Empresa de colágeno da JBS busca avançar em países islâmicos

Claudio Belli/Valor

Após tratamento inicial em curtume, derme bovina é transformada em colágeno na NovaProm, explica Walter Lene

A engenheira de alimentos Melina Valim está prestes a quebrar um paradigma. Pela primeira vez, uma mulher vai sentar à mesa com empresários da Arábia Saudita, reino conhecido por práticas discriminatórias às mulheres, para negociar a venda de colágeno bovino ao país.

A viagem da executiva ao Oriente Médio faz parte de uma ofensiva da NovaProm, a companhia de colágeno da JBS, pelo mundo muçulmano. E, ao contrário do que se poderia supor, a empresa não faz – em larga escala – colágeno para suplementos nutricionais e cosméticos.

O principal filão da NovaProm é o segmento de alimentos industrializados a partir de carnes, negócio que movimenta cerca de US$ 350 milhões por ano no mundo. Em diversos países, o colágeno é usado na produção de itens como presunto, salame, linguiça, mortadela e hambúrguer.

Com pouco mais de 7% do mercado global de colágeno voltado a produtos cárneos – o equivalente a US$ 25 milhões, a NovaProm figura na sexta posição entre as maiores do segmento, que é dominado por empresas da Dinamarca.

A produção de colágeno é uma das muitas atividades desconhecidas que fazem parte da divisão de Novos Negócios da JBS, que inclui um rol de itens como biodiesel, latas, sabonetes, sacolas e fertilizantes. Em maior ou menor medida, são negócios que sofreram menos com a delação premiada dos irmãos Batista, embora não tenham ficado imunes ao corte de investimentos da JBS.

Na NovaProm, o colágeno é produzido a partir da derme bovina. Na JBS, uma parcela inferior a 10% da pele dos animais abatidos se transforma em colágeno. O restante é curtido em óxido de cromo para a produção de couro. Para fazer o colágeno usado nos alimentos, a derme bovina é tratada com água e ingredientes no curtume de São Luiz dos Montes Belos (GO). Após o tratamento, a derme chega à NovaProm, com aspecto de uma fronha branca, que enfim será processada como colágeno em pó ou em fibra.

Considerando apenas o colágeno produzido a partir da pele bovina, a NovaProm é a líder mundial, o que é um trunfo para a pretensão de abocanhar o Oriente Médio, disse ao Valor o diretor da empresa, Walter Lene, durante visita à sede da companhia em Guaiçara, a 470 quilômetros da capital paulista.

Diferentemente dos principais concorrentes, que produzem colágeno a partir da pele de suínos, a NovaProm pode acessar o mercado muçulmano porque utiliza pele de bovinos e tem certificado halal, que garante o cumprimento dos preceitos do islamismo na produção de alimentos. Um desses preceitos proíbe o consumo de carne suína e de seus derivados.

"Por que nós vamos para o Oriente Médio? Porque o grande concorrente nosso não pode estar lá", resumiu o diretor da NovaProm. A aposta de Lene é que o certificado halal abra as portas de países como Arábia Saudita, Líbano e Irã, que hoje praticamente não utilizam o colágeno na produção dos embutidos.

Aos poucos, a estratégia orientada para os mercados muçulmanos avança. "O Halwani já é um megacliente", afirmou o executivo, referindo-se à empresa de alimentos de origem árabe no Egito. De acordo com ele, a NovaProm facilitou a produção de luncheon – embutido de frango popular no mercado egípcio.

O luncheon é feito com amido de milho para baratear a produção, o que o tornava quebradiço. Com a inclusão de 2% de colágeno na formulação, porém, o problema foi contornado, disse Lene. Isso foi possível porque o colágeno contribui para a resistência e elasticidade dos tecidos.

Além do Egito, a NovaProm exporta o produto para Coreia do Sul, Peru, Filipinas, Chile e Rússia. Em processo final de habilitação para vender aos Estados Unidos, a empresa espera embarcar 30 toneladas ao país no primeiro trimestre, de acordo com Lene.

As exportações de colágeno são relevantes para a NovaProm. Hoje, representam cerca de 30% do faturamento da empresa, que deve fechar o ano com embarques de 1,5 mil toneladas. Para 2018, a projeção é exportar 2 mil toneladas.

A concentração dos esforços da NovaProm no mercado internacional se explica porque no Brasil a maior parte das vendas é feita à própria JBS. Segundo Lene, a Seara absorve em torno 40% do que é feito pela NovaProm, o que inclui a divisão de ingredientes – condimentos usados em itens processados – e o colágeno. Os 30% restantes são provenientes das vendas a empresas como Aurora, Marba e Alegra.

Apesar ser líder em colágeno para produtos cárneos no Brasil, a empresa se ressente da ausência de uma regulamentação para o uso do insumo, o que limita as opções em relação a outros países. Segundo o diretor da NovaProm, o colágeno não pode ser usado na produção de salames no Brasil, o que significa um tempo mais longo para a produção. Com colágeno, esse período pode ser reduzido entre 25% e 30%.

Além disso, em setembro, o Ministério da Agricultura proibiu o uso de colágeno na produção de linguiça frescal, como a toscana. De acordo com Lene, o colágeno retém a umidade natural da carne. Sem ele, a linguiça fica mais seca e perde suculência. "A questão regulatória é o que mais precisamos avançar", afirmou.

Os planos da NovaProm incluem ir além do colágeno para produtos cárneos. O objetivo – postergado com a decisão da JBS de segurar os investimentos após a delação dos controladores – é ter uma fatia relevante do mercado de colágeno hidrolisado (usado como suplemento nutricional), que movimenta US$ 3,7 bilhões ao ano. Para tanto, um projeto de investimento de R$ 25 milhões já foi desenhado. "Talvez para 2019", projetou Lene.

  • Por Luiz Henrique Mendes | De Guaiçara (SP)
  • Fonte : Valor