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Falta de armazém deixa milho ao relento em MT

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Vitor Salgado/Valor / Vitor Salgado/Valor
Binsfeld, da Fiagril: tradings não conseguem dar vazão ao volume recebido

A colheita de mais uma safra recorde e a escassez de armazéns obrigam produtores e tradings a estocar milho a céu aberto e em silos de lona em Mato Grosso. O cenário é agravado pela queda nos preços e pelos elevados custos com transporte, que inviabilizam as exportações.

O presidente da trading Fiagril, Jaime Binsfeld, estima que até 20% da nova safra pode ficar algum período fora de abrigos adequados. O problema é mais grave nos municípios de Sinop e Sorriso, no norte do Estado. "Há uma dificuldade em dar vazão a todo esse milho. Nosso volume diário de embarque hoje é inferior a 15% do de recebimento".

Os agricultores colheram cerca de 40% da safra até o momento. O Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) estima a produção local em 17,3 milhões de toneladas, 11,5% maior do que a de 2012. Para a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a colheita pode chegar a 18,6 milhões de toneladas, um aumento de 23,8%.

Em Sinop, onde os produtores colheram menos da metade da safra, os armazéns já suspenderam o recebimento, diz o presidente do Sindicato Rural do município, Leonildo Bares. "Quem conseguiu armazém, está pagando muito mais caro". Bares, que está concluindo uma colheita estimada em 50 mil sacas (cerca de 3 mil toneladas), conta que vai pagar R$ 2 por saca a um armazém da região. O valor corresponde a quase 20% do preço pago ao produtor pelo milho. "Em tempos normais, esse custo não passa de 3%".

O agricultor afirma que muitos colegas recorreram aos silos de lona e outros tantos resolveram deixar o grão exposto ao tempo. "Não chove em Mato Grosso nesta época, então o risco de perda é pequeno".

Esta é a segunda supersafra consecutiva de milho em Mato Grosso. No ano passado, os produtores não tiveram problemas mais sérios com armazenagem porque havia uma forte demanda tanto no mercado interno quanto no externo pelo grão da região – resultado de colheitas desastrosas na região Sul e nos Estados Unidos, castigados pela seca.

Em 2013, o cenário mudou radicalmente. A produção se recuperou no Sul e, ao que tudo indica, os americanos podem colher a maior safra de sua história entre agosto e outubro. Diante dessa perspectiva, os preços internacionais da commodity já caíram mais de 27% desde o começo do ano, e os compradores parecem não mais dispostos a pagar o que for preciso para retirar o milho de Mato Grosso, a mais de 2 mil quilômetros dos portos.

"A falta de armazéns preocupa porque os produtores se veem obrigados a vender por um preço inferior ao custo", avalia Angelo Ozelame, analista de grãos do Imea. Na última semana, o preço médio pago ao produtor no Estado caiu a R$ 11,51 por saca. Há um ano, era negociado acima de R$ 16.

O valor praticado não cobre os custos. De acordo com o Imea, os produtores do Estado gastaram, em média, R$ 1,5 mil para plantar a nova safra (conta que exclui itens como o custo da terra e a depreciação dos equipamentos). Um produtor que colher 96 sacas por hectare (o rendimento médio estimado pelo Imea para o Estado) terá uma receita de R$ 1,1 mil aos preços vigentes.

Diante desse cenário, a comercialização está retraída. De acordo com o Imea, os agricultores venderam apenas 43% da produção até o momento. Há um ano, esse índice estava em quase 65%.

Para tentar mudar a situação, o governo interveio. Ontem, a Conab leiloou subsídios (no valor total de R$ 56 milhões) para transportar 936 mil toneladas de milho de Mato Grosso para Estados do Norte e Nordeste, que sofrem com a escassez de oferta. Além disso, o governo já leiloou contratos de opção de venda (que garantem ao produtor o preço de R$ 13,02 por saca) para um volume total de 1,7 milhão de toneladas do grão. Na sexta-feira, serão ofertados contratos suficientes para adquirir outras 500 mil toneladas.

Binsfeld afirma que a ajuda do governo dá sustentação aos preços, mas não deve resolver o problema de armazenagem. "Os contratos serão exercidos ao longo dos próximos meses, e nada garante que esse volume será efetivamente escoado antes da colheita da soja", diz.

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Fonte: Valor | Por Gerson Freitas Jr. | De São Paulo