Etanolduto avança, apesar da crise das usinas

Projetado para ser a principal artéria a bombear o etanol produzido no Centro-Sul do país até os grandes centros consumidores do Sudeste e ao mercado externo, o etanolduto construído e operado pela Logum Logística ainda opera com 60% de ociosidade, três anos após ter sido inaugurado, e as tubulações construídas até agora representam menos de 30% do total previsto no projeto original. Ainda assim, a fotografia atual da Logum, reflexo da interrupção do "boom" do etanol no país e no exterior nos últimos anos, parece menos turva.

Neste ano, o volume transportado já foi consideravelmente maior. A Logum já movimentou o dobro do realizado nos 12 meses de 2014, e pretende seguir crescendo em 2016. De janeiro a novembro, foram 2,1 bilhões de litros e, até o fim de dezembro, o total anual deve chegar a 2,3 bilhões, conforme previsão da própria empresa. Em 2014, foram 1,014 bilhão de litros.

Como tem uma capacidade anual para cerca de 6 bilhões de litros, a ociosidade, apesar do avanço ainda ficará em 60%. A companhia não disponibilizou um porta-voz para falar sobre sua estratégia, mas sua expectativa é chegar a 3 bilhões de litros, o que reduziria mais um pouco essa ociosidade, agora para 50%.

A meta é considerada ambiciosa pelo mercado. As usinas das regiões de Ribeirão Preto, em São Paulo, e Uberaba, em Minas Gerais – por enquanto os dois únicos pontos de captação de etanol do duto -, produzem juntas menos de 3 bilhões de litros. A estimativa é que as 27 usinas instaladas no polo paulista, formada por 13 municípios, ofertam cerca de 2 bilhões de litros, enquanto as unidade do centro mineiro agregam entre 300 milhões e 400 milhões de litros. Todo o Centro-Sul do país deverá produzir no ciclo atual (2015/16) um pouco mais que 27 bilhões de litros.

Até agora, cerca de R$ 1,8 bilhão foram investidos para construir 352 quilômetros de dutos ligando a produção de etanol de Uberaba e Ribeirão Preto ao polo petroquímico de Paulínia, também em São Paulo (ver mapa) -, onde se concentram as principais distribuidoras de combustíveis do país.

O projeto original, adiado até que a produção de etanol no país volte a crescer, previa a construção de 1,3 mil quilômetros ao longo de 45 municípios nos Estados de São Paulo, Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso do Sul. Previa, ainda, a integração ao sistema hidroviário com utilização de barcaças na bacia Tietê-Paraná – cujas obras estão paralisadas.

Após os investimentos já feitos – com uso de recursos vindos de "empréstimos-ponte", uma vez que ainda não foi aprovado o financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) -, os sócios agora estão realizando aportes de capital para bancar a operação, que ainda não traz retorno suficiente. Em 2015, os acionistas aportaram R$ 120 milhões, divididos de forma proporcional de acordo com as respectivas participação. A Logum afirmou que não comenta assuntos relacionados a seus acionistas.

No bloco de controle da Logum estão a Copersucar, maior trading de etanol do mundo, a Raízen (joint venture entre Cosan e Shell), maior produtora de etanol e segunda maior distribuidora de combustíveis do país, a Odebrecht Transport e a Petrobras – cada uma com 20% de participação. A Camargo Corrêa, que chegou a negociar sua saída do negócio, permanece no capital com 10%. A Uniduto Logística é dona dos 10% restantes.

Ao Valor, fontes próximas à Logum afirmaram que a estratégia da empresa para crescer, apesar da crise do segmento de etanol no país, será ampliar a capilaridade da entrega do biocombustível, hoje restrita a Paulínia, Barueri (SP) e Duque de Caxias (RJ). O foco é fazer com que o etanol de Uberaba e Ribeirão Preto chegue às cidades de Guarulhos e São Caetano, na Grande São Paulo – o que depende, contudo, de uma reorganização dos fluxos dos dutos da Petrobras para essas regiões, atualmente ocupados com outras demandas.

Por Fabiana Batista | De São Paulo

Fonte : Valor