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Exportação global de etanol continua em baixo patamar

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Ainda dominadas por Estados Unidos e Brasil, as exportações globais de etanol se consolidam cada vez mais como oportunidades isoladas de negócios. É verdade que os embarques até cresceram no ano passado, puxados por uma demanda adicional da Ásia, mas os volumes continuaram baixos e sem perspectivas concretas de avanço, em boa medida em virtude da queda das cotações do petróleo, que estão em um dos mais baixos níveis da história.

De acordo com cálculos da FCStone, foram comercializados 7,6 bilhões de litros de etanol no mercado internacional em 2015, 8,7% mais que no ano anterior. Na comparação com a média dos últimos cinco anos (7,4 bilhões), o crescimento foi de 2,7%. Vitor Andrioli, especialista da consultoria no segmento, afirma que esses volumes contemplam todos os tipos de etanol, e não somente os biocombustíveis – ainda que estes representem a maior parte do mercado.

De forma estruturada, somente Estados Unidos e Brasil têm mandatos formais de uso de etanol em suas matrizes de combustíveis. Por isso, o intercâmbio do produto entre os dois países continua a se destacar no comércio mundial. No ano passado, as exportações brasileiras somaram 1,9 bilhão de litros, e os EUA absorveram praticamente a metade desse volume. Aproximadamente 25% dos embarques foram destinados à Coreia do Sul, basicamente para uso industrial, ao passo que a China ficou com 6,5% do total e a Índia com 5%.

Já as exportações americanas atingiram 3,2 bilhões de litros em 2015, e 14% do volume foram destinados ao Brasil. No ranking dos principais destinos do etanol americano, o país perde só para o Canadá, cuja participação foi de 30%. Naquele país, em 2010 foi determinado um percentual mínimo de 5% de mistura de etanol na gasolina em nível federal, mas em algumas províncias a mistura chega a 8,5%. Para cumprir seus mandatos, o Canadá produziu cerca de 1,8 bilhão de litros e importou outros 1,4 bilhão em 2015.

Apesar de exportarem volumes menores que os EUA, as usinas brasileiras vêm recebendo mais pelo produto, em especial no próprio mercado americano. A razão é que o etanol de cana do Brasil é classificado como avançado pela Agência Ambiental Americana (EPA) por reduzir em mais de 60% a emissão de gases poluentes na comparação com a gasolina, e recebe um prêmio por isso. Na Califórnia, por exemplo, onde o etanol brasileiro é ainda mais valorizado por seus atributos ambientais, esse prêmio estava em US$ 117 por metro cúbico na última sexta-feira. Trata-se de um ágio de 27% sobre o valor de US$ 427 por metro cúbico pago pelo etanol convencional no mercado americano, conforme cálculo da consultoria Datagro.

Ainda que as perspectivas não indiquem que as exportações globais crescerão significativamente nos próximos anos, Andrioli destaca o aumento da demanda de países asiáticos pelo produto. E não só do Brasil. No caso dos EUA, as Filipinas ficaram com 9% do total embarcado no ano passado, e China e Coreia do Sul também foram destinos importantes – absorveram 8% e 7% dos embarques, respectivamente.

Mas, ainda assim, são poucos os sinais de que políticas nacionais melhor estruturadas serão adotadas por esses países. "A questão ambiental na China está preocupando mais, mas os mandatos de mistura de biocombustíveis na gasolina estão concentrados em regiões metropolitanas. Estima-se que as importações do país serão de 500 milhões de litros neste ano", diz Tarcilo Rodrigues, diretor da trading Bioagência.

A estagnação do comércio global foi um problema para os grandes países produtores no passado não muito distante. Depois de exportar 5 bilhões de litros em 2008, o Brasil, por exemplo, viu seus embarques caírem pela metade, o que deprimiu os preços no mercado doméstico nos anos seguintes, em consequência do excesso de oferta. Agora, com as expectativas ajustadas, a demanda interna está mais próxima da oferta e os movimentos internacionais voltaram a ser secundários.

Andrioli, da FCStone, acredita que em 2016 os volumes de exportação global de etanol poderão ser mais baixos que os do ano passado, mas próximos dos 7 bilhões de litros registrados em 2014. "A perspectiva de continuidade dos preços do petróleo em patamar historicamente baixo e o desaquecimento da demanda global, particularmente a chinesa, podem ter efeitos negativos sobre a demanda por importações de etanol".

Por Fabiana Batista | De São Paulo

Fonte : Valor