.........

Ex-Mabella volta ao mercado com indústria de carne suína

.........

Segundo Mayr Bonassi, presidente da Adelle, expectativa é de que a empresa fature R$ 300 milhões no próximo ano
O administrador Mayr Bonassi, 65, faz questão de mostrar a tela pintada por sua esposa e fixada na parede de seu espartano escritório ao receber a reportagem. “É o que simboliza a minha vida”, afirma, apontando para a imagem de um balcão onde despontam três peças de salame especial.

Dono de uma longa trajetória dedicada à indústria de suínos, o empresário catarinense está de volta ao setor sete anos após vender o frigorífico Mabella à Marfrig e três anos após deixar o comando das operações de aves e suínos que a companhia tinha no Brasil.

Com ex-parceiros da antiga da Mabella, processadora de carne suína que hoje faz parte da JBS – a Marfrig vendeu os negócios de aves e suínos à concorrente em 2013 -, Bonassi inaugura na sexta-feira a Adelle Foods, marcando seu retorno à indústria de carne suína, agora no cargo de presidente do conselho de administração.

O projeto da Adelle Foods, que consumiu investimentos de R$ 160 milhões, começou a ser gestado no fim de 2014, assim que se encerrou o período de não competição estipulado no contrato de venda da Mabella. “Começamos uma planta ‘greenfield’ com tudo o que tem de melhor”, entusiasma-se Bonassi.

Sediada no município de Seberi, no norte gaúcho, a Adelle investiu R$ 130 milhões para erguer uma unidade industrial com abatedouro e área de processamento de suínos e outros R$ 30 milhões para fomentar a construção de granjas para os 130 suinocultores integrados. A maior parte dos investimentos foi feita com recursos próprios. A expectativa da Adelle é faturar R$ 300 milhões no próximo ano e, em 2018, R$ 600 milhões.

Em meio à forte concorrência de grandes como BRF, Aurora e JBS, Bonassi aposta em um modelo diferente para conquistar o varejo e os consumidores brasileiros: cortes frescos e porcionados de carne suína, produtos industrializados de nicho (salames apimentados, mortadela com pistache, entre outros), e uma linha de “especialidades” que contará com speck (pernil defumado típico da Alemanha) e pancetta (carne suína curada e seca).

“Como vamos sobreviver no meio dessa turma? Não vamos ser concorrentes. Queremos trabalhar com especialidades, produtos de baixo volume que os grandes não se dispõem a fazer”, explica Bonassi. Em contrapartida, vai concorrer com marcas tradicionais tais como Ceratti e Frigor Hans, sobretudo na área de produtos industrializados.

No segmento de carnes frescas, outra aposta de Bonassi, o diferencial da Adelle será o sistema de logística direta. “Em 24 horas, eu coloco um produto no Pão de Açúcar em São Paulo”, afirma, lembrando que, também nesse caso, o “gigantismo” dos maiores frigoríficos os impede de atuar de modo mais intenso nas vendas de carnes frescas. “Precisa ir direto da fábrica porque vence rápido”, diz o empresário.

Outro trunfo da Adelle está nas perspectivas de longo prazo para a concorrente carne bovina, proteína preferida dos brasileiros. Diante da tendência de o Brasil ampliar as exportações de carne bovina produzida para atender à crescente demanda de países como a China – o que deve significar preços relativos mais salgados no mercado brasileiro -, o empresário acredita que a carne suína pode ganhar espaço no varejo, desde que preparada em cortes porcionados.

“As carnes frescas porcionadas podem ocupar um pouco esse espaço do alto preço da carne bovina. O boi está caro, vai continuar caro e aparentemente pode ficar até mais caro”, afirma. De fato, o diferencial de preços entre a carcaça bovina e a suína corrobora a avaliação de Bonassi. De acordo com cálculos da consultoria Agrifatto, o quilo da carne suína está 50% mais barato do que a proteína concorrente, ante a média de 25% nos últimos dois anos.

Embora aposte no mercado interno, a Adelle não deixará o mercado externo de lado. Incentivada pelo dólar mais valorizado, a empresa quer obter 40% do faturamento nas exportações de carne suína. Ao contrário do mercado doméstico, nas exportações é inevitável concorrer com os grandes frigoríficos. No entanto, Bonassi pondera que, olhando o mercado total, as exportações da Adelle representarão muito pouco, o que minimiza qualquer impacto sobre a concorrência.

Tema caro à estratégia da Adelle, a concorrência não pautou apenas as decisões sobre a demanda. A escolha da localização do abatedouro e das granjas também se baseou no peso dos concorrentes. De acordo com Bonassi, não há qualquer concorrente em Seberi, o que auxiliou no processo de atração dos granjeiros integrados. O mesmo não aconteceria, diz, se a Adelle tivesse escolhido construir sua unidade em Santa Catarina, principal produtor de carne suína do país. “Não há muitos produtores disponíveis lá”, afirma o empresário.

No processo de escolha da fábrica, a Adelle também descartou Mato Grosso. Apesar de ter o milho mais barato do país – a saca é, em média, R$ 10 mais barata do que no Rio Grande do Sul -, o Estado não tem tradição na produção de suínos, e o clima mais quente tende a aumentar a mortalidade dos animais, explica ele. Afora isso, Seberi está mais próxima dos portos de Itajaí (SC) e de Rio Grande (RS).

O plano é ampliar a produção da Adelle gradualmente. Até o fim do ano, deve atingir a capacidade de abate em um turno, de 2 mil cabeças de suínos por dia. Com a ampliação do número de granjas, em 2018, deve dobrar o abate, em dois turnos. Bonassi espera que os produtos da marca Adelle, definida após consultoria publicitária, cheguem aos supermercados em julho.

Fonte: Valor | Por Luiz Henrique Mendes | De São Paulo