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Exportações do grão devem manter níveis de 2016

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Claudio Belli/Valor

Nelson Carvalhes, do Cecafé: embarques de café devem crescer a partir julho

Embora a produção esperada na safra 2017/18 de café no Brasil seja menor do que a anterior e haja expectativa de estoques baixos no país, a exportação do grão este ano deve ficar em patamar semelhante ao de 2016, estima Nelson Carvalhaes, presidente do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé).

No ano passado, o Brasil exportou um total de 34,2 milhões de sacas, considerando café verde arábica e conilon e cafés industrializados, como torrado e moído e solúvel. O volume foi 8,1% inferior ao de 2016.

No primeiro quadrimestre do ano, as exportações somaram 10,150 milhões de sacas, queda de 10,2%. Em abril, caíram 13,5%, para 2,126 milhões de sacas. Segundo Carvalhaes, a expectativa é de que os embarques em maio e junho "não sejam muito diferentes disso" diante da "entressafra justa". A partir de julho, diz, a exportação deve começar a crescer, com a entrada dos volumes no mercado da safra nova.

Para o conilon, Carvalhaes estima volumes semelhantes ou um pouco acima dos de 2016, quando as vendas externas alcançaram 580 mil sacas de grão verde, 86% abaixo de 2015. Em 2016, os embarques de café verde arábica subiram 1,2%, para 29,7 milhões de sacas.

Na visão do dirigente, o país deve enfrentar uma entressafra "dura" no ciclo 2017/18, entre os meses de abril e maio do próximo ano. Isso porque os estoques de café são baixos e a produção deve ser menor. "Não vai sobrar, mas não vai faltar", ponderou. Ele avalia que o atual cenário reflete o aumento das exportações de café nos últimos anos, o que foi "exaurindo estoques", e problemas climáticos que afetaram a produção.

Em face dos números estimados para a produção no Brasil e da expectativa de estoques baixos de café, Nathan Herszkowicz, diretor-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic) teme que algum segmento da cadeia nacional do café perca mercado este ano. "Algum segmento vai ter abastecimento menor do que o desejado".

Segundo ele, a expectativa é de um consumo de 22 milhões de sacas de café verde no mercado doméstico em 2017 – sendo 1,1 milhão de sacas destinadas à indústria de solúvel e a maior parte à de torrado e moído. Levando em conta uma exportação de solúvel equivalente a 3,8 milhões de sacas de café e uma produção de 45,5 milhões de sacas na safra 2017/18, "sobrariam" cerca de 19 milhões para exportação.

O próprio dirigente observa, porém, que esse raciocínio não considera os estoques de passagem privados de café no país, cujos dados levantados pela Conab – relativos a 31 de março de 2017 – ainda não são conhecidos. Para Herszkowicz, eles devem ser menores do que os do ciclo anterior, quando somavam 13,6 milhões de sacas na mesma data, uma vez que o país vem de uma safra abaixo do esperado por conta da quebra do conilon em 2016/17.

Aguinaldo José de Lima, diretor de relações institucionais da Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (Abics) está menos pessimista. Em sua avaliação, a oferta seria muito justa, considerando a estimativa da safra 2017/18, se a indústria de torrado e moído não tivesse mudado seus blends a partir do ano passado em decorrência da escassez de conilon no mercado.

Conforme Herszkowicz, a mudança persiste. Tradicionalmente, o setor de torrado e moído usava 45% a 50% de conilon em seus blends com arábica. Hoje, usa entre 10% e 15%.

A menor demanda da indústria de torrado e moído por conilon traz um certo alívio para o setor de solúvel, diz Lima. Ainda assim, ele afirma que é cedo para dizer se será possível manter os níveis de exportação de solúvel vistos em 2016. Até porque, agora, além da oferta de conilon há outra variável em jogo: o dólar, que disparou com a crise política.

Apostando que na safra 2017/18, a produção de conilon deva ficar entre 10 milhões e 11 milhões de sacas no país, Jorge Luiz Nicchio, presidente do Centro do Comércio de Café de Vitória (CCCV), acredita que mesmo que indústria de torrado e moído eleve o volume da espécie em seu blend de 15% para 25%, haverá café suficiente para atender à demanda.

Nicchio também não espera oscilações bruscas nos preços do conilon, e admite que o valor alcançado em meados de novembro de 2016, na casa dos R$ 550,00 por saca, foi um ponto fora da curva. Apesar da entressafra – a colheita do ciclo 2017/18 está apenas começando -, o preço do conilon tem caído e estava ontem em R$ 402,00, conforme o CCCV.

A menor demanda da indústria de torrado e moído é uma das razões para esse cenário. "O mercado não está abastecido, mas o preço [do conilon] caiu", observa Herszkowicz.

Por Alda do Amaral Rocha | De São Paulo

Fonte : Valor