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Feira em Paris vai discutir luxo sustentável

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Anna Carolina Negri/Valor / Anna Carolina Negri/Valor
Oskar Metsavaht, fundador e estilista da Osklen, participa como presidente de honra da feira de luxo sustentável

Ao contrário do que muitos pensam, luxo e sustentabilidade não são conceitos contraditórios. Pelo menos, é isso que uma exposição em Paris vai demonstrar entre 29 de março e 1º de abril. A 3ª Feira de Luxo Sustentável tem a missão de mostrar que o luxo não deveria ser considerado supérfluo e fortuito. Em razão disso, mais de 50 organizações vão expor produtos e iniciativas concebidos de acordo com preceitos como o respeito aos direitos humanos e aos recursos naturais. Entre eles, estão marcas internacionais como BMW, Piaggio e a brasileira Osklen.

Oskar Metsavaht, fundador e estilista da Osklen, participa como presidente de honra da feira. Foi convidado pela organização porque produz e fomenta o que a feira entende como luxo sustentável. Para o empresário, o mercado vive o desafio de retornar à origem e voltar a representar os valores nobres da sociedade. Ele argumenta que luxo não se trata apenas de sofisticação de materiais e beleza. "[Ninguém deve esquecer que] a palavra estética, que representa a beleza e a qualidade dos produtos de luxo, tem a mesma origem da palavra ética", diz. Luxo está, essencialmente, atrelado à defesa de causas e valores nobres, segundo Metsavaht.

As principais causas e bandeiras do estilista são a produção de baixo impacto ambiental e a inclusão social através do empreendedorismo. "Quer algo mais nobre do que fomentar a agricultura orgânica familiar, evitar que essas pessoas se exponham a produtos químicos para criar um produto belo, sofisticado e de alta qualidade", afirma. Na feira, ele vai expor o resultado do trabalho que sua empresa e o Instituto-e vêm fazendo nessas duas frentes desde a década passada. O instituto é uma Oscip (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público) incubada pela Osklen e que desenvolveu um projeto de pesquisa e desenvolvimento de matérias-primas sustentáveis, denominadas e-fabrics pela organização, envolvendo mais de 1,1 mil trabalhadores cooperativados.

No estande da Osklen, Metsavaht vai mostrar produtos como o tênis feito de palha de seda orgânica, produzida por uma comunidade no Paraná, e uma bolsa de juta da Amazônia, produzida no Pará. No estande do Instituto-e, a organização vai apresentar um documentário sobre o trabalho de inclusão produtiva e de fomento desse mercado de materiais sustentáveis. "Estudamos a pegada de carbono e também o impacto social de seis e-fabrics com o apoio do ministério do Meio Ambiente da Itália", afirmou Nina Braga, diretora do Instituto-e.

Dono da primeira marca de luxo global do Brasil, segundo a "Forbes", e um dos cem empreendedores mais criativos, segundo a "Fast Company", Metsavaht se sente confortável para criticar algumas marcas tradicionais. Diz que muitas se transformaram em algo esnobe, passaram a ignorar valores éticos e nobres e a própria essência. "Ficaram overbranded", afirma, referindo-se ao investimento maciço na transformação da marca em um objeto de desejo sem valorizar a sua história, seu significado e a sofisticação do design. "O consumidor desse novo luxo reconhece o valor intrínseco da peça e aceita pagar a mais por isso", afirma Nina. Esse cliente jamais compraria uma joia feita com ‘diamantes de sangue’ mesmo se uma grande marca assinasse a peça. Ele optaria por uma joia de igual qualidade e exuberância mas certificada.

Um relatório de 2007 do WWF já falava sobre o novo luxo. No estudo Deeper Luxury (luxo profundo, em português), a ONG demonstra "que muitos consumidores desse setor fazem parte de um elite global afluente que se preocupa com as questões sociais e ambientais. Esses consumidores usam os produtos de luxo como símbolo do sucesso". E o sucesso, para eles, se traduz na aspiração de um mundo com menor desigualdade social e maior equilíbrio ambiental. Ou seja, quando pagam o preço alto de uma roupa de luxo sustentável, entendem que estão investindo em um produto de qualidade, que lhe confere o status social almejado e que ajuda a cumprir o seu objetivo mais nobre – o compromisso ético de construir um mundo melhor.

Para aproveitar essa nova onda consumidora, o Brasil possui uma posição estratégica, na opinião do fundador da Osklen. "Temos dois vetores de crescimento: a nossa criatividade e a sustentabilidade. A oportunidade é nossa", afirma. Para ele, o desafio é concretizar o desenvolvimento sustentável em produtos e serviços com "qualidade internacional e design universal". Um exemplo disso é a bolsa de juta, vendida no MoMA (Museum of Modern Art) de Nova York e de Tóquio por, aproximadamente, R$ 1,5 mil. Outro é a bolsa de couro de pirarucu, um peixe da Amazônia pescado de forma sustentável. A peça custa quase R$ 2 mil. Para Metsavaht, isso comprova que é possível combinar um trabalho social e ambientalmente responsável e o mundo dos negócios.

"Acho que sou um otimista."

Fonte: Valor | Por Katia Spotorno | De São Paulo