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Em defesa de uma nova ‘plataforma’

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Ana Paula Paiva/Valor

Roberto Rodrigues: "Precisamos eliminar um calcanhar-de-Aquiles, que é o nosso sistema de defesa agropecuária"

Num mundo em que vários países têm procurado sedimentar as bases de plataformas específicas para o fortalecimento de suas economias, é hora de o Brasil adotar estratégia semelhante e aproveitar melhor as vantagens comparativas e competitivas de seu agronegócio. Mas para caminhar nessa direção, valorizar o setor como seu principal alicerce e estabelecer uma plataforma de segurança alimentar de alcance global, o país ainda tem muitos desafios pela frente, sobretudo no que se refere à proteção da renda de agricultores e pecuaristas, especialmente os de pequeno porte, e à defesa sanitária da produção, novamente em xeque após a Operação Carne Fraca, deflagrada pela Polícia Federal em 17 de março.

É o que pensa Roberto Rodrigues, que, aos 75 anos, é a liderança do setor mais respeitada. Engenheiro agrônomo formado na Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz" (Esalq/USP), empresário, ex-presidente de entidades como Sociedade Rural Brasileira (SRB), Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB) e Aliança Cooperativa Internacional (ACI), ex-Secretário da Agricultura de São Paulo (entre 1993 e 1994) e ex-ministro da Agricultura (de 2003 a 2006), Rodrigues não perde o pique. E hoje como coordenador do Centro de Agronegócios da Fundação Getulio Vargas (FGV) e embaixador especial da FAO Agência para o Cooperativismo, mais uma vez renova suas propostas, que nas últimas décadas têm sido vitais para encurtar a distância entre o "Brasil urbano" e o "Brasil rural".

"O Brasil é um só, e precisa definir sua plataforma, como já o fizeram países que puseram o foco no setor industrial, no turismo ou nas exportações – caso da China. E essa plataforma é a segurança alimentar. É nessa frente que o país é capaz de acelerar a geração de riqueza, investimentos e empregos, com reflexos importantes tanto ‘antes da porteira’ como ‘depois da porteira’. Temos toda uma tecnologia tropical sustentável desenvolvida, em grande medida pela Embrapa, mas não podemos parar – e temos gente capaz de dar continuidade a esse trabalho. E temos toda uma indústria de transformação, por exemplo, que pode se beneficiar dessa estratégia. Há condições para que tenhamos garantia de abastecimento interno, com qualidade, preço e renda, e para ampliarmos nossa posição como player mundial relevante", observa.

Em defesa da renda dos produtores, Rodrigues continua a defender um modelo de seguro rural ‘digno desse nome’, mais amplo e menos dependente de recursos do orçamento federal – sempre sujeito a contingenciamentos -, e também em novos títulos do agronegócio para ampliar o volume de recursos privados à disposição. "Mas isso não depende apenas do governo. Para terem mais garantia de renda, os produtores, principalmente os de pequeno porte, que estão cada vez mais apertados, têm que ser organizar. E as cooperativas são o melhor caminho, como comprovam os grupos vencedores estabelecidos no Sul e em outras regiões do país", diz o ex-ministro.

O avanço do cooperativismo, afirma Roberto Rodrigues, faz parte de um processo educacional e cultural. "Me lembro da época da queda do Muro de Berlim, quando as cooperativas do Leste Europeu, que eram estatais, passaram a ser encaradas como agentes de corrupção. Países como Hungria e Polônia queriam acabar com elas [a Hungria chegou a devolver as terras aos proprietários pré-regime comunista], mas depois entenderam, com a ajuda da ACI [Aliança Cooperativa Internacional], que a corrupção era um mal causado pelas pessoas, não pelas cooperativas. E que, na verdade, o cooperativismo era o melhor caminho para a reconstrução das atividades rurais".

A crise da JBS, continua Rodrigues, volta a chamar a atenção para a necessidade de um melhor equilíbrio de forças no campo. Com os problemas derivados da delação premiada dos irmãos Batista, a empresa, que lidera os abates de bovinos no país – é responsável por mais da metade dos abates em Mato Grosso -, diminuiu o ritmo de suas atividades e ampliou prazos de pagamento, colaborando para uma forte queda de preços dos animais, o que deixou muitos pecuaristas em dificuldades. "Num momento como este, quem está organizado em uma cooperativa sofre menos", diz ele.

Para atender às expectativas globais de ser cada vez importante também para a segurança alimentar externa, o Brasil precisa, segundo Rodrigues, estabelecer uma logística de fato articulada entre os diferentes modais. E, para isso, tem de estimular parcerias público-privadas para ampliar aportes em hidrovias e ferrovias. Puxado por grandes tradings nacionais e estrangeiras, esse movimento já vem sendo responsável pela expansão da infraestrutura necessária para o escoamento da produção de grãos no chamado Arco Norte, mas, segundo ele, é preciso acelerá-lo.

"Para que a economia mundial cresça 20% em dez anos, estima-se que o Brasil tenha de elevar sua oferta de alimentos em 40%. Para fechar a equação, entretanto, é preciso levar em conta outros dois fatores: o primeiro é que, além de investir logística, o país tem de desenvolver um bom programa de acordos comerciais, com a consolidação de mercados antigos e abertura de novos. Nesse contexto, tem de negociar a redução de picos tarifários em alguns mercados e, necessariamente, tem de garantir a sustentabilidade de sua produção. E não só ambiental, ainda que não possa haver qualquer brecha nessa frente. Precisamos eliminar um calcanhar-de-Aquiles que voltou a dar dor de cabeça, que é o nosso sistema de defesa agropecuária", afirma ele.

Por mais que tenham sido focadas em casos de corrupção entre fiscais agropecuários e funcionários de frigoríficos, as investigações no âmbito da Carne Fraca geraram incertezas quanto à qualidade e expuseram fragilidades no sistema brasileiro de defesa, que em um primeiro momento resultaram em barreiras de dezenas de importadores às carnes brasileiras – eliminadas nas semanas posteriores -, mas que, na semana passada, geraram duras críticas da União Europeia e veto à carne bovina in natura do país nos EUA.

"A Operação Carne Fraca mostrou que ainda há falhas, e deixou claro que é impossível o governo fiscalizar todas as empresas de alimentos de todo o país de maneira eficiente. Quando fui ministro, defendi a criação de uma Agência de Defesa Sanitária, por meio da qual o governo exponha uma posição clara sobre as regras, mas terceirize o processo e fiscalize sua execução. O que mais preocupa atualmente é que quem faz tudo certo é fiscalizado com rigor – até porque é mais fácil -, mas quem está devendo muitas vezes não é punido. E os importadores sempre vão aproveitar para tirar vantagem dos problemas que forem identificados", conclui Rodrigues.

  • Por Fernando Lopes | De São Paulo
  • Fonte : Valor