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Feijão está mais caro e é produto para poucos

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Quebra da safra reduz drasticamente a oferta e eleva preços do produto a patamar recorde

por Luciana Franco | Fotos Ernesto de Souza

Editora Globo

João e Clésio plantaram 800 hectares, mas se decepcionaram com a queda de 30% na produtividade

O raciocínio é simples: se na época de comprar sementes para o cultivo de feijão o mercado estiver inflacionado, é sinal que tem muito produtor comprando, o que deve gerar safra grande e preços baixos no ano seguinte. Mas se for o contrário e as sementes estiverem com preço baixo, indica que a demanda é fraca e, portanto, a safra será pequena, mas os preços, em contrapartida, podem surpreender. A regra não contabiliza as condições climáticas durante o desenvolvimento das lavouras, que podem exercer grande influência sobre a produtividade e os preços da leguminosa, mas, ainda assim, nunca falha, garantem agricultores.
“Trabalhar com feijão é vício, você não sai do jogo nem quando está perdendo”, diz Eduardo Medeiros Gomes, agricultor e presidente do Sindicato Rural de Castro, principal região produtora da leguminosa no Brasil. A afirmação parece ser verdadeira, uma vez que os ciclos se repetem sem que os produtores adotem estratégias diferenciadas para evitar perdas em anos de safra gorda e preço baixo ou optem por novas lavouras.

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Ainda assim, o ciclo de altas e baixas das cotações, recentemente associado à redução do consumo per capita no Brasil, vem desestimulando o plantio do grão em diversas regiões. A safra 2011/2012 deve ocupar uma área 2,4% menor que a do período anterior e atingirá 3,9 milhões de hectares, que renderão uma produção de 3,7 milhões de toneladas, segundo projeções da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). O Brasil planta três safras durante um ano. Mais da metade, ou 65% da produção nacional, se refere ao feijão-carioca, entre 15% e 17% ao preto e 15% é de feijão-de-corda. A primeira safra é cultivada em novembro e colhida em março. No primeiro ciclo deste ano, houve queda de 20% no volume colhido, decorrente tanto da redução da área quanto da frustração da produção, em função da seca no Norte e Nordeste, da falta de chuvas em algumas áreas do Paraná e do excesso de precipitações no Rio de Janeiro.
Como resultado, os preços subiram sensivelmente no primeiro quadrimestre do ano. “O volume de produção é, de fato, preocupante este ano. Pelos cálculos do governo, faltarão 600.000 toneladas de feijão”, diz Marcelo Luders, analista de mercado. Segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Econômicos (Dieese), em um ano foram registrados aumentos significativos no preço do feijão em todas as capitais brasileiras. Em Belém foi registrada a maior alta, de 121%, entre abril de 2011 e abril de 2012; Recife registrou aumento de 70,67% no período; João Pessoa 69,78%; e São Paulo 67,21%. “Como não existe previsão de novas entradas de feijão no mercado, a tendência é que os preços permaneçam em alta nos próximos meses”, diz Luders.

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Jesse Ricardo é um dos cotistas da beneficiadora de feijão de Castro (PR), que movimentará 15.000 toneladas ao ano

Para os consumidores, os preços estão mais altos, mas, para os produtores, as cotações estão em patamares excelentes. Nos primeiros meses deste ano, as cotações oscilaram entre R$ 240 e R$ 270 por saca, valor bastante superior à faixa de R$ 80 a R$ 100 praticada em igual período do ano passado. “No segundo semestre, os preços devem se situar entre R$ 150 e R$ 200”, avalia Luders.
Para o próximo, a situação é incerta. “Com os preços do milho e da soja valorizados, os produtores podem preferir esses grãos em detrimento do feijão”, diz Luders. Por outro lado, alguns agricultores que começaram a comprar insumos e sementes para o plantio do ano que vem estão verificando preços muito superiores aos praticados no ano passado, o que pode refletir aumento de demanda e intenção de plantio maior na próxima safra.

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O agricultor João Fernando Taques, que plantou 800 hectares este ano em Castro (PR), deve repetir a mesma área em 2013. “Já sabemos que os custos serão maiores, pois somente o fertilizante subiu 30% nos últimos dois meses”, diz Taques. Nesta safra, a produtividade das lavouras foi prejudicada pelo clima e deve oscilar entre 2.200 e 2.300 quilos por hectare, em comparação com a produtividade média de 3.000 quilos do ano passado, quando o agricultor cultivou 930 hectares. Já os preços estão melhores. No primeiro semestre de 2011, Taques recebeu uma média de R$ 80 por saca. “Neste ano, a cotação começou em R$ 100 e chegou a R$ 240. Os preços caíram um pouco com o escoamento da produção da primeira safra, mas voltaram a subir”, conta. Para o agricultor Jesse Ricardo Gomes Prestes, também de Castro (PR), as cotações acima de R$ 80 por saca são remuneradoras. Ele, que plantou parte da área em novembro e parte em janeiro, conseguiu aproveitar a alta das cotações. “Neste ano, tivemos uma queda na produtividade por conta da incidência de doenças e das chuvas em janeiro, que prejudicaram a colheita, mas parte das perdas pôde ser recuperada pelos bons preços pagos ao produtor”, diz Prestes. O futuro, no entanto, ainda é incerto. “Se o preço da soja cair, os produtores plantarão mais feijão, que está com preço bom”, diz o produtor João Galvão, que plantou 120 hectares neste ano.
O produto ainda tem lugar à mesa, mas o consumo per capita caiu de 21 quilos ao ano, em 2006, para 17 quilos em 2011. “Ainda assim, com o aumento vegetativo da população, o consumo permanece estável em cerca de 4 milhões de toneladas por ano”, avalia Luders. A fim de padronizar a oferta do feijão produzido em Castro, a cooperativa Castrolanda investiu R$ 13,6 milhões na construção de uma usina de beneficiamento do grão, que vai receber, secar, armazenar, beneficiar e empacotar a produção da região. A nova unidade, prevista para começar a operar em julho deste ano, terá capacidade para 15.000 toneladas já no primeiro ano. “Nossa ideia é agregar valor ao feijão”, diz Everson Orlando Lugarezi, gerente de negócios da Castrolanda. Já em 2013 a cooperativa planeja industrializar o feijão para vendê-lo cozido, pronto para consumo final.

Fonte: Globo Rural