Escassez de chuva reduz produção de cebola no Vale do São Francisco

O pior dos mundos se desenha para os produtores de cebola do Vale do São Francisco: redução de área e produção e queda dos preços no mercado brasileiro. Responsável por boa parte do abastecimento do país no período de entressafra da região Sul, o vale sofre com chuvas escassas que há mais de três anos afetam, em menor ou maior escala, municípios que dependem do rio.

Segundo a Agência Nacional de Águas (ANA), os níveis dos reservatórios de Itaparica, Três Marias e Sobradinho (os maiores da região) deverão cair para 12%, 8% e 2%, respectivamente, até o fim deste mês. "Estamos entrando num período de chuva e já deveria estar chovendo mais. A perspectiva é que isso aconteça, mas é difícil dizer em qual intensidade", afirma Rodrigo Flecha, superintendente de regulação da ANA.

Marina Marongoni, pesquisadora do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq/USP), explica que a falta de água não causa tantos problemas durante a colheita, mas vem servindo para motivar a redução da área plantada conforme os produtores se adaptam à nova realidade, uma vez que dependem de irrigação. "O que tem de área plantada é o que eles acham que vão conseguir abastecer". Ela estima que tenha havido retração de 15% na área plantada na região este ano e prevê novos cortes em 2018, caso as condições climáticas não se revertam.

Na região de Casa Nova, na Bahia, apenas 30% da área original dedicada à cebola, avaliada em 1,5 mil hectares, foi plantada em 2017, segundo estima o produtor José Libório Pereira. Só na propriedade de Libório, a área caiu 50% em relação ao ano passado, para 30 hectares. "No começo da próxima safra, em fevereiro, só vou plantar se chover. Se a chuva não chegar, não planto", diz.

Nos últimos três anos, o Nordeste do país respondeu, em média, por 21% da produção nacional de cebolas, conforme o Instituto Brasileiro de Economia e Estatística (IBGE). Em 2016, o percentual atingiu 19,6%, o menor desde 2013. Foram colhidas no ano passado 219,5 mil toneladas, volume mais baixo desde 2001. Em área, a participação do Nordeste no total nacional diminuiu de 28,8%, em 2010, para 19,42% em 2016.

Apesar desse encolhimento da produção nordestina, a oferta brasileira ainda está acima da demanda, graças à produção do Sudeste. De acordo com Erick Farias, gerente de Modernização do Mercado Hortigranjeiro da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a oferta entre janeiro e setembro deste ano no país está próxima do nível observado em 2016, apesar dos problemas em Estados como Pernambuco e Bahia. "E as importações continuam baixas", diz. De janeiro a setembro, as importações foram 60% menores que no mesmo período do ano passado, segundo a Conab.

Nesse cenário, os preços do produto perderam sustentação no mercado doméstico, mas não é possível falar em crise. "Mesmo com essa situação, em algumas localidades a rentabilidade do produtor está acima do custo de produção, com ganho mesmo com preços mais baixos", ressalta Farias.

Os produtores nordestinos reconhecem o fato. A percepção dos que conseguiram plantar é que pelo menos foi um ano com temperaturas amenas o suficiente até para reduzir a necessidade de irrigação em meio à estiagem. "A queda da produção não está ligada à falta de água, mas à falta de chuvas, já que as regiões que não estão nas margens do rio não estão plantando", afirma Gilmar Freire Araújo, produtor em Belém do São Francisco, também na Bahia.

Segundo Flecha, da ANA, mesmo com o retorno das chuvas ao Vale do São Francisco, a agência deverá manter estratégias para garantir os níveis dos reservatórios – o que pode implicar manter ou ampliar a restrição à irrigação. "No período de chuvas, temos que estocar mais água. Em Sobradinho (BA), vamos continuar com uma defluência de 550 metros cúbicos por segundo [metade do normal] de tal forma que, depois das chuvas, tenhamos conseguido reservar algum volume". As medidas serão discutidas com as comunidades locais.

Fonte: Valor  | Por Cleyton Vailarino | De São Paulo