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Exportações brasileiras já sentem o baque

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Uriel Punk/Futura Press/Folhapress

Dirigentes de entidades que representam exportadores brasileiros de carnes em entrevista ontem em São Paulo: impacto nas exportações preocupa setor

A Operação Carne Fraca, deflagrada na sexta-feira pela Polícia Federal, já começou a provocar estragos no comércio internacional. Enquanto aguardam pelas respostas do Ministério da Agricultura sobre a extensão das irregularidades que possam atingir alimentos exportados pelo Brasil, China, União Europeia, Chile e Coreia do Sul, que em conjunto gastaram quase US$ 4 bilhões ao longo do ano passado com a importação de carnes do país, suspenderam – total ou parcialmente – as compras dos produtos brasileiros.

Ainda que o setor privado seja cauteloso em estimar as perdas financeiras, as exportações no primeiro semestre devem ficar comprometidas, frustrando a expectativa de recuperação acalentada pelas indústrias de carne bovina e limitando a vantagem que os frigoríficos de carne de frango esperavam com o surto de gripe aviária que atinge mais de 50 países – entre eles, concorrentes como EUA.

Os prejuízos serão tanto maiores quanto mais demorado for o envio dos relatórios técnicos pelo Ministério da Agricultura. Ontem, o ministro Blairo Maggi disse pretender resolver a questão em três semanas. Nesse cenário, já seria quase um mês de embarques sob algum risco.

Os problemas não param por aí. Se ontem a lista de países que impuseram algum tipo de trava às carnes chegava a quatro, não há dúvida de que o número pode aumentar – em 2016, o Brasil exportou para mais de 150 países, obtendo uma receita de bilhões US$ 13,7 bilhões. Desde sexta-feira, diversos países já pediram esclarecimentos para o ministério.

Por ora, o país que mais preocupa é a China, devido à importância do país asiático para os frigoríficos brasileiros e, sobretudo, pelo caráter generalizado do veto temporário aos produtos brasileiros. Desde o domingo, os chineses interromperam a inspeção dos embarques de carnes que chegam aos portos. O Ministério da Agricultura informou que o país não liberará os embarques brasileiros por uma semana, mas há dúvidas no setor privado sobre o prazo.

Em entrevista na sede da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) ontem, em São Paulo, o vice-presidente de mercados da entidade, Ricardo Santin, estimou que, somente de carne de frango, 300 contêineres ou mais de 7 mil toneladas aportam semanalmente na China.

O país asiático é de suma importância para as três principais carnes, ocupando o posto de segundo principal destino das carne bovinas e de frango do Brasil, e de terceiro principal da carne suína. No ano passado, os chineses desembolsaram US$ 1,7 bilhão para importar carne do Brasil, segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) compilados pela ABPA e pela Associação das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec).

Na tarde de ontem, Blairo Maggi admitiu preocupação com a China e também com a União Europeia. Na visão do ministro, um embargo generalizado e permanente dos dois mercados seria um "desastre completo" não só para as divisas do país, mas também para a população brasileira. A cadeia produtiva das carnes gera 6 milhões de empregos, disse.

No caso dos europeus, que gastaram no ano passado US$ 1,6 bilhão com a compra de carne brasileira, os prejuízos, ao menos por enquanto, tendem a ser localizados, visto que a União Europeia só deixará de comprar de quatro unidades – um frigorífico de bovinos, dois de aves e uma planta de produção de mel – envolvidas nas investigações da Polícia Federal.

Na tarde de ontem, a União Europeia informou que pediu esclarecimentos adicionais ao Brasil sobre como o país vai assegurar que nenhum desses quatro estabelecimentos continue exportando à Europa. Ao mesmo tempo, Bruxelas anunciou que está acompanhando de muito perto, com os 28 países-membros, o problema no Brasil, e que pediu aos países-membros para aumentarem os controles sobre a carne proveniente do Brasil, tanto em termos de documentação como de testes físicos.

Em resposta, o Ministério da Agricultura informou ter suspendido as emissões de certificados para exportação das quatro unidades, que pertencem à BRF, JBS, JJZ Alimentos e Breyer (ver arte acima) Procurada pelo Valor, a JBS reconheceu o embargo europeu à unidade de Lapa, no Paraná. "A empresa reforça que a planta não foi interditada na operação e não foi constatada nenhuma irregularidade na qualidade dos produtos produzidos pela unidade". A planta da BRF, localizada em Mineiros (GO), foi interditada pelo Ministério da Agricultura sexta-feira.

Além do veto dos europeus, a BRF também será penalizada pela Coreia do Sul. O país asiático proibiu as compras de carnes da companhia, disse o ministro Blairo, em entrevista. Procurada pela reportagem, a BRF não respondeu sobre o bloqueio coreano até o fechamento desta edição. No ano passado, os coreanos gastaram quase US$ 170 milhões para importar a carne de frango do Brasil. O número da empresa em si não foi divulgado, mas a BRF é maior exportadora do país.

Ainda no que diz respeito à Coreia, também já houve aumento na fiscalização. De acordo com Santin, da ABPA, os coreanos, que até então inspecionavam 1% do produto brasileiro que chegava nos portos do país, passará a inspecionar 15%.

Na mesma linha, os EUA também decidiram aumentar os testes laboratoriais. Os testes deverão ser elevados em até 100% das importações, de acordo com fontes ligadas ao setor nos Estados Unidos. A tendência inicial é não haver descontinuidade nas importações no Brasil. Também não há informações até o momento sobre uma eventual retomada do embargo à carne brasileira. Os trâmites para o fim do embargo de carne "in natura" foram concluídos apenas no ano passado, quando foram realizadas as últimas inspeções de técnicos de um país sobre o outro e vice-versa.

Na América do Sul, o único país que impôs restrições aos produtos brasileiros foi o Chile, ao menos até agora. De acordo com a Embaixada do Chile no Brasil, o embargo temporários a todas as carnes brasileiras valerá até que Brasília envie as respostas técnicas. Depois disso, poderá ser flexibilizado. No ano passado, as vendas dos frigoríficos aos chilenos- especialmente de carne bovina – renderam US$ 412,1 milhões A expectativa é que, quando o governo brasileiro enviar as explicações, apenas os 21 estabelecimentos investigados na Operação Carne Fraca sigam proibidos de vender ao Chile.

Em reação à postura chilena, o ministro Blairo ameaçou retaliar o país sul-americano. "Nós somos grande importadores de produtos do Chile – peixes, frutas – e os produtores brasileiros vivem reclamando que deveríamos criar barreiras. O comércio é assim, não tem só bonzinho. Comércio é feito a cotovelada e se eu tiver que ter uma reação mais forte com o Chile eu terei", disparou. O ministro espera que o veto chileno fique circunscrito àquelas 21 plantas investigadas pela Polícia Federal.

Essa também é a esperança da Marfrig, que não foi citada na Operação Carne Fraca. Em nota, a empresa informou que Chile e a China, que suspenderam a carne sem distinção de envolvidos na investigação, representam 8,8% das vendas da operação de carne bovina no Brasil e 3% do faturamento total. (Colaboraram Alda do Amaral Rocha, Bettina Barros, Camila Souza Ramos, Daniel Rittner, Fernanda Pressinott e Fernado Lopes, de São Paulo e Brasília).

Por Luiz Henrique Mendes, Cristiano Zaia, Assis Moreira e Juliano Basile | De São Paulo, Brasília, Genebra e Washington

Fonte : Valor