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Estados ‘agrícolas’ lideram buscas na internet

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A colheita recorde de grãos esperada para esta safra 2016/17 devolveu o ânimo às principais regiões produtoras brasileiras, indicando uma possível retomada do consumo apesar do cenário de instabilidade persistente na política e na economia do país.

levantamento realizado pelo Google para o Valor aponta um aumento mais expressivo nas buscas por produtos e serviços nos Estados com forte economia agrícola, no primeiro quadrimestre deste ano, em relação ao restante do país. O intervalo janeiro-abril é especialmente importante no calendário agrícola porque concentra a colheita e o pico da comercialização da soja produzida no Brasil.

Em Mato Grosso, o maior produtor e exportador nacional de grãos, as buscas no Google se destacaram em todos os itens clássicos de consumo que tendem a ser procurados quando as perspectivas são boas – móveis, fogões, lavadoras, televisores, geladeiras e celulares. Os setores automotivo e de turismo também registraram interesse maior dos mato-grossenses nos meses de safra que os dos brasileiros de Estados com baixa presença agrícola, assim como a busca por cartões, cotação de câmbio, seguro e previdência privada.

A situação não foi diferente em Mato Grosso do Sul, Goiás, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Minas Gerais. Dependendo do setor observado, as buscas nessas regiões chegam a ficar dez pontos percentuais acima da média Brasil, como nos pacotes de viagens. Tome-se como exemplo o setor de cruzeiros marítimos: enquanto a procura caiu 6% no país como um todo, entre janeiro e março, nos Estados agrícolas houve alta de 1%.

"As buscas servem como um termômetro das intenções do consumidor, antecipando comportamentos e gerando oportunidades de negócios para diversos setores e podendo, em alguns casos, até antecipar alguns movimentos de mercado", diz Carlos Calderon, gerente de Insights no Google Brasil.

Ainda que buscas não resultem necessariamente em compras, a sobreposição dos mapas da produção agrícola e dos cliques no Google dá uma dimensão mais ampla do impacto do agronegócio nas economias regionais, um movimento sentido nas ruas mas não devidamente mensurado nas estatísticas do setor. O reflexo do "dinheiro novo na praça" é mais comumente monitorado pelo caminho de volta que faz à propriedade rural, com reinvestimentos em máquinas agrícolas, insumos e tecnologias aplicadas às sementes.

O indicador mais abrangente de consumo é interessante também porque abarca a maior parcela da população rural: a que não é dona da terra, mas gravita em torno do seu desempenho. Dados do Cadastro Geral dos Empregados e Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho, mostram que o setor agropecuário teve no primeiro quadrimestre deste ano o melhor desempenho em contratações desde 2011, quando o Brasil vivia um "Pibão".

"O agronegócio não só se recuperou como está a passos largos em contratações, ficando apenas atrás do setor de ensino", diz Fábio Bentes, economista da Confederação Nacional do Comércio (CNC), citando que de janeiro a abril foram contratados 29,2 mil trabalhadores para o campo, contra 4,2 mil em 2016. "Enquanto o emprego no Brasil ficou parado, no agronegócio ele cresceu 1,9%. A última vez que se viu tanta contratação no setor foi em 2011 – 81,7 mil trabalhadores. É o emprego e a renda que dão lastro para o consumo".

"Vivemos uma situação diferenciada do resto do país. Quando as indústrias estavam fechando em São Paulo e no Rio Grande do Sul, a gente não sentia nada. Nossa moeda de troca é o grão – aqui compramos casa com soja", diz Marilene de Godoi, gerente-executiva da Associação Comercial e Empresarial de Sorriso, em Mato Grosso. O Estado deverá colher 30,5 milhões de toneladas do total de 113 milhões de toneladas de soja estimadas para este ciclo 2016/17 – ou 17,2% a mais que na safra passada.

No município paranaense de Campo Mourão, sede da Coamo, a maior cooperativa agrícola do país e segunda maior empregadora local depois da Prefeitura, a Associação Comercial mantém o otimismo. "O país está em crise, mas nós vamos manter as vendas", diz o presidente, Paulo César Gomes.

As coisas só não estão melhores, diz ele, porque o produtor ainda está segurando a soja na expectativa de preços melhores diante da oferta prevista para esta safra – 243,3 milhões de toneladas, ou 25,6% a mais que no ciclo anterior. Tamanha abundância pressiona os preços e rouba a margem de lucro do produtor rural, já às voltas com os custos mais altos de produção.

Na sexta-feira, o preço da saca da soja entregue em Paranaguá (PR) valia R$ 69,35. No mesmo dia de 2016, eram R$ 96,30. "Se o preço [da saca de soja] estivesse bom, o consumo seria maior", reclama Fernando Cunha, do Sindicato Rural de Tupanciretã, no Rio Grande do Sul. "Não vejo esse ânimo todo no comércio. Aqui, só estamos repondo aquilo que estraga", diz ele.

Mas há ainda outra diferença fundamental, segundo o economista e diretor de análise setorial da consultoria Tendências, Adriano Pitoli: o agronegócio tende a sentir mais tardiamente os impactos negativos da crise política. Isso ocorre, diz ele, porque setores importantes como soja e milho estão mais atrelados ao mercado externo. "Eles sentem muito mais o que ocorre na China [e na oferta e demanda global de commodities] do que os problemas na política nacional. É isso o que manda. De certa forma, são regiões mais blindadas ao Planalto Central", afirma.

Em 2015, quando a expectativa da consultoria era de que os tumultos brasileiros atingiriam mais fortemente as regiões Sul e Sudeste do país – sustentadas em boa parte por setores sensíveis à crise, como a construção civil e a indústria de bens de capital -, foram o PIB do Centro-Oeste e do Nordeste que mais decepcionaram. "O clima quebrou a safra e diminuiu a renda familiar", diz Pitoli. Agora, o movimento é contrário: a supersafra levou à expansão de 13,4% do PIB agropecuário no 1º trimestre. Para 2017, a Tendências ainda projeta uma alta do PIB do setor de 11,8% no Centro-Oeste e de 4,8% no Sul – mas as coisas podem mudar se os escândalos persistirem.

Marilene, de Sorriso, diz que o baque a quebra em 2015/16 influenciou mais a economia local, e só agora as vendas voltaram a ganhar ritmo. No levantamento do Google, a recuperação do varejo em Mato Grosso é nítida, mas ainda não atingiu os níveis de 2015.

"É normal, o consumidor se adapta em dias ruins, mas não deixa de viajar – escolhe um pacote mais curto, parcela em 12 vezes", diz o presidente do Grupo CVC, Luiz Eduardo Falco, que há dois anos foi a Sorriso inaugurar uma loja. Neste 1º trimestre, Mato Grosso, Goiás, Paraná e Rio Grande do Sul tiveram uma expansão média de 15% em vendas – o mesmo percentual de todo o ano passado.

Por Bettina Barros | De São Paulo

Fonte : Valor