Em busca de um café de qualidade e sustentável

Vista de lavouras de café conilon em Águia Branca, norte capixaba; múlti prevê que número de produtores que participam de programa chegue a 1 mil este ano
"Quem tem café não precisa de cofre", afirma, num tom entre sério e espirituoso, o produtor capixaba José Carlos Kubit. Não é difícil entender a frase do cafeicultor quando se está diante do que ele considera seu tesouro. Seus 40 hectares de café conilon estão na cidade de Águia Branca, no norte do Espírito Santo, região presenteada com montanhas de granito impressionantes, entre as quais se destacam as do Monumento Natural dos Pontões Capixabas.

Kubit e outros 701 pequenos e médios produtores de café conilon dessa região (de Águia Branca e mais 18 cidades) estão apostando em uma iniciativa da multinacional Nestlé que pode lhes permitir melhorar o desempenho da produção – e em consequência seus resultados. E, é claro, garantir que o "cofre" não se esvazie.

Há quatro anos, a multinacional suíça implantou na região um programa chamado Nescafé Plan, também aplicado em outros 13 países produtores de café do mundo, como Vietnã e Colômbia. Com a iniciativa, a empresa busca introduzir um padrão para o café e assegurar a produção sustentável da matéria-prima ao longo da cadeia. Quer, ainda, melhorar a qualidade do produto e a renda do cafeicultor e reduzir o impacto ambiental da atividade.

"Nossos principais objetivos são garantir a qualidade do café usado na marca Nescafé e estimular a produção sustentável do produto, de forma que os filhos dos cafeicultores tenham interesse em manter o negócio", diz Antonio Diogo, vice-presidente de bebidas da Nestlé no Brasil.

Como parte do programa, equipes da Nestlé dão acompanhamento técnico – trabalho em que o Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper) está envolvido – aos cafeicultores, e os orientam sobre a implementação de melhores práticas conforme o código 4C (Código Comum da Comunidade Cafeeira), conjunto de regras criado pela Associação 4C, plataforma internacional que reúne "stakeholders" relevantes do segmento cafeeiro de diversas partes do mundo. O objetivo é promover melhorias nas condições econômicas, sociais e ambientais na produção e no processamento de café.

O 4C define dez práticas inaceitáveis na atividade cafeeira e 28 princípios que devem ser seguidos. Entre as práticas inaceitáveis estão trabalho infantil ou escravo, destruição de recursos naturais e uso de agrotóxicos proibidos. Entre os princípios estão contrato de trabalho, tratamento equitativo para trabalhadores sazonais, conservação da biodiversidade, redução do uso de agrotóxicos, conservação do solo e dos recursos hídricos, monitoramento da qualidade do café e rastreabilidade.

As propriedades dos produtores que aderem ao programa passam pela verificação de uma auditoria independente, que avalia se as regras do 4C estão sendo seguidas corretamente e define se elas permanecerão no programa.

Como forma de incentivo às boas práticas, os cafeicultores que se juntam ao programa recebem R$ 3 por saca do grão. Eles também têm direito a comprar mudas de café de alta produtividade para renovação de suas lavouras em viveiros parceiros na região, com um subsídio de 25% da Nestlé.

Não há obrigatoriedade de vender o café à Nestlé. Mas os produtores que atendem aos requisitos do código 4C e entregam o produto para comerciantes credenciados pela multinacional, conseguem um prêmio de cerca de R$ 10 por saca de 60 quilos sobre os valores praticados no mercado local. Para o pagamento do bônus são considerados também critérios como práticas de manejo, produtividade das lavouras e qualidade do café entregue.

Neto de imigrantes poloneses que começaram a plantar café no Espírito Santo na década de 1930, Kubit foi um dos entusiastas do programa da Nestlé em 2011 e convenceu outros cafeicultores da região a aderirem. "Olho no pé de café e vejo meu dinheiro", afirma, ao justificar por que a iniciativa da múlti o atraiu. O cafeicultor também tem uma empresa de comercialização do grão e de cacau produzidos na região.

Para Salomão Tavares de Lacerda, também produtor em Águia Branca, o programa é positivo porque garante um melhor preço para o café que produz. "Se for vender café no mercado, recebo R$ 10 a menos", afirma ele, que está no negócio de café há 20 anos, assim como seu irmão Antenor Tavares de Lacerda. Ambos negociaram a venda de café conilon para a Nestlé, para entrega em julho, por R$ 300 a saca. Na última quinta-feira, o café era negociado a R$ 278,00 na região.

O cafeicultor José Carlos Kubit foi um dos entusiastas do programa na região
Mas o preço mais alto não é o único benefício, segundo ele. Salomão Lacerda considera importantes as informações que obtém dentro do programa sobre o mercado de café e sobre o uso de defensivos nas lavouras. "Pretendo erradicar o uso de veneno e trabalhar mais com prevenção de pragas", afirma o cafeicultor, que planta 20 hectares do grão em uma área total de cerca de 90 hectares e também tem um rebanho de gado leiteiro.

O subsídio da Nestlé na aquisição das mudas de café é um ponto positivo do programa, na visão de Valdeir Geraldo de Lazare, que cultiva 30 hectares no município. "Com as lavouras renovadas, podemos ter melhor produtividade".

Todo o café 4C comprado pela Nestlé nessa região do Espírito Santo é enviado para a fábrica da empresa em Araras, no interior paulista, para produção de café solúvel. Esse produto é vendido no mercado interno ou exportado para diversos países, segundo Diogo.

Conforme Pedro Malta, do departamento agrícola da Nestlé, o plano da empresa é aumentar o número de cafeicultores dentro do Nescafé Plan para assegurar a disponibilidade de café 4C nas quantidades planejadas. A expectativa é que o número de produtores chegue a 1.000. "Esse aumento deve acontecer ao longo de 2015, de acordo com a evolução dos diagnósticos prévios que fazemos nas fazendas para verificar se estão seguindo os padrões 4C, seguido da auditoria externa independente".

Com esse crescimento no número de fornecedores, acrescenta Antonio Diogo, o objetivo é que cerca de 50% do volume de café processado em Araras este ano seja de grão 4C. No fim de 2014, essa fatia era de 30%. A empresa não divulga as quantidades adquiridas. O dado sinaliza que ao promover o programa, a Nestlé acaba fidelizando o produtor e garantindo que terá oferta de café 4C para comprar e processar.

Malta reconhece que "por gerar valor para a cadeia, o Nescafé Plan acaba ajudando a fidelizar o produtor. O fato de oferecermos um pacote de serviços de forma voluntária e proativa, cria nos produtores a percepção de valor". Assim, acrescenta ele, os produtores participantes do Nescafé Plan tendem a comercializar a sua produção por meio dos comerciantes de café que fazem parte do programa.

A jornalista viajou a convite da Nestlé

Fonte: Valor | Por Alda do Amaral Rocha | De Águia Branca (ES)