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Estado perde a Foton para o Rio de Janeiro

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Sedai alega que executivo da montadora de caminhões havia garantido que a opção seria pelo Rio Grande do Sul

Patrícia Comunello

FOTON AUMARK/DIVULGAÇÃO/JC

Merluzzi, que negociava área em Guaíba, atribui perda à demora

Merluzzi, que negociava área em Guaíba, atribui perda à demora

E a história se repete. A área de Guaíba, franqueada a uma fábrica de automóveis da Ford no fim dos anos de 1990 e depois partilhada entre seis empreendimentos em 2010, que não saíram da intenção, não terá a montadora de caminhões da chinesa Beiq Foton Motor. A direção da empresa Foton Aumark, que fará o empreendimento com investimento inicial de R$ 250 milhões, geração de 400 empregos e produção de 21 mil unidades anuais, escolheu o Rio de Janeiro. A cidade não foi anunciada. Estão no páreo Itatiaia, Porto Real e Seropédica, polos emergentes de montadoras. O acerto foi na sexta-feira passada, na capital fluminense.
O governo estadual reagiu com surpresa, disse que teria tido a garantia da escolha de Guaíba três dias antes da decisão pelo Rio e atribuiu a derrota à resistência local em usar recursos públicos para bancar o projeto. O titular da Secretaria Estadual de Desenvolvimento e Promoção do Investimento (SDPI), Mauro Knijnik, alegou que a Aumark Foton entraria com “quase nenhum dinheiro”. Além de crédito de bancos públicos – Banrisul ou Badesul, repassadores de linhas do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (Bndes), os negociadores da empresa teriam solicitado que o Estado entrasse com parte do investimento. Knijnik também citou que o estado vencedor tem a moeda dos royalties do petróleo para atrair projetos. 
O vice-presidente corporativo da empresa, Orlando Merluzzi, informou que o grupo buscava financiamento, mas não detalhou o modelo, que incluía instituições financeiras. “O Rio Grande do Sul demorou bastante, não porque recuou, mas porque outros avançaram. Quando o cliente entra, tem de matar a venda”, ilustrou o interlocutor, com 30 anos de atuação na indústria automotiva. Merluzzi, que estava na linha de frente das tratativas, citou que “não existe benefício dado a uma montadora que depois não seja devolvido ao estado”. Entre as formas, está receita de impostos e desenvolvimento local, elencou. A pressa da empresa é justificada para se inscrever no programa federal Inovar-Auto, que prevê redução de alíquotas de importação a projetos nacionais.
O modelo de financiamento público de montadoras não é novo. Foi usado pelo governo Antônio Britto na atração da fábrica da General Motors, em 1997, para Gravataí, e a unidade que nunca se materializou em Guaíba, em 1998. Recentemente, a Justiça gaúcha condenou a Ford a devolver verbas públicas usadas nos primeiros estudos e instalação do projeto abortado, cujo valor atualizado chegaria a R$ 1 bilhão.
Knijnik revelou ontem que a cifra pedida pela Foton seria transferida pelo Estado por meio da aquisição de títulos privados de dívida (debêntures) emitidos pela empresa. Nesta modalidade, o adquirente é um investidor, que recebe de volta, no prazo acertado e com juros, o valor aplicado. A modalidade é de risco, pois não há garantia de retorno, tudo dependerá do desempenho do negócio.
“O que eles queriam misturava público com privado. Estávamos acertando. Na quarta-feira, o Luiz Carlos Mendonça de Barros (presidente da Aumark Foton) me ligou e disse que o assunto estava fechado, o Estado havido sido escolhido”, recordou o secretário, que preferiu colocar no papel a palavra antes de anunciar. “Só perde ou ganha quem está no jogo. Como disse uma vez Baltazar, jogador do Grêmio, ao perder um pênalti: ‘Quem sabe Deus nos reserva algo melhor’.” Knijnik promete que compensará a perda da unidade da Foton com outros projetos no setor e outros ramos industriais em negociação. 
O prefeito de Guaíba, Henrique Tavares (PTB), busca razões que impedem a ocupação da área às margens da BR-116, com atrativos logísticos imbatíveis, mesmo que a duplicação da Estrada do Conde seja incerta. “Fábrica como a da Foton não dá para deixar escapar”, resumiu Tavares. “Parece que há dificuldade no relacionamento do Estado e empresários”, especulou o prefeito. Desde sexta-feira, Tavares ouve justificativas, como desconhecimento dos bancos locais. “Sorte que temos a ampliação da CMPC Celulose Riograndense, de R$ 5 bilhões”, desabafou Tavares. O vice-presidente da Associação do Aço do Estado (AARS), Adelar Santarem, reagiu especulando “que deve ter algo amaldiçoado em Guaíba”. Para o industrial, o potencial da cadeia produtiva local ligada a montadoras e fornecedoras é “imenso”. Problema convencer quem é de fora que isso é suficiente.

