercado mundial deve enfrentar mais uma possível temporada de escassez da produção colombiana.

Fonte: Valor | Por Leslie Josephs | The Wall Street Journal, de Nariño, Colômbia