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Empresas de carnes se armam para retomada

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Tendo em vista os claros sinais de que o ápice da crise comercial provocada pela Operação Carne Fraca ficou para trás, as principais empresas de proteínas animais do país (JBS, BRF, Marfrig e Minerva) iniciam a semana focadas na retomada gradual do ritmo de exportações, mas ainda preocupadas em minimizar os estragos à imagem do segmento – e ao valor de suas ações – causadas pelas irregularidades divulgadas no dia 17 pela Polícia Federal.

Ainda que os problemas sanitários apontados pela PF tenham sido concentrados em empresas de menor porte do Paraná – Peccin, Souza Ramos e Transmeat foram obrigados a fazer o recall de seus produtos -, JBS e BRF, citadas da Carne Fraca por diálogos suspeitos entre funcionários e fiscais agropecuários, registraram fortes perdas em seus valores de mercado na semana passada, e a JBS está inclusive sendo processada por investidores nos EUA por isso.

A Minerva sequer foi citada, mas viu seus papéis derreterem por sua dependência das exportações de carne bovina, a mais afetada pelas barreiras dos importadores (ver Uma ‘nova onda de fiscalização’ começa a ganhar corpo). A Marfrig, que também passou ao largo das apurações da PF, chegou a amargar perdas, mas suas ações encerraram a semana em alta. Mas JBS, BRF e Minerva tiveram, juntas, queda de valor de mercado de R$ 5,4 bilhões, puxada por reduções de 6,9%, 9% e 9,3%, respectivamente.

Esses números não estarão sobre a mesa quando a JBS iniciar, hoje, sua tradicional reunião diária das 06h00. Na conferência com os líderes das dezenas de unidades produtivas da empresa – a maior em proteínas animais do mundo, com receita líquida de R$ 170 bilhões em 2016 -, o CEO Wesley Batista estará mais preocupado em ajustar o ritmo de produção de carne bovina, praticamente parada desde quinta-feira.

É quase certo que, com a volta de China, Chile e Egito às compras, a decisão de começar a semana com um corte de 35% na capacidade produtiva de suas 36 unidades de abate de bovinos espalhadas pelo país – 33 foram fechadas no dia 23 – seja revista, para alívio dos milhares de criadores de bovinos que ficaram sem mercado na semana passada. E que a estratégia de marketing ganhe mais munição, já que os "memes" continuam a pulular na internet.

Na BRF não será muito diferente no front operacional, para alegria dos integrados e dos produtores brasileiros de grãos. Na sexta-feira, a companhia anunciou a criação de três comitês para lidar com a crise. O ex-ministro Luiz Fernando Furlan, da família dos fundadores da Sadia – a BRF é resultado da incorporação da Sadia pela Perdigão – e membro do conselho da BRF, lidera o Comitê Especial de Resposta e estará na linha de frente de toda a estratégia.

E essa estratégia ganha importância tendo em vista as turbulências que sacodem a gestão da empresa nos últimos meses, maiores a cada resultado trimestral negativo reportado. Na sexta-feira, o conselho da BRF se reuniu para definir uma proposta que será apreciada na assembleia geral de acionistas de 26 de abril, que elegerá os membros do conselho para mais dois anos.

Como adiantou o Valor PRO, serviço de informações em tempo real do Valor, os principais acionistas da companhia – a gestora Tarpon e os fundos de pensão Previ e Petros, que tem quase 35% do capital da empresa – deixaram as rusgas de lado para que uma chapa única, com Abilio Diniz na presidência, seja aprovada.

A convergência acontece em um momento de reformulação após a empresa ter registrado, em 2016, seu primeiro prejuízo anual. Há mais de duas semanas, a BRF anunciou a saída do vice-presidente de finanças, Alexandre Borges, e do vice de marketing, Rodrigo Vieira. Mesmo a saída de Abilio Diniz da presidência do conselho foi ventilada, bem como a do CEO global Pedro Faria, que é fundador da Tarpon. Abilio, como se vê, está fortalecido, e Faria foi beneficiado pela união de forças. (Colaboraram Kauanna Navarro, Fernanda Pressinott e Bettina Barros)

Por Fernando Lopes, Luiz Henrique Mendes e Adriana Mattos | De São Paulo

Fonte: Valor