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Espaço aberto para o avanço global do café robusta

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Em "alta" no mercado global de café nos últimos anos, o tipo robusta, de menor qualidade e mais barato, tende a ganhar mais espaço nas xícaras nos próximos anos. Estudo realizado pela P&A Marketing Internacional a pedido do Conselho Nacional do Café (CNC) aponta que, em 2020, para cada saca de arábica consumida no mundo serão três sacas de robusta, apesar dos atuais baixos preços internacionais do produto de mais qualidade.

E o trabalho mostra também que, apesar da forte queda das cotações do arábica após os picos de 2011, a produção mundial desse tipo de café, carro-chefe do segmento no Brasil, não acusou um desestímulo expressivo, o que ajuda a compor um quadro de oferta e demanda com possibilidades restritas para recuperações continuadas de seus preços, tendo em vista o superávit previsto.

A depender de diferentes ritmos da evolução do consumo considerados pela P&A em seu estudo, esse superávit poderá oscilar, em 2020, de 11,6 milhões e 15,3 milhões de sacas. Nesta safra 2013/14, de bienalidade negativa, quando a produtividade é menor, a colheita brasileira de café, dominada pelo tipo arábica, deverá totalizar 47,54 milhões de sacas, 6,5% menos que em 2012/13, conforme levantamento divulgado ontem pela Conab. Trata-se do maior volume da história em uma safra de bienalidade negativa.

O horizonte traçado pela P&A considera que o consumo mundial de café (arábica e robusta) continuará a crescer pouco menos 1% ao ano em tradicionais países importadores da commodity, 3% em produtores como o Brasil e 6% em mercados emergentes – como entre 2009 e 2012, conforme realça Carlos Brando, sócio-diretor da P&A.

Para o Brasil, se confirmada a projeção de aumento de 3% ao ano do consumo total, a consultoria vê volumes adicionais semelhantes para os dois tipos de café em 2020. Seriam 2,75 milhões de sacas a mais para cada um. No mundo, porém, serão entre 3,9 milhões e 7,6 milhões de sacas a mais de arábica e entre 11,8 milhões a 22,6 milhões de sacas de robusta, considerando três diferentes cenários corroborados pela Organização Internacional do Café (OIC).

Ao mesmo tempo, projeta a P&A, o avanço da produção de arábica deverá chegar a 19,2 milhões de sacas em 2020, ante 22,1 milhões de sacas a mais de robusta. Assim, o superávit de arábica poderá chegar a 15,3 milhões de sacas em 2020, ao passo que a colheita de robusta tende a ser mais facilmente absorvida. Mesmo assim, o excedente da espécie poderá atingir 10,3 milhões de sacas.

Ainda segundo o estudo, o crescimento da produção mundial continuará concentrado em seis países: Brasil, Vietnã, Indonésia, Etiópia, Honduras e Peru, que representarão 75% da safra mundial em 2020. Os mesmos países registraram as maiores taxas de crescimento da produção nos últimos 12 anos. Como se vê, a produção total poderá aumentar mesmo com os atuais preços pouco convidativos em geral. Basta olhar o passado. Em nove dos últimos 12 anos, a média anual do preço composto da OIC ficou abaixo de US$ 1,18 por libra-peso, o valor de junho deste ano. Em agosto, o indicador caiu mais, para US$ 1,1645. E, no período, a produção global aumentou.

Mesmo em reais, os preços já estiveram abaixo dos atuais patamares, lembra Brando. Em seis dos últimos 12 anos as cotações domésticas ficaram abaixo da média de julho de 2013 (R$ 290 a R$ 300 a saca), por quatro anos ficaram mais de 20% acima da média e em outros três situaram-se em níveis até 20% superiores aos de julho passado, de acordo com a P&A.

Independentemente dos preços, Brando não acredita que a produção de arábica será afetada no Brasil, em parte por causa da falta de opções viáveis para os produtores, sobretudo aqueles com plantações em terrenos íngremes. O consultor também nota que os pequenos produtores que dominam a atividade no país olham menos para a variação de custos de produção e mais para seus gastos totais e não levam em conta, por exemplo, depreciação, mão de obra e aluguel da terra.

Guilherme Braga, diretor-geral do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (CeCafé), afirma, entretanto, que o atual nível de preços pode, sim, levar a uma certa contração da produção, principalmente em países que têm custos maiores que o Brasil. Segundo a P&A, contudo, muitos cafeicultores poderão tentar diluir custos com o aumento do rendimento de suas plantações. De 2000 a 2012, o rendimento médio subiu de 14 para 23 sacas por hectare, e a consultoria estima que poderá alcançar de 28 a 29 até 2020.

Para Brando, o mérito de seu estudo é justamente mostrar que a situação é complexa e que será preciso políticas elaboradas por parte do governo para nortear a atividade. "O governo vai comprar café ou fazer programa para tirar o produtor ineficiente da atividade?", questiona. Para ele, o produtor médio é o que perde mais na atividade e tem mais facilidade para diversificar. O grande é extremamente mecanizado e eficiente, enquanto o pequeno só enxerga seus desembolsos.

A solução é diferente para cada espécie de café. Para o arábica, Brando sugere que é preciso regras claras para a formação de estoques e a promoção do consumo em novos mercados e medida de apoio à mecanização da cafeicultura de montanha, que representa cerca de 70% da produção nacional desse tipo de café.

Para o robusta, o desafio do Brasil é se consolidar como exportador. Mas, para viabilizar esse aumento será preciso melhorar a qualidade do produto. Atualmente, as vendas brasileiras de robusta ao exterior são pífias, já que quase toda a produção é absorvida pelo mercado interno. Nesse contexto, as empresas de café solúvel que atuam no país ainda reclamam de falta de competitividade e lembram que há anos não aumentam significativamente sua produção. Em países como os da América Central, tradicionais produtores de arábica, o solúvel representa a maior parte do consumo local. Na Colômbia, mais da metade do café consumido é instantâneo.

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Fonte: Valor | Por Carine Ferreira | De São Paulo