Camaquã espera por empreendimentos de outra chinesa

Distante 100 quilômetros de Guaíba, Camaquã espera que nenhum mau agouro pela perda da unidade da Foton contamine a prometida instalação de outra chinesa do ramo de caminhões no Estado, a Shyian Yunlihong Motors, anunciada em 2012. O município acertou protocolo de intenção e já doou um terreno de 22 hectares localizado no distrito industrial para a Yunlihong Brasil (criada para tocar empreendimentos no País e que tem parte do capital social nas mãos de gaúchos da GBL Asia Business). Outra área, de 100 hectares, está sendo comprada por R$ 2,7 milhões e também será doada à montadora, às margens da BR-116. Nos contratos de repasse dos dois imóveis, a prefeitura garantiu que são definidas contrapartidas e devolução, caso os projetos não sejam executados. “A decisão de instalação é definitiva”, assegurou o sócio da GBL Asia e da Yunlihong Brasil, Lúcio Guazelli.  
Em um ano, o que era para ser uma planta de fabricação de caminhões, virou dois projetos. O segundo, que ocupará a área menor e deve ser instalado até dezembro, prevê montagem de chassi para micro-ônibus e implementos rodoviários para caminhões. O começo da obra depende de estudo do terreno, licenciamento ambiental e registro das peças chinesas no Brasil, esclareceu Guazelli. O complexo da montadora aguarda desenho do projeto final em gestação na sede do grupo na China. A intenção é implantá-lo até 2016.
Os valores de aportes podem mudar – o menor seria de US$ 100 milhões, gerando 50 empregos diretos, e o maior dependerá de tamanho da planta e ingresso de sistemistas vindos da China, acrescentou o sócio brasileiro. O investimento será bancado pelos chineses, que devem recorrer a financiamentos. “Até o fim do ano, teremos os modelos de chassis e implementos num showroom em Camaquã”, prometeu Guazelli. O executivo, que conheceu o grupo Shyian Yunlihong quando atuava como engenheiro em indústrias calçadistas na China, informou que o projeto começou a ser estudado em 2008.   
O secretário municipal de Desenvolvimento e Empreendedorismo de Camaquã, Claiton Duarte, disse que não fala em datas para evitar cobranças sobre eventuais adiamentos. Duarte não cogita qualquer obstáculo aos projetos. “Não trabalhamos em cima de prazo para não criar expectativa”, explicou o secretário. A negociação, que começou na gestão do prefeito Ernesto Molon (PMDB), que foi sucedido pelo ex-secretário da Agricultura do governo Yeda Crusius, João Carlos Machado (PP), mantém-se exclusivamente na esfera municipal.
A coordenadora executiva do setor automotivo e de implementos rodoviários da SDPI, Maria Paula Merlotti, diz que a pasta não acompanha diretamente o projeto. Houve rodadas na Sala do Investidor, em fim de 2011 e em 2012. Até agora não há inclusão nem programas de incentivos fiscais. O governo tenta viabilizar um terminal hidroviário em Tapes, com investimento privado, para escoar a produção.

Fonte: Jornal do Comércio