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Fartura pode não compensar produção

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Apesar da boa safra, queda dos preços preocupa agricultores

Poucas vezes a expressão "efeito sanfona" – no sentido de alternância entre períodos de fartura e escassez – foi tão certeira para descrever a evolução recente da produção de milho no Brasil. Depois de um 2016 em que a safra nacional perdeu em torno de 18 milhões de toneladas, os produtores vivem um ano de recuperação, com a perspectiva de voltar aos patamares de 2015 – quando o País colheu 85 milhões de toneladas do grão. Entre os gaúchos, a expectativa de uma boa safra se confirma, mas com uma preocupação extra: a queda dos preços, em alguns casos reduzidos a praticamente metade do verificado no ano passado.

A oscilação dos valores é um efeito direto da quebra da safra nas lavouras do Centro-Oeste no inverno de 2016. A escassez do produto forçou a necessidade de importações para atender à demanda de rações para os produtores de aves, suínos e bovinos – e, naturalmente, elevou os preços do grão disponível no País. Agora, a situação se inverteu. "Em 2016, o Rio Grande do Sul importou 1,6 milhão de toneladas de milho. Este ano, ainda importou durante a colheita, os criadores tiveram de se garantir", destaca o presidente da Associação dos Produtores de Milho do Estado (Apromilho), Cláudio de Jesus.

Com a projeção de que as lavouras gaúchas resultem em cerca de 5,5 milhões de toneladas este ano, a tendência é de que os preços não aumentem muito. Se no segundo semestre de 2016 os produtores chegaram a vender sacas de 60 kg a R$ 45,00, agora, a média está próxima de R$ 22,00. "Se o preço continuar nesse patamar até agosto, a área plantada para a próxima safra poderá reduzir", alerta Jesus. Desde 2008, esse número vem diminuindo ano a ano. "Há 10 anos, a área ficava entre 1,5 milhão e 2 milhões de hectares, mas se produzia menos que hoje", compara o dirigente.

Esse crescimento na produtividade é um dos fatores que o presidente nacional da Associação Brasileira dos Produtores de Milho (Abramilho), Alysson Paolinelli, aponta como decisivos para que o País mantenha o desempenho no cenário internacional. "O mundo precisa de milho, o mercado está firme, e o único que pode atender à demanda permanentemente é o Brasil. Podemos produzir com custo menor, com tecnologia para buscar mais produtividade, e a qualidade do produto brasileiro se destaca", garante Paolinelli.

Setor busca estabilidade

Uma decisão já está tomada na propriedade do agricultor Ricardo Meneghetti, em Chiapetta: a próxima safra vai ter menos terreno para o milho. Na lavoura que acabou de ser colhida, foram cerca de 150 hectares de milho irrigado, com produtividade de 240 a 250 sacas por hectare. Números positivos que, no entanto, não se refletiram na comercialização. "Já se vendeu a R$ 45,00 ou até mesmo
R$ 52,00 a saca. Hoje, está entre R$ 20,00 e R$ 22,00. Do que estávamos prevendo para o milho em 2017, vamos reduzir 30% da área, justamente por esse preço não pagar a conta", justifica.

O produtor identifica ainda necessidade de comunicação mais estreita com criadores de aves e suínos. "É uma cadeia produtiva em que os elos não estão entrelaçados. Não conseguimos estabilidade, há dificuldade de sentar com a cadeia como um todo."

Fonte: Jornal do Comércio |  ARQUIVO PESSOAL/ARQUIVO PESSOAL/DIVULGAÇÃO/JC