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Escala de abates da JBS tem forte queda

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A delação premiada dos irmãos Batista teve como uma das consequências a forte redução do ritmo de negócios entre a JBS e os fornecedores de boi gordo. Desde 17 de maio, quando o acordo com a Procuradoria-Geral da República (PGR) foi divulgado, os frigoríficos da empresa reduziram em 65% a escala de abates, informação que sinaliza a programação de sua produção futura.

Na prática, isso significa que a JBS passou a ter menos controle sobre o que vai abater ao longo da semana, o que prejudica sua produção de carne bovina. Ontem, a companhia anunciou que deu férias coletivas de 30 dias para os funcionários de sua unidade em Ponta Porã, em Mato Grosso do Sul. No mercado, a notícia foi recebida como consequência da estratégia de redução da escala.

Procurada pelo Valor, a JBS informou, porém, que a paralisação, temporária, já estava programada e não tem relação com a delação. Mas, por outro lado, reduzir as escalas confere maior flexibilidade financeira num momento em que a companhia tem que preservar caixa.

Segundo acompanhamento feito pela consultoria Agrifatto, a JBS atualmente está assegurando a compra de boi para o abate nos próximos dois ou três dias. Até a divulgação da delação premiada, as escalas de abate das unidades da companhia eram de cerca de cinco dias, em linha com o mercado.

O fato é que, enquanto os produtores estão receosos e evitam fazer negócios, a companhia busca adiar o prazo de pagamento, melhorando o seu fluxo de caixa. Daí porque, ao mesmo tempo em que a delação era anunciada, a companhia informou a seus fornecedores que passaria a adotar um prazo de pagamento de 30 dias pelo boi, e não mais faria negócios à vista.

Conforme Lygia Pimentel, diretora da Agrifatto, a decisão frustrou os pecuaristas, mas terá impacto substancial para o capital de giro. Ao forçar o prazo de 30 dias, a empresa "jogou para frente" o pagamento de R$ 1 bilhão, estimou a analista, citando os desembolsos mensais que a JBS tem com gado bovino.

Para a concorrência, a postura da JBS é positiva. Com o maior frigorífico do país em compasso de espera, os rivais ganharam força nas negociações com os pecuaristas e hoje conseguem garantir a aquisição dos bois que vão abater nos próximos sete dias.

"O mercado não consegue absorver o volume da JBS. A escala dos frigoríficos pequenos atolou", disse o analista César Castro Alves, da consultoria MB Agro. Segundo ele, até a crise deflagrada pela divulgação da delação premiada, a JBS, também por seu gigantismo, conseguia preços melhores na compra de boi. De acordo com um executivo do segmento, a JBS está pagando entre 2% e 3% a mais que os concorrentes pelo animais.

Nesse cenário, os preços do boi já registraram forte redução. De acordo com Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq/USP), o preço do boi gordo no Estado de São Paulo – referência para as cotações no país – caiu 4,6% em maio. Foi a maior queda no mês em quase 20 anos.

No médio prazo, a expectativa é que a situação se normalize. Conforme Alves, da MB Agro, a sazonalidade joga a favor da JBS. Ainda que as recentes chuvas tenham melhorado as condições das pastagens, o período seco está chegando. Com ele, a maior necessidade dos pecuaristas em vender boi. "Eles estão esperando a poeira abaixar. Estão jogando com essa variável, porque o volume de gado é grande", avaliou.

Assim, não faria sentido pagar mais caro agora por um volume de gado que ainda estará disponível nos próximos meses, acrescentou Alves, reforçando a ideia de que os concorrentes não "absorverão" toda a oferta que deverá sobrar.

Para se ter ideia da relevância da JBS para o mercado pecuário, basta dizer que, se a empresa reduzisse os abates em 65% permanentemente – mesmo patamar da redução de sua escala de abate -, cada frigorífico com fiscalização em âmbito federal teria uma disponibilidade 7,5% maior de bovinos ao longo de 2017.

Por Luiz Henrique Mendes | De São Paulo

Fonte : Valor