Exportação salva margens de Marfrig e Minerva

A conjuntura adversa que influenciou o fechamento de mais de 40 frigoríficos de carne bovina no país no primeiro semestre, resultado da combinação entre fraca demanda no Brasil e no exterior e custos elevados na compra de animais, teve impactos diferentes nas três maiores companhias do segmento. Enquanto a líder JBS amargou redução nas vendas e viu a margem de sua divisão Mercosul recuar ao menor patamar desde 2009, a Marfrig e a Minerva conseguiram ampliar os volumes exportados e, assim, preservaram suas margens.

Na medida em que as turbulências na economia brasileira alteraram o comportamento do consumidor, que vem se afastando da carne bovina em direção a proteínas mais baratas, Marfrig e Minerva decidiram reforçar as exportações, e ganharam rentabilidade em virtude da valorização do dólar em relação ao real.

Como, em geral, houve uma queda significativa do volume exportado pelo país – de 10,4% no segundo trimestre e 14% no primeiro semestre -, a estratégia só deu resultado porque as duas empresas ganharam participação nas exportações, sobretudo dos frigoríficos de médio porte, mais afetados pelo ambiente de crédito escasso. No intervalo de um ano, a Minerva elevou sua fatia nas exportações brasileiras de carne bovina in natura de 15,1% para 24,4%, conforme balanço do segundo trimestre. Já a Marfrig aumentou sua fatia no bolo de 19% para 21,6%.

Com a incorporação de frigoríficos adquiridos no Brasil – ativos que pertenciam à BRF e à massa falida do Kaiowa -, a Minerva obteve os avanços mais expressivos: suas exportações de carne bovina in natura a partir do Brasil aumentaram 21,6%, para 63,1 mil toneladas. Segundo o diretor financeiro da Minerva, Edison Ticle, os países do Sudeste Asiático foram os principais responsáveis pelo salto.

No caso da Marfrig, que fechou cinco frigoríficos neste ano para se ajustar ao volume de bois disponível e reduzir o nível de ociosidade, as exportações de carne bovina in natura a partir do Brasil tiveram uma ligeira alta de 0,3%. Ao Valor, o vice-presidente de planejamento e relações com investidores da empresa, Marcelo Di Lorenzo, destacou nesse resultado o papel do Oriente Médio, que ajudou a empresa a ganhar espaço nos embarques. Mas o grande avanço das vendas externas da Marfrig se deu no segmento de carnes processada, que subiram 77,8% no segundo trimestre, puxadas pelos EUA. Com isso, as exportações da empresa a partir do Brasil cresceram 6,9%.

Fruto dessa estratégia de ampliar as exportações, que também conta com a contribuição das operações de bovinos de outros países da América do Sul, a Minerva Foods conseguiu manter praticamente estável o patamar de sua margem Ebitda no segundo trimestre – 9,7%, ante 9,9% um ano antes. No caso da Marfrig Beef, divisão de carne bovina da Marfrig na América do Sul, a margem Ebitda ajustada chegou a 9,7%, alta de 1,6 ponto percentual na comparação.

Em contrapartida, o movimento visto na divisão de carne bovina da JBS na América do Sul, a JBS Mercosul, foi na direção contrária, e a margem Ebitda caiu de 10,1% segundo trimestre de 2014 para 5,2% no mesmo intervalo deste ano, o pior nível desde o terceiro trimestre de 2009. Recentemente, o presidente global da JBS, Wesley Batista, atribuiu o pior desempenho à retração das exportações. Comparada às concorrentes, a JBS, que lidera os embarques nacionais de carne bovina, era mais exposta a países como a Venezuela, cuja demanda por carne despencou em consequência da crise econômica.

"Claramente, a margem teve uma compressão. O maior impacto que tivemos veio das exportações", afirmou Batista em teleconferência com analistas para comentar o resultado do segundo trimestre. Na ocasião, o executivo lembrou que, ainda assim, a JBS Mercosul responde por cerca de 45% das exportações de carne bovina in natura do Brasil.

De fato, as exportações totais da JBS Mercosul tiveram grande retração no segundo trimestre – 22,8% na comparação anual, para 222,6 mil toneladas. Esses dados também contemplem as operações de carne bovina e produtos derivados da divisão na Argentina, Uruguai e Paraguai, mas o Brasil é o principal responsável pela queda, já que representa cerca de 80% da JBS Mercosul.

Mas, entre analistas, a avaliação é que a maior dependência da JBS Mercosul ao mercado brasileiro foi crucial para a piora. Quase 70% da produção total da divisão é vendida nos mercados domésticos em que ela atua, e o brasileiro é o mais relevante. Não à toa, a JBS Mercosul, que é quase três vezes maior do que Minerva Foods e Marfrig Beef, aposta tantas fichas no marketing da carne bovina, com a marca Friboi.

"Acho que a JBS Mercosul se focou mais no mercado interno, e manteve a mesma estratégia. Mas vai acabar se ajustando, porque o mercado interno está bastante fraco", disse Catarina Pedrosa, do BESI Brasil. Mas ela observa que, de modo geral, a diversificação da JBS, que tem negócios de frango e processados com bons níveis de margens (Pilgrim’s Pride e JBS Foods) mais do que compensa as dificuldades na área de carne bovina no Mercosul.

No segundo trimestre, o volume total vendido pela JBS Mercosul caiu 3,6%, para 504,1 mil toneladas. Considerando apenas carne bovina in natura, o volume recuou 1,3%, para 314,2 mil toneladas. No período, apenas as vendas de carne bovina industrializada cresceram no mercado doméstico – 7%. O item, porém, representa apenas 14% do total.

De acordo com outro analista, o maior peso do mercado brasileiro acaba tornando a JBS Mercosul mais dependente das redes varejistas, que rendem margens mais acanhadas. É dessas redes, aliás, que Marfrig e Minerva tentam escapar, seja via exportações ou nos segmentos do pequeno varejo e do food service no Brasil.

Na Marfrig Beef, as vendas na área de food service cresceram 6% no segundo trimestre em receita, para R$ 373 milhões. Com isso, a empresa aumentou de 32,1% para 35,4% a participação do food service nas vendas totais no Brasil. Na Minerva, cerca de 70% da produção total é exportada, e o restante é concentrado no pequeno varejo e food service.

Para os próximos trimestres, Marfrig e Minerva já sinalizaram ao menos estabilidade nas margens. Já a JBS Mercosul previu recuperação.

Por Luiz Henrique Mendes | De São Paulo

Fonte : Valor