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“Estamos consumindo um planeta e meio”, diz Carlos Clemente Cerri

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Pesquisador do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena-USP)

por Sérgio de Oliveira

Editora Globo

“Hoje, cerca de 500 quilogramas de carbono por hectare são fixados no solo por meio de plantio direto”

Carlos Clemente Cerri é formado em agronomia pela Esalq, com mestrado e doutorado no Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo e pós-doutorado na Inglaterra e na França. Participou do grupo que elaborou o segundo relatório de mudanças climáticas do IPCC – órgão da Organização das Nações Unidas para o estudo das mudanças climáticas, agraciado com o Prêmio Nobel. Recentemente ganhou o Prêmio Frederico de Menezes Veiga, oferecido pela Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) em parceria com a GLOBO RURAL, pelo conjunto do trabalho desenvolvido no Cena-USP, em Piracicaba (SP), onde se dedica a programas de pós-graduação e pesquisa na área agronômica, avaliando como se pode atuar para reduzir as emissões de gases de efeito estufano campo.
Globo Rural >O que o senhor já constatou dos efeitos da agricultura sobre o aquecimento global?
Carlos Clemente Cerri>
Sabemos que o Brasil é um grande emissor de gases de efeito estufa. Emite, por ano, 2,2 bilhões de toneladas de CO2 equivalente. Praticamente 60% das emissões vêm do desmatamento para uso agropecuário. A ideia é que o Brasil o reduza em 80%. A segunda fonte de emissão – por volta de 18% a 20% do total – vem da queima de combustíveis fósseis. Ela só não é maior porque temos o etanol, que é adicionado à gasolina ou consumido puro nos carros, e o biodiesel, que é misturado ao diesel. A terceira fonte de emissão vem da pecuária, por meio de duas grandes vias: a erutação – produção de metano pelo rúmen do animal (e pelas fezes) – e a emissão de N2O – óxido nitroso –, um gás potente do aquecimento global, devido à urina do animal.
GR > Quais são as outras fontes de emissão importantes?
Cerri> Fertilizantes nitrogenados
. Já começam a surgir fertilizantes que têm baixa emissão de N2O, mas várias outras ações precisam ser feitas. Usar o fertilizante na medida certa e no local certo já é um avanço.
GR > Que contribuição a agricultura pode dar para reduzir as emissões?
Cerri>
Temos no Brasil entre 30 milhões e 40 milhões de hectares com plantio direto, de uma área agrícola total entre 60 milhões e 65 milhões de hectares. Ao não revolver a terra, evita-se a emissão de gases de efeito estufa do solo. Como a palha fica na superfície do solo, ela se decompõe lentamente e, ao invés de todo o carbono que está na palha ir para a atmosfera, uma parte entra no solo, o que chamamos de sequestro de carbono. Hoje, cerca de 500 quilogramas de carbono por hectare são fixados no solo por meio do plantio direto. Isso dá cerca de 17 milhões de toneladas de carbono que não vão para a atmosfera graças ao plantio direto todo ano. Evidentemente, é preciso descontar outras ações que ocorrem, como colocar fertilizante, a operação de tratores. Estamos trabalhando para quantificar melhor tudo isso.
GR > Qual é a perspectiva de avançar na redução de emissões?
Cerri>
Nos próximos dez anos, o Brasil terá de aumentar sua área agrícola entre 18 milhões e 20 milhões de hectares para suportar o aumento da produção de soja, milho, algodão, cana-de-açúcar e madeira para produzir papel e celulose. Não podemos fazer isso desmatando novas áreas. Precisamos das já abertas, preferencialmente de pastagens com baixo grau de produtividade. Vamos precisar de uns10% dos 190 milhões de hectares ocupados com pastagens para converter em área agrícola. Numa área menor, a pecuária tem de manter a produção, mas é preciso aumentar a produtividadedo rebanho em 20% a 30%. Então, numa área 10% menor, precisamos aumentar em 20% a produção de carne. Além da recuperação das pastagens degradadas, da melhoria genética, do confinamento, temos a integração lavoura-pecuária, uma prática bem-sucedida. Podemos produzir soja, milho e depois braquiária para alimentar o gado na entressafra de grãos, que coincide com o período da seca, ou do inverno. O gado aumenta de peso mesmo nessa época, e o tempo de abate também é reduzido. São todas ações conjugadas, um conjunto de tecnologias que está à disposição dos produtores e que torna a produção sustentável.
GR > Quais são os efeitos práticos de seu trabalho?
Cerri>
Vou dar um exemplo. A União Europeia só importa biodiesel de soja se o produtor promover uma redução de pelo menos 35% nas emissões em relação ao diesel convencional em todo o processo, desde a extração até o consumo no veículo. Nos cálculos que os europeus fizeram, eles rotularam nosso biodiesel de soja com 31% de redução. Não temos condição de exportar. Nossa função é retomar esses cálculos, refazer. Estamos identificando no campo as emissões devido a todas as práticas agrícolas. Em sucessão à soja vem o milho, e temos de considerar também as emissões do milho. Estamos mostrando que o valor que eles anunciaram não está correto. Nosso valor de emissão é significativamente menor e nos dá direito de exportar o biodiesel de soja para a União Europeia. Eles colocaram que a palha da colheita da soja emite muito gás, o óxido nitroso. Estamos desenvolvendo uma pesquisa para quantificar isso. E percebemos que essa emissão não é tão significativa como eles falam.
GR > São barreiras comerciais?
Cerri>
Sim. São comerciais baseadas em processos ambientais. São coisas que temos de resolver, como já aconteceu na pecuária. Nós vamos ao campo, instalamos equipamentos, coletamos esses gases, trazemos para o laboratório e analisamos com equipamentos precisos a fim de mensurar a emissão. No caso da soja, temos o aumento do estoque de carbono no solo. Temos de fazer isso para as várias culturas. No exterior, utilizam alguns valores arbitrários de emissão que quase que inviabilizam as exportações. Nós colocamos dados de campo reais e publicamos em revistas de alto impacto. Não podemos só fazer relatórios e guardar na gaveta. Quando forem fazer os cálculos, terão de utilizar os dados nacionais, que são significativamente menores que os da literatura. Nossa equipe quantifica e, em seguida, propomos mudanças de práticas para reduzir as emissões. Nossa pretensão é agregar valor ao produto, para que o produtor possa vendê-lo com uma margem de lucro melhor. É isso que a gente chama de economia verde.
GR > Qual é a sua expectativa em relação à Rio+20?
Cerri>
A ausência de alguns estadistas pode diminuir o brilho do evento, mas os documentos produzidos serão muito importantes. Mas não se pode esperar que as coisas mudem a partir da Rio+20 em um ou dois anos. É um processo. As negociações têm de acomodar os interesses de todos os países. Isso demora.
GR > Em que pé está o planeta?
Cerri>
Estamos consumindo o equivalente a um planeta e meio. Para termos uma situação sustentável, teríamos de ter um consumo 30% menor. Na África, o consumo utiliza 1,4 hectareglobal por pessoa e, nos Estados Unidos, utiliza 7,8 hectares globais. O Brasil utiliza 2,7 hectares, mas o consumo está crescendo. Precisamos produzir de forma diferente do que estamos produzindo e consumir de forma diferente. Isso não é fácil. Mexe com processos de empresas, questões culturais, mas não podemos entregar o mundo muito mais complicado para as futuras gerações do que aquele que pegamos. Esse é o tema maior da conferência Rio+20.

Fonte: Globo Rural