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Falta de chuvas aflige campos indianos

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Reuters / Reuters

O clima adverso poderá subtrair cerca de US$ 4,2 bilhões de renda do campo

O céu que se ergue sobre o povoado de Bardauli, Norte da Índia, está cinzento há dias, atormentando os agricultores ao sugerir as tão desejadas chuvas. Mas as nuvens escuras não servem de consolo para Choudhary Bedu Singh, um camponês de 50 anos cuja minguada safra de arroz já foi arruinada por um calor devastador. Singh, patriarca de uma família de dez pessoas, plantou quase 1 hectare de arroz no dia 10, bem depois que as chuvas de monções começam a refrescar as planícies da região. Mas seus campos praticamente não receberam uma gota d’água.

Na tentativa de salvar sua lavoura, Singh gastou cerca de mil rúpias (cerca de US$ 18) por dia com diesel, para abastecer as máquinas que bombeiam água para seus campos. Mas a água sai quente do equipamento e evapora facilmente. "Se não chover nos próximos dias, o arroz vai secar completamente", diz o lavrador.

Sua desolação encontra eco em toda a Índia junto a milhões de produtores rurais, acompanhados pelo governo e por executivos de empresas. Todos lamentam a precariedade das chuvas de monções deste ano como mais um golpe sobre uma economia já desgastada pela desaceleração do crescimento e pelas altas taxas de inflação. "O momento em que isso ocorre é ruim", diz a economista Sonal Varma, da Nomura, especializada na Índia. "Os problemas da safra vão pressionar todos os indicadores macroeconômicos", avalia.

Anand Shanbagh, diretor de pesquisa da Avendus Securities, disse que a escassez das chuvas poderá subtrair 240 bilhões de rúpias (cerca de US$ 4,2 bilhões) da renda do campo. O Citibank estima que o fraco regime de monções ceifará de 50 a 80 pontos-base do crescimento total do Produto Interno bruto (PIB) da Índia, que caiu para 6,5% no último ano fiscal, uma baixa recorde dos últimos nove anos. A participação da agricultura no PIB caiu dos 28% alcançados em 1991 para cerca de 15%. Mas, com 50% da população economicamente ativa do país dependendo da atividade rural como principal fonte de renda, as chuvas de monções afetam em cheio as famílias da zona rural.

"As consequências das chuvas insatisfatórias de monções ainda não se revelou, mas haverá um grande impacto negativo sobre o consumo rural, que passará a atingir as áreas urbanas também", disse Sunil Munjal, diretor administrativo da Hero Motocorp, a maior fabricante indiana de veículos de duas rodas em termos de vendas.

Neste ano, o volume total de chuvas de monções incidente sobre a Índia ficou cerca de 22% abaixo das médias de longo prazo. Muitas áreas agrícolas significativas, como os Estados de Punjab e de Maharashtra, receberam escassos 30% a 40% do volume normal de precipitações, devastando campos lucrativos cultivados com produtos comerciais, como algodão e cana-de-açúcar.

Em áreas dotadas de canais ou poços artesianos, os agricultores com condições financeiras estão usando bombas a diesel para tentar salvar seus campos. Em outras regiões, a área plantada caiu cerca de 7,7 milhões de hectares em relação a 2011.

Não são apenas os agricultores que sentirão o baque. Apesar das recentes supersafras, a economia indiana assiste a uma crônica inflação de mais de 10% dos preços dos alimentos, estimulada pelo crescimento da demanda interna por alimentos mais nutritivos e pela incapacidade dos produtores rurais de dar conta dessa procura. A precariedade das chuvas de monções vai reforçar a pressão inflacionária, apertando o orçamento das famílias urbanas.

O governo enfrentará, também, um dos maiores desafios do país: a redução do déficit público, que alcançou 5,9% do PIB no ano financeiro encerrado em março de 2012, pela retração dos subsídios ao diesel. Qualquer aumento significativo dos preços do diesel levantaria protestos entre os agricultores. Os analistas dizem que Nova Déli pode também ser obrigada a implementar onerosas medidas de combate aos efeitos da seca em várias áreas, o que aumentará a sobrecarga orçamentária. (Colaboraram Jyotsna Singh e Kanupriya Kapoor).

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Fonte: Valor | Por Amy Kazmin | Financial Times