Espaço aberto para inovações no campo

Time da BovControl, liderado por Danilo Leão (sentado, ao centro): empresa de pecuária de precisão ganha impulso no país e atrai investidor internacional
A maior fazenda digital de pecuária do mundo pertence a um brasileiro de 36 anos, mas tal como aquela "casa tão engraçada, que não tinha teto, não tinha nada", Danilo Leão não tem um hectare de terra, nenhuma cabeça de boi. Todo o seu patrimônio cabe no celular – e com ele Leão vem atraindo investimentos dentro e fora do país, como o do grupo Telefônica e de Hein Brand, ex-CEO da sul-africana Naspers, dona do site Buscapé.

Mariana Vasconcelos, 24 anos, só tem "a ponta da bota suja de barro" e já chamou a atenção do Google, da Nasa e da Coca-Cola pelos algoritmos de alta complexidade que desenvolveu para ajudar a tomada de decisão do produtor rural brasileiro. Já Alexandre Veiga se considera um "serial". Depois de meia dúzia de negócios criados e vendidos, lançou, aos 28 anos, uma plataforma digital que tem a pretensão de ser a "Amazon" do agronegócio. Fã do Uber e do AirBnB, ele acredita que o futuro do campo também passará pela economia compartilhada.

Em comum, os três enxergam no agronegócio oportunidades potenciais de negócio, sobretudo no Brasil. Ao contrário do senso comum, porém, seus ativos não são commodities. A tecnologia detrás da produção é que lhes interessa.

Esses jovens representam uma faceta nova do empreendedorismo brasileiro: o "Agtech", termo em inglês para designar tecnologias que digitalizam, conectam e automatizam a produção agropecuária, no sentido estrito da "internet das coisas". Mais que isso: é preciso ser disruptivo, ou seja, desenvolver produtos e serviços capazes de criar um novo mercado (e desestabilizar os concorrentes).

O movimento, recente, tem atraído de aportes "anjos" a fundos de venture capital, e injetado fôlego na busca de "rupturas". "Recebemos em média 20 propostas por semana do agronegócio", diz Gustavo Junqueira, da gestora Inseed Investimentos, de São Paulo.

Há quatro anos, Leão criou o BovControl, aplicativo que conecta o boi ao fazendeiro de um modo ainda novo no Brasil: mapeando animais por sensores e integrando as informações com a cadeia produtiva.

Nascido em Presidente Prudente, no interior paulista, Leão diz ter sentido na pele o tédio da gestão papel-e-lápis da fazenda de gado do pai. Ele não se conformava também com os métodos "primitivos" de rastreabilidade – a marcação a ferro do animal – e de cobertura da vaca. "Na maior parte do país, o peão ainda fica observando quando o touro indica que a vaca está no cio. Ele sente pelo olfato. Quanto tempo e dinheiro se perde?".

Grosso modo, o que o BovControl fez foi desenvolver um pacote de sensores capazes de medir diferentes aspectos da criação, conectar esse dados a outros da fazenda e cruzar as informações para elevar produtividade e segurança na atividade. É uma espécie de "pecuária de precisão", algo em geral mais atribuído à agricultura. Com o sistema, arrematou novos investidores e diz estar próximo do ponto de equilíbrio financeiro, com expansão exponencial de 3% por semana. "Temos a maior fazenda de pecuária do país. São 25 mil fazendas ativas, dez vezes mais que o Sisbov [serviço federal de rastreabilidade]".

Em novembro, Leão foi incluído na sessão "Most Creative People 2015" da "Fast Company", especializada em tecnologia. A explicação da revista: "Por saber quando as vacas voltam para casa e o que elas ficaram fazendo o dia inteiro".

De certa forma, o que esses jovens estão fazendo é revolucionar com tecnologias de fácil acesso e custo baixo. Há serviços de mapeamento já disponíveis a partir de R$ 19 ao mês, como o oferecido pela Agronow, que acaba de entrar no portfólio da SP Ventures, gestora do Fundo Inovação Paulista. O movimento também indica uma disposição em reverter décadas de trajetória migratória do campo para a cidade. Conectados, graduados em escolas renomadas, internacionalizados e afoitos por disrupturas, os empreenderes se tornam atores na nova economia agrícola que se apresenta.

"O agronegócio agora é sexy", brinca Mariana Vasconcelos, a mineira com "terra nas botas" que se juntou a três sócios para criar a AgroSmart, queridinha dos investidores. Filha de agricultor do sul de Minas Gerais, ela explica que pensou no negócio para libertar o pai das agruras diárias do campo. "Ele não deveria ter que ficar o tempo todo olhando tudo", diz.

