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Falta de trigo argentino reduz abastecimento

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Com pior safra em 111 anos no país vizinho, estimativa é de que faltem 6 milhões de toneladas no mercado nacional

Rafael Vigna

A crise de abastecimento de trigo permanecerá pelo menos até o mês de novembro. No entanto, o cenário de escassez da commodity, que já determinou aumentos superiores a 20% no preço do pão francês e entre 10% e 25% no da farinha, tende a piorar com as notícias que chegam da Argentina. Isso porque o Brasil importa cerca de 4,5 milhões de toneladas anualmente do cereal do país vizinho, onde a quebra da colheita no período 2012-2013 foi confirmada como a maior dos últimos 111 anos.
As intempéries climáticas, aliadas à redução de área plantada, determinaram, além de uma redução de 14 milhões para 9,8 milhões de toneladas ao ano, que a presidente Cristina Kirchner decretasse uma barreira às exportações até dezembro.  Produtora de trigo por excelência, a Argentina ficou impossibilitada não só de abastecer a demanda brasileira do cereal mas também a doméstica. O fraco desempenho levou a uma severa crise no abastecimento doméstico, e o preço do produto tornou-se o mais alto do mundo, com o valor pago pela tonelada ultrapassando os US$ 520,00.
Na outra ponta da balança, cadeias setoriais que dependem do cereal projetam dias de dificuldades e não descartam novos repasses ao consumidor final brasileiro. Conforme explica o presidente do Sindicato das Indústrias de Panificação e Confeitaria e de Massas Alimentícias e Biscoitos do Rio Grande do Sul (Sindipan-RS), Arildo Bennech Oliveira, com a estimativa de colheita de 5,5 milhões de toneladas na região Sul (Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná) – três dos principais celeiros do País – a carência do produto será de 6 milhões de toneladas até o final do ano.
Entre as alternativas para conter a demanda, Paraguai e Uruguai não deverão ter capacidade para 1 milhão de toneladas. Além disso, o dirigente afirma que a criação de uma sobretaxa de 20% para as exportações paraguaias pode dificultar ainda mais o cenário. Entretanto, Oliveira destaca a ampliação do prazo de validade da Tarifa Externa Comum (TEC) de 31 de julho para 31 de agosto.
A medida, de acordo com o presidente do Sindicato das Indústrias de Trigo do Estado (Sinditrigo-RS), José Celestino Antoniazzi, colabora para a ampliação do comércio com os Estados Unidos, pois retira a tarifa de 10% incidente para as importações não oriundas de países membros do Mercosul e colabora para diluir a “expressiva” alta do dólar nos últimos três meses.
Os reflexos, comenta Antoniazzi, também puderam ser sentidos nos leilões realizados pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) com o restante do cereal disponível na semana passada. No Estado, a tonelada foi comercializada a R$ 820,00 (cerca de R$ 50,00 a saca), e no Paraná, a R$ 920,00.
Conforme o presidente do Sinditrigo-RS, a partir de agora, todo o trigo que ingressar no Brasil deve ser oriundo dos Estados Unidos. O valor pago pela tonelada está em torno de US$ 400,00 e R$ 420,00 – já bastante acima dos US$ 280,00 pagos pelo produto da última safra argentina. 
“Até novembro o cenário vai permanecer, mas há uma perspectiva de elevação da área plantada na Argentina e uma colheita de 12 milhões de toneladas que só chegará ao Brasil em janeiro, se não houver outros componentes climáticos e políticos”, projeta Antoniazzi.

Fonte: Jornal do Comércio |