Mariana Vasconcelos, da AgroSmart: Nasa, Google e Coca-Cola no currículo
A AgroSmart criou algoritmos complexos que fazem o trabalho duro: recomendam desde o momento de irrigação e disparam alertas de doenças. Ao contrário de concorrentes, combina sensores no chão e satélites no espaço, pluviômetros a sensores nas folhas. Recebeu prêmios da Nasa, do Google e da Coca-Cola, agora cliente.

"Eles estão fazendo para a agricultura tropical o que a Climate Corporation [da Monsanto] está fazendo para o Hemisfério Norte", diz Thiago Lobão, sócio da SP Ventures e investidor da AgroSmart.

No fim de semana, a BovControl promoverá a "Internet das vacas", o primeiro hackathon da pecuária do país, uma maratona de três dias movidos a pizza e energético durante a qual especialistas em TI da cadeia produtiva (frigoríficos, farmacêuticas, etc) unirão forças para solucionar desafios do setor. Um deles: a rastreabilidade das peças do desmonte do animal. Outro a ser jogado aos 100 inscritos: a criação de um sensor que capte padrões de ruminação – a solução pode indicar, por exemplo, se uma vaca está nervosa, o que interfere na produção de leite.

"Vemos o agronegócio como algo promissor. Não só devido ao tamanho dele no Brasil, mas também pela quantidade de problemas existentes", diz Renato Valente, diretor da Wayra, a aceleradora da Telefônica onde ocorrerá o evento. Embora tenha sido aberta há três anos no país para responder a desafios do setor de telecomunicações, com investimentos de R$ 5,8 milhões em 54 empresas, a Wayra diz que inovação disruptiva a interessa muito, sem importar o setor. A própria BovControl saiu de lá, com a Telefônica se tornando sócia minoritária. "Queremos estar próximos do que está acontecendo. E se for algo muito grande, queremos saber antes dos outros".

Pesquisas mostram que essas maratonas de tecnologia, já corriqueiras no exterior, ajudam a reduzir pela metade o tempo de criação de grandes empresas. Em troca, os empreendedores podem fechar negócios ao se conectar a potenciais investidores, além de usufruir do ambiente de co-criação.

Um levantamento inicial da Associação Brasileira de Startups aponta para mais de 100 empresas no país, com as "agtech" representando ainda pequena parcela. Considerando que a maioria não tem cinco anos de existência, é um número positivo, diz Alexandre Veiga, o empreendedor "serial", hoje no conselho da entidade.

A expansão de centros de apoio a startups demonstra o amadurecimento do empreendedorismo no Brasil. Além de mais discutido nas universidades, o número de incubadoras e aceleradoras tem se expandido. A concentração das iniciativas, no entanto, ainda é grande. Boa parte se dá no Sudeste do país. Segundo a Endeavor, que promove o fomento do empreendedorismo, a cidade de São Paulo ainda é a melhor para inovar, seja pelo tamanho do mercado ou pelo acesso a infraestrutura e capital.

No agronegócio, isso também espelha a concentração dos centros de conhecimento no eixo meridional do país – Piracicaba, Lavras e Viçosa – em contraponto à produção no Centro-Oeste. "O capital intelectual está lá, e o desafio é atrair as startups até nós", afirma Daniel Latorraca, superintendente do Imea, o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária.

Em dezembro, Mato Grosso realizou seu primeiro "startup weekend". Em um passo seguinte, o Imea reuniu no dia 3, em Cuiabá, investidores, empreendedores e agentes do governo no 1º Workshop AgTech da região. Latorraca diz que a intenção é lançar até setembro uma rede de empresas digitais na capital mato-grossense, ampliando o centro de gravidade tecnológico ao Estado.

Mariana, da Agrosmart, se tornou a primeira residente representando o setor no Google Campus em São Paulo, um espaço físico idealizado para estimular startups. Há seis deles no mundo. Segundo André Barrence, diretor do Google Campus São Paulo, cada local tende a seguir a vocação do país. Na Coreia do Sul, o foco das startups é voltado a games. Em Israel, a mapas e navegação. Aqui, afirma, o agronegócio pode surpreender.

"O agro é um setor tradicional, e também digitalmente alfabetizado. O produtor já trabalha com tecnologia. Mas a troca geracional nas fazendas e nas empresas eleva a pressão por inovação", diz ele.

Por Bettina Barros | De São Paulo

Fonte : Valor